Justificação histórica para uma Coligação de Esquerda

Proposta para um logotipo da Coligação de Esquerda (Autor: Jorge Fliscorno)

Nunca como hoje uma Coligação de Esquerda foi tão necessária para fazer face aos avanços da Direita portuguesa. Já se sabe que PSD, ou PSD e CDS, ou PSD, PS e CDS, sempre com o FMI, vão governar a partir de 5 de Junho. Por agora, não há muito a fazer face a essa realidade, a não ser contrapor uma força sólida, um conjunto tenaz das várias sensibilidades de Esquerda que vão resistindo no nosso país e que, em conjunto, seja capaz de chegar aos 20 – 25% e de sonhar, quem sabe, com os 30%.
Impossível? Quem anda pelas ruas e nos transportes ouve amiúde dizer que o PS é muito mau mas que não há alternativa. Votar em quem? Aos promotores da reunião de sexta-feira, exige-se que essa alternativa passe a existir na cabeça dos milhões de portugueses descontentes com tudo o que a política de Direita lhes deu.
A história mostra-nos que uma Coligação de Esquerda, que una Partido Comunista, Bloco e outros Partidos e movimentos, não é tão descabida como alguns querem fazer crer.
O próprio Bloco de Esquerda é a prova disso mesmo: resultou da fusão de PSR, UDP, Política XXI e outros pequenos movimentos. Ora, o PSR era essencialmente trostskista, a UDP marxista-leninista e a Política XXI o resultado da união entre dissidentes comunistas e antigos membros do MDP/CDE. Na junção de todas estas correntes, não faltaram sequer elementos com um passado ligado ao PCTP/MRPP.
São conhecidas as divergências entre trotskistas e leninistas ao longo da História. Em carta a Tchkheidze, Trotsky chegou a considerar que “todo o edifício do leninismo está hoje construído sobre a mentira e a falsificação e leva em si o germe envenenado da sua própria decomposição“, chamando a Lenine um «explorador profissional de todo o atraso no movimento operário russo» que mais não fazia do que «martelar em todas as ocasiões propícias a ideia da inevitabilidade do terrorismo» e que desejava «tomar o Poder com as suas próprias mãos, independentemente dos Sovietes e à revelia deste». A ideia, segundo alguns autores, era a de tentar desacreditar por todos os meios a memória de Lenine com o objectivo de substituir o termo leninismo por trotskismo.
Em resposta às opiniões produzidas por Trotsky, Lenine chegou a dizer que «passar por cima do movimento camponês seria brincar com a tomada do Poder». Sobre o caos da luta fraccionária, teoria defendida por Trotsky, Lenine considerou-a uma «clamorosa mentira», proferida por um homem de passado caduco que gostava de debitar «frases sonantes e ocas» e que tinha «um imperdoável vazio na cabeça». Afinal, termina Lenine, Trostky é, no fim de contas, um representante dos «piores restos do fraccionismo» sem qualquer ideologia precisa.
«Resultado: 1. Trotski não explica nem compreende o significado histórico das divergências ideológicas entre as correntes e fracções no marxismo, apesar de estas divergências encherem vinte anos de história da social-democracia e dizerem respeito às questões fundamentais da actualidade (como mostraremos ainda); 2. Trotski não compreendeu as particularidades fundamentais do fraccionismo, como o reconhecimento nominal da unidade e a fragmentação real; 3. Sob a bandeira do «não fraccionismo» Trotski defende uma das fracções no estrangeiro, especialmente sem ideias e privadas de base no movimento operário da Rússia. Nem tudo o que luz é ouro. Há muito brilho e barulho nas frases de Trotski, mas conteúdo não.» (Lenine)
Tudo isto para dizer o quê? Se forças como o leninismo e o trotskismo se puderam unir há bem pouco tempo em Portugal num Partido, apesar das naturais divergências históricas e diferentes pontos de vista, também actualmente seria possível, se todos quisessem, a formação de uma coligação eleitoral que, como é óbvio, não teria fins permanentes.
O próprio Partido Comunista, ao contrário da velha e estafada cassete de estar sempre contra tudo e contra todos, tem sabido dar exemplos de união e de alianças com forças próximas sempre que estão em causa os interesses nacionais.
