De gorilas, cartadas e esperanças.

Na verdade não é preciso pensar especificamente em Woody Allen para que apareça alguma cita dele arrombando a porta da memória, pois as coisas brilhantes sempre ficam algures no inconsciente da tola. Desgraça, não dura muito a alegria na casa do pobre, é descobrir que, metendo a Groucho no barulho, a cita foi mal outorgada, pois é da autoria do Terry Pratchett e não do cineasta. Mas como não tenho nenhuma foto de Pratchett a correr diante de um gorila e não vou pedir a ele que faça isso (agora que foi nomeado nobre pela rainha da Inglaterra e que, por desgraça, tem Alzheimer), fica Mr. Allen no início da posta.

Dizia Pratchett que “Deus não joga dados com o universo; Ele joga um jogo inefável de sua própria criação, que poderia ser comparado, da perspectiva de qualquer um dos outros jogadores [todos nos], a estar envolvido numa obscura e complexa versão de póquer numa sala completamente escura, com cartas em branco, por apostas infinitas e com um crupiê que não lhe diz quais são as regras e que sorri o tempo todo.” Sempre pensei que isto servia mais para as campanhas eleitorais, onde os jogadores andam a sorrir sem parar, mostram-se tremendamente queridos e de confiança e podem deitar no lixo a cartada e apanhar qualquer outra com a finalidade de nos tirar o pilim todo. As cartas são, claro, as promessas eleitorais. Só que desta vez não vai ser assim. A situação da “mão” faz com que nesta rodada grande parte das cartas ficassem à mostra.

O PS demonstrou que está disposto a ir esganando aos poucos ao pessoal (que é feito de borracha) para contentamento dos mercados: PECs até termos que passar dos números latinos aos árabes por comodidade. A dita direita parlamentar esfrega as mãos e tenta tentar convencer que ir aos poucos não resulta. Aguardo impaciente a entrada da fantasma da flexibilização das leis laborais (ou, como dizia o outro malandro: “despedimento livre, que é para fomentar o emprego”). Mais pouco me interessa o que possa apresentar a bancada da destra. Com o gorila exfoliante (mesmo à Donkey Kong) por essa banda, a solução está em ir cara a outra direcção, quanto mais rápido melhor. Olhem para Mr. Allen, que carinha leva.

Social-democratas, reformistas ou o que lhes queiram chamar… o exemplo da Islândia está aí e é encorajador. As manifestações do país à rasca também são encorajadoras, assim como o mal-estar que se sente na rua e as vontades de mudança. Será que os partidos de esquerda querem tomar responsabilidade?

Venho seguindo as postas do Nuno e concordo com ele (e, pelos vistos, com muita mais gente dentro e fora da blogosfera). O país precisa de uma alternativa de esquerda, uma série de medidas para nos tirar da tragédia. Não falo de beijos nem promessas de amor eterno entre partidos diferentes, nem de uma sorte de amiguinhos da vida ao estilo PSD/CDS-PP. O povo merece representantes responsáveis e conscientes da importância do momento histórico que vivemos.

Do tempo que levo em Portugal nunca vi uma outra situação tão propícia para uma alternativa da esquerda (real), onde esquerdistas sem filiação e com filiações diferentes tirassem cara a mesma direcção. Se não for agora, meus caros, não sei quando.

Uma coligação PCP / Bloco de Esquerda que integrasse independentes serviria para que muitos lhe dessem, eleitoralmente, todo o seu amor. Nas urnas e nas ruas. Eu já tenho visto misturas mais esquisitas soarem bem…

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2 respostas a De gorilas, cartadas e esperanças.

  1. Leitor Costumeiro diz:

    Pratchett, o Shakespeare dos Gnomos… Quanto ao resto, mais depressa lerei todos os livros do Pratchett e verei todos os filmes do Woody, que verei uma aliança Esquerda Unida nesta “dropout nation”. Tal entendimento era o melhor que podia acontecer, mas ortodoxos são ortodoxos…

  2. Antonio Mira diz:

    Não podemos deixar de acreditar nem deixar de pedir.

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