O dia de hoje é radicalmente diferente do de ontem

Não é que a política dos PECs não nos levasse inevitavelmente a este desfecho. Não é que não continuamos a ser mandados pelos mesmos. Mas vir a ter este desfecho, não significa estar nesta situação. Perante a afirmação da crise em todo o seu esplendor, é preciso lembrar que ela não é neutra. Por muito que pareça que estamos todos no mesmo barco, é importante assinalar que, há muito, uns poucos já não estão aqui. A crise é uma espécie de catástrofe encomendada. Poucos vão lucrar muito, a grande maioria vai perder quase tudo. A crise é um instrumento da luta de classes. A maioria das conquistas sociais de gerações de trabalhadores vai ser engolida neste tsunami. Quando o tempo passar, o capital financeiro terá engolido uma ainda maior fatia dos rendimentos dos trabalhadores dos países do sul da Europa. E estará a pressionar para que se limitem os direitos dos trabalhadores do norte e centro da Europa. Perante este desastre seria necessário reconstituir uma esquerda capaz de afirmar que a crise e a austeridade não são uma obrigação, mas uma escolha política. A alternativa passa pela contrução de uma outra política à escala europeia. Acontece que embora a economia seja global, e a política económica e o euro sejam continentais, a política democrática existe apenas confinada nas fronteiras dos estados nação. O Parlamento Europeu não passa de um simulacro, afundado em burocracia, de uma democracia. Por isso, este combate acontece em todas os países, no espaço nacional de cada um. Em Portugal, PCP e BE deveriam perceber que não estamos em tempos normais. E que estes acontecimentos exigem respostas radicalmente novas. Fazer uma reunião entre os dois partidos é simpático, mas tem de ser mais do que uma encenação para eleitor ver. Só uma coligação entre comunistas e bloquistas alargada a outros activistas de esquerda podia ter a ambição de contestar a política dos PECs e do FMI. Quem não se bate para vencer torna-se progressivamente inútil.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

19 respostas a O dia de hoje é radicalmente diferente do de ontem

  1. Leo diz:

    O Nuno a fingir que não sabe que o BE vai sozinho e o PCP no âmbito da Coligação Democrática Unitária. É uma evidência.

    • Nuno Ramos de Almeida diz:

      Já cá faltava o cómico de serviço. nem sequer consigo perceber a questão.

      • Leo diz:

        7 Março, 2011:
        O Bloco de Esquerda irá fazer uma campanha eleitoral “pela positiva, mobilizadora, que responda ao risco da bancarrota com a mobilização das forças, o combate ao privilégio fiscal, concentrando-se na prioridade que é uma economia para o emprego”, revelou Louçã.

        http://www.esquerda.net/artigo/bloco-adverte-para-tentativa-de-%E2%80%9Celei%C3%A7%C3%B5es-fingir%E2%80%9D

        E dias depois:
        a deputada Helena Pinto, do Bloco de Esquerda, saudou a convocação de eleições e disse que o Bloco se vai apresentar “com as suas propostas políticas”, de “justiça na economia contra a austeridade”, recordando que não se fazem consensos alargados sem propostas políticas.

        http://www.esquerda.net/artigo/elei%C3%A7%C3%B5es-5-de-junho

        E mais proximamente:
        Francisco Louçã, anunciou que vai propor à VII Convenção, de 7 e 8 de Maio, uma estratégia de unidade à esquerda, no sentido de diálogos com o PCP, sindicalistas e socialistas.

        http://www.esquerda.net/artigo/pcp-e-bloco-de-esquerda-re%C3%BAnem-se-sexta-feira

        • Nuno Ramos de Almeida diz:

          e? continuo a não perceber o que essa coisada toda tem que ver com o meu texto. Em vez de despejar links podia tentar ler o post que comenta.