Comecemos pelo ponto 3 do Programa do Partido: «O sistema de alianças político-partidárias abrange de forma diferenciada todos os movimentos, organizações e partidos democráticos que, nos seus objectivos e na sua prática, defendam os interesses e aspirações das classes e forças sociais participantes no sistema de alianças sociais.
O crescente domínio estrangeiro sobre a economia portuguesa e a subalternização dos interesses portugueses a interesses estrangeiros no quadro da restauração dos monopólios e da integração europeia criam condições susceptíveis de alargar ainda mais as alianças sociais e político-partidárias com objectivos concretos, mesmo que de natureza conjuntural.
Do sistema de alianças decorre a política do PCP no sentido da unidade da classe operária e de todos os trabalhadores, da unidade ou convergência das classes e movimentos sociais anti-monopolistas, da unidade ou convergência de acção das forças democráticas e patrióticas
Alianças político-partidárias com objectivos concretos, mesmo que de natureza conjuntural – parece-me que nada mais seria necessário para comprovar a exequibilidade da coligação que está em cima da mesa. Mas podemos sempre juntar-lhe alguns factos históricos.
A própria criação do PCP foi o resultado da união entre militantes saídos das fileiras do sindicalismo revolucionário e do anarco-sindicalismo. Em Dezembro de 1943, na sequência das grandes greves operários do ano anterior e desse mesmo ano, o PCP esteve na base da criação do Conselho Nacional de Unidade Anti-Fascista, órgão que conseguiu reunir todos os sectores que se opunham à ditadura salazarista, incluindo grupos militares e correntes católicas.
Nos anos seguintes, uma série de organizações evidenciaram as tentativas do PCP de congregar num amplo espaço político todos aqueles que se opunham ao fascismo. Foi o caso do Movimento Nacional Democrático; das Juntas de Acção Patriótica, às quais chegaram a pertencer elementos como Mário Soares ou Salgado Zenha, da Frente Patriótica de Libertação Nacional; das Comissões Democráticas Eleitorais; dos Congressos da Oposição Democrática; do MUD Juvenil; do Movimento da Juventude Trabalhadora (MJT); do Movimento Democrático das Mulheres; e de muitas outras instituições e organizações.
Muitas delas, sempre com o PCP na base da sua criação, foram fundamentais para a continuação da luta contra o fascismo e para importantes momentos de luta, como foram as candidaturas presidenciais de Norton de Matos e de Humberto Delgado.
A existência de diferentes pontos de vista internos acabou por ditar a divisão da grande maioria dos movimentos referidos. Algo que, mesmo assim, em nada reduz a sua importância histórica naquele momento preciso.
Já depois do 25 de Abril, o Partido Comunista soube encontrar plataformas de unidade com outras forças de Esquerda. Foi assim que nasceu a APU, formada pelo PCP, MDP/CDE e mais tarde por «Os Verdes»; e mais tarde a CDU – Coligação Democrática Unitária, que reúne o PCP e Os Verdes e que tem concorrido nas últimas eleições.
Pontualmente, como exigiam as circunstâncias, o PCP coligou-se com o PS de Jorge Sampaio para a corrida à Câmara de Lisboa em 1989. O acordo foi facilmente fechado, tendo em conta o perigo da vitória do PSD, e a coligação durou até 2001.
Aqui chegados, temos dois Partidos – PCP e Bloco – com uma história de alianças político-partidárias. Olhando para trás, o que interessa saber é que a a união deu bons resultados. É para isso que a História serve, para que dela se retirem lições para o futuro.
E o futuro é hoje. Uma coligação de Direita que muito provavelmente vai governar em coligação entre si e com o FMI e encetar (continuar) as políticas que todos conhecemos tem de ter um adversário à altura. Uma Coligação de Esquerda, que saiba apresentar-se como alternativa credível às políticas que nos governam há várias décadas e que seja um obstáculo a essas políticas, que culminarão necessariamente numa Revisão Constitucional, que se tornará inveitável com uma aliança PSD – PS – CDS, com os resultados de que todos suspeitamos.
Bastava que os políticos de Esquerda se entendessem. Afinal, as diferenças entre PCP e Bloco são assim tão inultrapassáveis? Não será que aquilo que os une é maior do que aquilo que os separa?

Nota: É um prazer estar de volta.
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