A contradição interessante da sondagem da Intercampus

A última sondagem da Intercampos dá dois resultados politicamente significativos:
Os partidos do PEC (PSD, PS e CDS) têm cerca de 85% dos votos dos inquiridos, mas quando se pergunta aos mesmos, se estes PECs têm servido para alguma coisa? Quase 33% dos inquiridos garantem que não serviram para nada, contra cerca de 14% que dizem que afiançam que os PECs foram muito úteis para resolver a situação do país.
É claro nesta sondagem que o maior problema que tem o PCP e o BE é conseguir tornar-se o voto credível para as pessoas que são contra os PECs e que perceberam que eles só nos levam ao desastre.
A situação actual da situação política está bem espelhada nos resultados da sondagem. A maioria dos eleitores prevê que o próximo governo vai fazer as mesmas políticas deste, embora sendo do PSD, e a maioria não acredita que haja uma alternativa a estas políticas de austeridade.
Cabe à esquerda demonstrar que a austeridade é uma política de classe que vai destruir as conquistas sociais de quem trabalha. Redistribuindo, mais uma vez, uma fatia cada vez maior do rendimento nacional aos mais ricos. A esquerda tem de mostrar, também, que esse caminho tem custos do ponto de vista da nossa independência económica, dado que vai continuar a destruir os sectores produtivos portugueses, privilegiando, reiteradamente, o capital financeiro em relação aos sectores que produzem bens e serviços.
Para conseguir contestar este caminho, PCP e BE têm de demonstrar que existem outras políticas económicas alternativas para combater a crise. E, sobretudo, têm de conseguir convencer as pessoas que podem ser uma alternativa política e eleitoras ao bloco central dos interesses.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

16 respostas a A contradição interessante da sondagem da Intercampus

  1. Nuno permite-me discordar quanto aos «remédios» que propões.
    “Demonstrações” são para profs. universitários em anfiteatros.
    O que a esquerda tem que fazer é um «agit-prop» interessante, imaginativo e sobretudo convincente.

    Else, fica tudo na mesma.

    Just my two damn cents.

    :/

  2. a anarca diz:

    Muito certo !
    Só há um pequenino problema para demonstrar é preciso saber …

  3. maria povo diz:

    …nem que se tenha de fazer o boneco!!!!

    há que levar as pessoas a votar! e para isso há que explicar as diferentes propostas alternativas, senão… psd-cds serão governo! Portas já regressou às feiras…

  4. xatoo diz:

    na actual situação já “não precisam convencer as pessoas” coisa nenhuma
    o Johnny Carlos Espada já veio hoje no Público dizer que toda a gente tem de se conformar com o que o governo Cavaco-Sócrates-Passos-Portas decidirem: “ainda vamos a tempo de construir uma solução democrática, sem enveredar pela via autocrática” diz o cronista; e a alimária que foi até à pouco tempo filósofo de serviço a Belém sabe certamente do que fala.
    Portanto, conformem-se lá com os vossos papelinhos enfiados na urna e com as ilusões de mudança. Como dizia o banqueiro Santiago Malpago na ópera Banksters, “isto sólá vai à porrada”, agora é só escolher dar ou receber

  5. miguel serras pereira diz:

    Nuno,
    Nada a opor ao que propões como momento ou atalho social-democrata de uma democratização radical da economia política (da economia e da política) que sofremos, contanto que o seu programa e os seus protagonistas assumissem um compromisso claro e convincente com a extensão da participação igualitária no governo – não só com outras medidas, mas com outro modo de as tomar e garantir.

    msp

  6. 500 cidadãos e cidadãs de esquerda enviaram hoje às direcções do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista Português um apelo “para que se encontrem, com o objectivo único de debater alternativas de governo, à Esquerda, que mobilizem o povo português para uma ruptura com as políticas neo-liberais”.
    A iniciativa surgiu na noite da passada quarta-feira nas redes sociais, traduzindo-se na recolha de assinaturas numa petição on-line, intitulada “Por uma alternativa de Esquerda”, que permanece aberta à subscrição.
    Os cidadãos não defendem nenhum modo específico de concretização desse encontro entre os partidos à esquerda do PS, mas pedem que “sejam interlocutores a CGTP e as organizações representativas dos trabalhadores, os partidos da esquerda extra-parlamentar e os movimentos sociais progressistas”, por considerarem fundamental que “todos juntos (partidos, movimentos e cidadãos de esquerda) consigamos ultrapassar divergências, em nome de uma mudança de rumo do país, que responda aos anseios não concretizados da Revolução de Abril”.

  7. Graca Sampaio diz:

    Duvido que consigam – convencer as pessoas. E serão mesmo uma alternativa credível? Permito-me duvidar.
    Quando essa esquerda esteve no governo depois de 74, foi o que se viu…
    Lamento.

