O que tu queres é música fácil?

Uma semana fora para ir à festa da Lega di Cultura di Piadena, que este ano tinha como tema «Para que serve o canto popular?», uma provocação de Sandro Portelli. Muitas respostas e questões foram postas num debate estendido por dois dias, no qual participou o Coro da Achada. E sobretudo muito se trabalhou, comeu, bebeu e cantou, construindo um convívio diferente dos normais, que juntou mais de duas mil pessoas de todo o mundo e palavras de várias lutas.

Regresso a Lisboa com um cansaço cheio de força e olho para as ruas e as casas com outro olhar. Quando saí de Lisboa havia Sócrates. Quando o avião aterrou em Malpensa, liguei o telemóvel e tropeçaram as mensagens: «ele demitiu-se!».

Apanho o metro. Tenho ensaio do coro da Achada à noite e vamos cantar a música que inventámos logo no comboio para Milão sobre a queda do Sócrates e que cantámos na festa de Piadena. Também à mesma hora do ensaio há no Chapitô o debate organizado pelo 5 Dias «A cantiga ainda é uma arma?» Pena por não poder ir, pena por o Coro da Achada não poder ir. Talvez possamos passar por lá depois, nós que andámos a discutir e a ouvir discutir um tema próximo – «Para que serve o canto popular?» – em três conversas no Centro Mário Dionísio e depois na festa de Piadena.

Vou no metro a pensar «deixa cá ver o que é que mudou nesta cidade». Os anúncios mudam. Nunca penso muito neles e é essa a ideia, não é? Entrarem-nos directamente para o subconsciente. Mas olho-os e percebo que não os tinha visto antes, que são diferentes dos da semana passada.

O que tu queres é música fácil. É o novo anúncio da Sapo. O grande balão vazio de uma pastilha elástica americana tapa a cara a uma loura-burra e é como se lhe tapasse a personalidade, o pensamento, qualquer fruto que lhe pudesse vir da cabeça. E é com essa loura-burra – figura que para o discurso e o pensamento dominante e a intenção da coisa só poderia sempre ser uma mulher, esse tipo de ser humano que só por si, mesmo que moreno, é burro – que temos de nos identificar. Enfim, um misto de termos de nos identificar com acharmos piada à coisa com alguma distância.

Eu por mim não vejo muita piada. Vejo uma empresa do capital a querer responder a esta onda de andarmos todos a pensar na música-que-faz-pensar-no-mundo-e-que-pode-fazer-revoluções, nesta altura em que tanto se fala da cantiga como arma e da canção de intervenção e política, por causa de toda a história que já sabemos dos Deolinda e dos Homens da Luta e do 12 de Março… A Sapo quer continuar a dar-nos música fácil.

Algumas pessoas do Coro da Achada ainda foram ao fim do debate no Chapitô. E ainda fizeram uma intervenção fora de tempo. Cantada.

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6 respostas a O que tu queres é música fácil?

  1. Youri Paiva diz:

    Diana, não viste ainda o anúncio na televisão. Da loira e do sapo, em que a loira é mesmo burra, mas tão burra que não consegue descarregar no iTunes uma música da Britney Spears… mas um sapo consegue.

  2. toutramado diz:

    Dizes tu que por ti não vez muita piada? Já eu não vejo piada nenhuma, quero lá saber se cantas no coro, se vais de metro com música-que-faz-pensar-no-mundo-e-que-pode-fazer-revoluções, nesta-altura-em-que-tanto-se-fala-da-cantiga-como-arma-e-da-canção-de-intervenção-e-política ou se pintas o cabelo!

    • Diana Dionísio diz:

      e eu quero lá saber que tu não queiras saber daquilo que não queres saber que eu não quero saber
      não és obrigado a ler o que não queres

  3. Obg Diana D
    Música cá em baixo já, não conhecia…

    🙂

  4. ui ai diz:

    ui ai a música capitalista e o imperialismo americano e as pessoas alienadas e as revoluçõezinhas que eu e os meus amigos fazemos a cantar lá lá lá.

    patético.

    • Diana Dionísio diz:

      ui ai ui ai fico tão incomodado com um texto “patético” que até deixo um comentário a dizê-lo… lá lá lá

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