          • Leo diz:

            Eleições para a Assembleia da República 2011
            Gente que luta

            A CDU divulga hoje os primeiros candidatos à Assembleia da República nos círculos eleitorais de Braga, Bragança, Faro, Lisboa, Setúbal, Viana do Castelo, Europa e fora da Europa. Nos próximos dias serão apresentados os restantes candidatos da coligação entre o PCP, o Partido Ecologista «Os Verdes» e a Intervenção Democrática, homens e mulheres disponíveis a dar voz a quem não a tem, sempre ligados à vida e às aspirações dos trabalhadores e do povo.

            http://www.avante.pt/pt/1949/nacional/113644/

          • Nuno Ramos de Almeida diz:

            “dar voz a quem não tem”, também inclui a Mafalda Veiga?

          • Pascoal diz:

            “Nos próximos dias serão apresentados os restantes candidatos da coligação entre o PCP, o Partido Ecologista «Os Verdes» e a Intervenção Democrática”
            O PCP e os seus fantasmas. É pena.

      • João diz:

        Era uma piada do Leo, a querer dizer que o BE vai sozinho e o PCP também.

  2. miguel serras pereira diz:

    Acertas em cheio, Nuno, quando realças a necessidade de uma resposta à escala europeia. É ou devia ser evidente que o quadro do Estado-nação é uma arena ou uma trincheira absolutamente insuficiente para o relançamento democrático de uma nova organização económica como o que sugeres. Chutar a crise para o plano internacional, começando por europeizar as lutas, os protestos, os conflitos, obrigando a Europa a intervir, sim, mas de outro modo, seria um primeiro passo. O que passaria por desautorizar o governo do país e a previsível solução que Bruxelas nos quererá vender, por impedir o normal funcionamento das instituições europeias, reclamar a sua refundação e a sua efectividade noutros termos, apelar à solidariedade dos trabalhadores e cidadãos comuns dos outros países da UE, criando um foco de ingovernabilidade e tentando generalizá-lo.

    Vamos lá ver se haverá quem o perceba – e a tempo – tanto aqui como noutros lugares.

    msp

  3. susana diz:

    ““dar voz a quem não tem”, também inclui a Mafalda Veiga?” é muito bom. vai com LOL e tudo.

  4. José diz:

    “Quem não se bate para vencer torna-se progressivamente inútil.”
    Nem mais.

  5. joão viegas diz:

    Bravo ! “Quem não se bate para vencer torna-se progressivamente inutil.” E’ so isso.

  6. Pedro Rodrigues diz:

    Não tenho uma posição fechada sobre uma possível coligação embora ache que neste momento é difícil devido às próprias dinâmicas internas dentro de cada um dos partidos. Tendo a opinião que as convergências e os processos unitários vão ter que existir porque amplos sectores da esquerda social vão empurrar as esquerdas politicas e parlamentares a entenderem-se para se agregarem numa plataforma de resistência à austeridade.
    Sabendo que não é no espaço nacional que se constrói uma alternativa económica e social viável e duradoura para enfrentar a crise este, é também um sinal para as Esquerdas Europeias que são processos nacionais e transnacionais que poderão criar as transformações e rupturas necessárias.

  7. Justiniano diz:

    Caro Nuno RA, apenas um pormenor!!
    Esse capital financeiro é a representação da concentração da riqueza da industrialização e produção!! Ele não existe no vazio axiológico onde o quer colocar, como pura abstracção!! Se o conseguir ler assim torna-se mais profícua a crítica desejo subsequentes!!

  8. closer diz:

    Estou completamente de acordo com o post do Nuno e o comentário do Miguel Serras Pereira. Quando os partidos do PEC e da austeridade se unem para abençoar a vinda do FMI com todas as consequências que isso trará, a esquerda terá que ser capaz de responder de forma unida, organizada e combativa. Talvez ainda não seja o tempo das listas conjuntas (é pena), mas este encontro pode ser o primeiro passo para desbravar caminho

  9. Leo diz:

    “é fantástico que você consegue dizer isso sem se rir.”, responde o autor do post!

    Isto que eu disse, com toda a seriedade e sem me rir foi tão simplesmente: “O PCP não vai sozinho, no quadro da Coligação Democrática Unitária vai com os Verdes, a ID e muitos independentes.” É uma evidência, mas para o autor do post parece ser uma anedota.

Os comentários estão fechados.