Prémio Pritzker 2011

A pedido de várias famílias e fora do contrato que me liga a esta instituição aqui fica em estéreo:

A atribuição do Pritzker a Eduardo Souto Moura é um prémio justíssimo para a carreira de um atelier. Digo atelier e não arquitecto pois, ao contrário dos casos de Siza, Zumthor ou Mendes da Rocha, neste caso, premeia-se sobretudo a obra de uma entidade por onde têm passado muitos dos melhores arquitectos de várias gerações. De memória, sem rigor cronológico e esquecendo, involuntariamente, tantos outros recordo-me de Paula Santos, Francisco Vieira de Campos, Graça Correia, David Adjaye ou Pedro Mendes… entre tantos outros.
Mas esta também é uma vitória que tem de ser partilhada com a Escola (com “E” grande só pode ser a do Porto). Carlos Ramos, Fernando Távora e Siza Vieira (Álvaro Siza para consumo internacional) e Souto Moura (Souto de Moura para consumo internacional) fazem parte de uma estrutura de sucessão, fortemente defendida e construída por figuras menos conhecidas mas importantíssimas na arquitectura portuguesa do séc. XX como Alexandre Alves Costa, Domingos Tavares e Nuno Portas. A este lisboeta formado para combater a Escola do Porto, não lhe resta muito mais do que afirmar a sua excepcionalidade na arte de se continuar a recriar, produzindo profissionais para o mundo a um nível apenas equiparável, em Portugal, às escolas do Sporting dos anos 80/90 com Figo, Simão, Nani ou Cristiano Ronaldo – com a vantagem do elo escola-profissão nunca se ter quebrado.
A obra premiada é absolutamente extraordinária, até porque, desenvolvida na sua maioria em Portugal. Ao contrário do que sucede com Siza, todas as mais relevantes obras de Souto Moura foram realizadas em Portugal. Aliás, o país é bem caracterizado pela forma como o próprio relata publicamente como lhe foi entregue o projecto do Estádio do Braga a partir de um telefonema de Mesquita Machado ou pelo seu comentário ontem à noite na RTP2, esperando que este prémio lhe traga algum trabalho.
Souto Moura gosta de caracterizar a obra do seu atelier como de arquitectura anónima, o que não é bem verdade.
Como não podia deixar de ser a obra premiada conta com altos e baixos, mas não posso deixar de me associar ao coro que destaca o Estádio do Braga como uma obra maior ou a importância urbana do Metro do Porto. Talvez quebre a unanimidade quando considero representações menores algumas das suas casas para uma certa burguesia e, em especial, para a que se projecta para a estrela do Real Madrid CR7 – que o Francisco Vale aqui publica.
Mas este também é um prémio para o Eduardo que, ainda na Escola, apresentava um belíssimo projecto ao concurso para um Monumento ao General Humberto Delgado (1979) que aqui deixo a imagem de uma maqueta retirada da lista de projectos de uma monografia publicada pela velhinha e saudosa Blau:

Por fim concluiria destacando a decisão de Saramago quando, após o Nobel, deixou de aceitar prémios. Sábia decisão que lhe poupou tempo, elogios palermas e muitos convites para eventos sociais em torno do seu nome. Muito gostaria que Siza e Souto Moura tivessem a mesma clarividência para que a sua arquitectura não seja canibalizada por mestres de circunstância.

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12 respostas a Prémio Pritzker 2011

  1. Leitor Costumeiro diz:

    Souto Moura!?!?Quem é?!?Viva o Benfica!!!!

  2. als diz:

    O ponto mais baixo de ambos foi a bosta da Av. dos Aliados no Porto.

  3. mesquita alves diz:

    Tiago,

    Um atelier não tem carreira, tem história. O Mourinho também divide tarefas com a sua equipa, mas o treinador é o Mourinho.
    A parte das “casas para a burguesia”, tem, certamente a ver com as “palas”, indissociáveis sua formação política.
    Você analisa um quadro pela sua estética, ou se foi feito para um rei qualquer?Infelizmente, os melhores quadros dos últimos 400 anos, foram feitos para reis e
    Se há qualidade que Souto Moura tem, é a modéstia, e aí, é claramente o oposto daquele senhor, da escola de Lisboa, que projectou a casa de banho de Alvalade!
    Quanto ao comentário da Av dos Aliados, penso que foi o vizinho. Contudo, concordo, é uma bosta!
    Ab.

  4. LAM diz:

    Quanto à casa de Sto. Estevão – CR7, não sabemos, ou melhor, se calhar até sabemos muito bem, que o arquitecto tem de ir ao encontro das pretensões e gosto do cliente…de maneiras que nem sempre a liberdade está apenas dependente de um orçamento generoso.

  5. o da boa-fé diz:

    A arquitectura desligou-se hoje das grandes questões sociais do nosso tempo. Já não há uma arquitectura de intervenção, uma arquitectura que materialize (ou que sirva de palco/cenário para) as utopias que caracterizam o ser humano; e que sempre o diferenciaram das abelhas, das girafas, das minhocas, dos deputados da nossa Assembleia da República. E nem sequer ao arquitecto desta tasca parece necessário reflectir a arquitectura actual, antes louvar os seus mestres que a convertem em mera técnica de tornar cómodo e habitável (luminoso, espaçoso, desafogado, com boas vistas) para uma pequena elite um mundo filho da puta e cão.

    Souto Moura não representa nenhuma excepção a esta regra: a sobriedade e a competência da sua arquitectura não nos devem por isso fazer perder demasiado tempo.

    É uma evidência, mas alguém tinha de dizê-la no meio de tanta passividade perante o existente.

  6. iskra diz:

    Pois eu até gosto da Av. dos Aliados. Acabaram com aqueles canteirinhos do tempo do falsismo!

  7. AM diz:

    LAM

    tenha santa paciência
    o Souto, como é óbvio a quem quer que seja que ponha os olhos nos “bonecos”, fez o que muito bem lhe apeteceu com o proj. para a casa do CR(agora)9

    obg, pela foto da maqueta, T.
    já não tinha recordação

    • LAM diz:

      “como é óbvio para quem quer que seja que ponha os olhos nos bonecos”?
      Em primeiro lugar não sei onde estará esse óbvio. Como é que olhando quer para os bonecos finais, quer eventualmente para os esquiços prévios (se a eles teve acesso), se pode concluir que a opinião e os desejos do cliente estiveram daí arredados. Em segundo lugar e mais ainda, estranho será em qualquer obra que o cliente não imponha os seus gostos e que o próprio arquitecto não cuide de saber as suas pretensões.

  8. LAM diz:

    Morreu o Angelo de Sousa.

  9. Petunio diz:

    Tremenda injustiça o prémio não ter sido atribuído a J. Sócrates.

  10. Daniel Nicola diz:

    Pena é que num país com dois “Pritzker”, ainda para mais vivos, as cidades tenham sido pensadas nas últimas décadas por construtores civis e “inginheiros” como os que se conhecem. Os resultados estão à vista de todos. Pena.

  11. Tânia Vânia diz:

    Aiiiiii… tanta inveja. E a questão dos prémios e do Saramago… que falácia caro amigo, que falácia. Sai um on the rocks, um não, dois, que o Souto também é capaz de querer 🙂

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