O New Wave, a Old Fashion e o Futuro. Que fazer?

O debate foi um must, bem disposto e clarificador.

A Helena Matos parecia imbuída do espírito do Boaventura Sousa Santos, e entre relativismos pós-modernos, qual bipolar liberal-ensaísta, lá foi equiparando o 12 de Março das Avenidas da Liberdade ao 13 de Maio das vielas sacras do santuário de Fátima. Para lá de outros disparates como o de achar que percebe mais de política do que de música de intervenção (de registar que não foi capaz de acrescentar nenhum exemplo além das Doce, dos Da Vinci ou até mesmo, vá, dos Trovante, representativo do seu pós-património político) acrescentou, com altivez e senhora de propriedade, que as novas gerações falam com a barriga cheia dos privilégios que as portas de Abril abriu apenas a uma pequena parte da sua, que coitada, apenas pode usufruir da emancipação que só a pílula e os festivais da primavera Marcelista puderam parir. De ir às lágrimas.

O Miguel Morgado não se quis ficar por menos e foi mais longe garantindo aos vários discursos à rasca que os próximos cinco, dez anos, (olé Passos Coelho, olé!), e num lusco fusco social-democrata, a vida só pode ser melhor do que foram os seis anos de socialismo de marcado do governo Sócrates, uma vez que não sei quê não sei que mais que se perdeu no meio de grande eloquência. A velha receita de, como alguém disse, nacionalizar os prejuízos e privatizar os lucros, encontra sempre um cara larocas para vender roupa-velha disfarçada de iguaria. Foi, diga-se em abono da verdade, bastante mais sério do que a pós-marxista-ultra-liberal-proto-estalinista Matos, admitindo que a música de intervenção é coisa de esquerda e para a esquerda fazer revoluções, mais ou menos assim como o movimento do 12 de Março, do qual acha que é de todos e que da sua parte apenas há a acrescentar mais autoridade. A onda dele é o New-Wave, esclareceu, e ficou tudo explicado.

Apesar de terem saído do Chapitô com as orelhas a arder, ficou ainda por dizer outra banalidade: se a meritocracia que pregam fosse efectiva, muitos Fernandes, de Sousa,  Matos, Valentinas ou Marcelinos, eram os primeiros a ficarem reféns da “liberdade” do recibo verde, da benesse do subsídio de desemprego, do honroso paitrocínio e da não menos nobre mãecenato, ou até, pasme-se, do despesismo irresponsável do subsídio de sobrevivência. Estes divertidos darwinistas sociais, avant garde ou nouvelle droit, deveriam ser subjugados nem que fosse por seis meses à vil precariedade para poderem falar sem ser de cátedra sobre o que é não ter condições objectivas e subjectivas para sequer exercer a sua actividade política. Ao centro e à direita o seu voto em matéria plutopartidocrática não tem rigorosamente nada a acrescentar.

O Sérgio, o Tiago e o João, para rematar o debate à direita e falar do que valia a pena ser falado, explicaram como puderam que a malta está mesmo fodida, que o problema é de regime e de sistema mais do que de turno e que o movimento está nas ruas para mais do que derrubar o Sócrates ou outro Coelho qualquer, que sendo contra ou a favor dos partidos, violento ou pacífico, laico ou islâmico, vegan, anarca, autónomo, trotsko, estaleca ou tolo, quer enviar para o museu de antiguidades a ética republicana do circo democrático ou a hipocrisia criminosa das ditaduras toleradas.

Porque o debate serviu acima de tudo para isolar o discurso oportunista do governo de consenso, vulgo bloco central, que aí vem para aplicar PEC atrás de PEC, do António José Seguro ao Paulo Portas, ficou por perceber se o movimento do 12 de Março quer seguir as pisadas do movimento do 25 de Janeiro egípcio ou do 25 de Novembro lusitano. A palavra ficou assim do lado dos intervenientes: para quando um plenário da Geração à Rasca em Lisboa como já aconteceu, à pinha, no Porto ou em Coimbra? Por fim, a música, galdéria como a luta, saiu inesperadamente da boca de quem a trabalha.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

12 respostas a O New Wave, a Old Fashion e o Futuro. Que fazer?