  8. nf diz:

    Da mesma forma que muitos dos poucos que votaram em Cavaco não o fizeram por acharem que ele é o homem providencial, honesto e a-partidário capaz de pôr isto na ordem, mas por puro conservadorismo ― segundo o qual não se mexe na equipa, nem quando se está a perder ― também muitos votarão em PS/PSD por razões semelhantes. Estamos na merda e na merda continuaremos, mas ao menos é tudo muito usual e reconfortante, pois esta é a merda a que nos fomos habituando. Isto para dizer que a questão é acima de tudo ideológica e, num primeiro mas fundamental momento, não passa nem pela apresentação de um programa sério para a governação do país nem pelo lançamento duma campanha eleitoral sistemática e esclarecedora (embora, obviamente, também tenha que passar por aí). Ter-se-á que indicar um caminho para a verdade que, por assim dizer, consiga desmontar o ar que se respira. Trabalho de sapa, quase impossível, mas, ainda assim, necessário.

  9. Jorge Bateira, no Ladrões de Bicicletas, está de acordo com esta necessidade de traduzir o protesto em proposta:
    “Em seminários de trabalho, eventualmente com o apoio de economistas estrangeiros a convidar, os economistas do PCP, do BE e independentes, fariam um esforço de concretização de uma política económica exequível que, distribuindo com justiça os sacrifícios que forem inevitáveis, evite o desastre financeiro, económico e social que um «governo de pilhagem partilhada» nos vai apresentar como inevitável e merecedor da nossa resignação. Esse esforço de convergência deveria culminar com a candidatura unitária CONVERGÊNCIA E ALTERNATIVA.”

  10. Update: 581.
    Eu fui um dos 40 primeiros.
    Vai dar em ???

    E depois um tipo interessante e culto como o Carvalho da Silva aparentemente não estará disponível.

    Pity is the most…

    🙁

  11. LAM diz:

    Contra todas e mais algumas evidências que possam ser demonstradas, com excepção de uma franja que representará à volta de uns 10 a 15% , que decidem se a vitória cai para o PS ou para o PSD, o voto nos partidos é qualquer coisa de muito próxima com o fervor pelo clube da bola. Em maior ou menor percentagem, isto é transversal a todos os partidos. É portanto muito difícil, sem condições objectivas (que ninguém também sabe bem quais serão ou o que as poderá despoletar), que haja transferência de votos significativa que, por via parlamentar, imponha outro tipo de políticas. Mas uma coisa sabemos e é concreta: o desperdício de muitos votos em muitos distritos pode ser utilmente revertido com a criação de convergências tão alargadas quanto possível entre todas as forças de esquerda, com e sem representação parlamentar e até “personalidades civis” que subscrevam essa agenda comum.

    Apesar de muitos esforços, talvez até por estar mais focada em desmontar as práticas e propostas da direita, tem sido difícil aos partidos e organizações políticas da esquerda levar as suas propostas além do limitado perímetro dos seus indefectíveis. Não tem adiantado apresentar propostas alternativas que se limitam a “picar o ponto” para justificar a sua existência e que, na maior parte dos casos, nunca sequer passaram a uma fase de discussão da sua substância e viabilidade. A própria defesa da concretização dessas teses, nos raríssimos momentos em que vêm a luz de qualquer debate público, tem carecido de argumentos e exequibilidade o que sobra de tremideira.
    Precisamos portanto de um programa mínimo, inteligível, explicável e fazível, em torno das garndes questões do momento e do futuro próximo. Precisamos de uma alternativa AGORA e para o tempo de AGORA. Quanto ao resto, daqui por 4 ou 5 anos logo se vê.

    • AA diz:

      O PCP parece – aliás, naturalmente – receoso. O BE não se pronuncia sobre esta possível aliança?

      • LAM diz:

        Acho que usou a palavra certa: receoso. Talvez do BE, se houver resposta, não difira muito disso. Preferem manter a guarda aos respectivos galinheiros do que correrem o risco da ampliação da luta.
        Isto não invalida contudo que, daqui por 1 mês, lancem raios e coriscos sobre o “voto útil no PS”, como se ninguém à esquerda tivesse culpa disso…

      • Leo diz:

        Naturalmente receoso? Sempre, sempre a mesma eterna moenga de se associar o PCP a sentimentos negativos. Sempre. sempre. Andamos nisto há 90 anos. O espantoso é o PCP continuar combativo, com sangue na guelra, inovador e muito bem acompanhado por gente de todas as gerações. Gente séria, gente tolerante, gente sábia, gente determinada. Gente que vai sempre à luta. E que vai mesmo à luta eleitoral! Em todo o país, com convicção e determinada a esclarecer e a convencer. Que é preciso pôr o país a produzir e a dar prioridade ao emprego, como andamos há décadas a defender.

Os comentários estão fechados.