  1. xatoo diz:

    e a Tété não disse nada?
    em última instância andava entretida a catar subsidios, que é o material com que cada albergue de conversa fiada governa a casa

  2. Pena não ter estado.
    Dos videos: conheço (vagamente) o Rui Pregal e o Pedro Paulo (pai do Marlon e da Flôr, amigos do meu filho, visitas de casa..) mas não faço ideia se estão aki, em Londres ou no Canada.
    Boas !!
    🙂

  3. Mas quanto a mim, a músiqinha definitiva ( e definidora…) dos «Heróis» é esta, a linha de baixo (é o Pedro Paulo e um TóZé que nunca conheci) é fenomenal.
    Ainda me lembro de ir a a casa de um amigo meu (tenor, e prof.) e estar lá o Rui a tentar «mudar de voz» (ou seja cantar na sua própria vox…)

    Tempos fantásticos esses anos ’80, saudades.
    Homenagem:

  4. Pedro Lourenço diz:

    Plenário no Porto é sexta-feira, dia 1 de Abril, pelas 21h30, no Clube Literário do Porto, Rua Nova da Alfandega, 22.

    Quem quiser aparecer, é bem-vindo.

  5. Pedro Lourenço diz:

    Plenário no Porto é sexta-feira, dia 1 de Abril, pelas 21h30 no Clubel Literário do Porto, Rua Nova da Alfandega, 22.

    Apareça quem quiser. novos, velhos, estudantes, desempregado, precários ou nem tanto.

    • subcarvalho diz:

      Além do plenário há uma 2ª Assembleia Popular do Porto (APP), na Praça D. João I, às 15h00 do dia 2 de Abril, sábado.
      No dia 12 de Março, após a manif, cerca de 200 pessoas juntaram-se na Praça D. João I para uma tentativa de criar uma Assembleia Popular e evitar que a contestação se ficasse pela manif e por uma simples gritaria anti-sistema.
      A verdade é que foi possível convocar uma 1ª APP para o sábado seguinte, 19 de Março. Compareceram cerca de uma centena de pessoas que se reuniram entre as 15h00 e as 19h00. Foram criados vários grupos de trabalho como podem ver:

      grupos de trabalho criados na assembleia com as datas de proximos reuniões:

      1) dos questões laborais
      22.03.2011 \ 21.30H café sinatra na rua Firmeza

      2) apoios sociais e necessidades básicas
      24.03.2011 \ 16.00H terra viva rua dos caldeireiros 203

      3) ensino publico
      25.03.2011 \ 19.00H piolho

      4) banca e contra a finanziarização do sociedade
      26.03.2011 \ 11.00h

      5) luta global
      26.03.2011 \ 19.00H terra viva rua dos caldeireiros 203

      6) formas de organização e dinamização das assembleias populares
      26.03.2011 \ 20.00H espaço musas rua do bonjardim, 998

      7) de entreajuda dos pais e mães

      8) habitação, ocupação
      24.03.2011 \ 21.30H gato vadio rua do rosário, 281

      9) recursos naturais e sustentabilidade
      21.03.2011 \ reuniao da horta da fontinha espaço musas rua do
      bomjardim, 998

      27.03.2011 \ 10.00H pousada do freixo

      A verdade é que há já muito tempo, digamos que 37 anos, desde o 25 de Abril de 1974, que não se via um movimento deste género a crescer no Porto. Não sou eu que o digo, nasci já na “Liberdade”, são companheiros e companheiras que estiveram no mesmo tipo de Assembleias aquando do PREC.
      Obviamente que as APP são abertas a todo(a)s e construídas por todo(a)s.
      É esta a única forma de mudarmos realmente o “regime”…AUTO-GESTÃO!
      Até lá…

      • subcarvalho diz:

        Falta dizer que a primeira APP foi convocada pelos colectivos CasaViva, Colectivo Hipátia, Associação Terra Viva, Associação/Livraria Gato Vadio e Associação Casa da Horta.

        • Pedro Lourenço diz:

          Sim, eu estive na concentração após a manif de 12 de Março na D. João I.

          Obrigado pela compilação dos “eventos”

  6. JMJ diz:

    cantigas à parte, começo a perceber que neste blog, é tudo gente velha que, por isso, não vai à Manif de amanhã, em Lisboa da Juventude Trabalhadora.

    Enfim, gira o disco e toca o mesmo…

  7. Daniel Nicola diz:

    Bela posta Renato, bela posta! Afinal, o que procuram estes “pós-marxista-ultra-liberal-proto-estalinistas”? Redenção provavelmente…
    algum sítio onde possamos ver o debate?

    • Renato Teixeira diz:

      Houve alguém a filmar. Estou a ver se identifico o câmara e se podemos tornar público um dos mais interessantes debates dos últimos tempos.

  8. Gostaria de dixer: o meu tempo nas ‘manifs’ (se é que isso adianta) já foi.
    Enormes.
    Serviço de ordem.
    Vários países, diff causas.
    Agora façam ustedes, se tiverem cara e coragem e um módico de motivação.
    Força (ou então rebentem) !

    :/

Os comentários estão fechados.