Venha quem vier, aconteça o que acontecer, hoje é dia de festejar a queda de uma das maiores abjecções (políticas) pós-1974

Até ao fim, o indivíduo tentou dizer que o sol não era sol, que triunfou sem nada haver para triunfar, que conseguiu o que nada representa, o que nada tem de positivo, o que toda a gente sabe que de nada serve. Como, por exemplo, vir dizer que é “um bom exemplo para o país” (estas “palavras” ditas pela pessoa em causa suscitam-me asco, aquele “asco” que um tal Kant dizia não suscitar análise nem palavras), repito, que é “um bom exemplo para o país” um acordo com os “parceiros sociais”. Repare-se, o homem considera positivo um / este acordo com os parceiros sociais, mesmo sabendo que não está aqui representada a maior central sindical portuguesa. Isto é Sócrates puro. Desprezo pelo mundo do trabalho, pelos seus argumentos, por aqueles que de facto o representam. Desprezo pela comunidade em que todos vivemos, pela sua maior parte. Não é apenas ignorância da realidade – é indiferença perante a realidade e os seu dramas. Sim, porque o que representa a UGT coisa outra que não o PS, o governo, no fundo, o prório Sócrates? E só Sócrates podia entender-se com Sócrates, claro. Iniciemos aqui uma semana (no mínimo) de festejos! E isto é também razão para o PS festejar. A não ser lacaios sem nome, todos os outros dentro do partido, desse partido, festejarão!

A notícia, a verdadeira notícia é esta:

“Este acordo não tem legitimidade objectiva, porque os portugueses e os trabalhadores, em particular, não estão de acordo com esta regressão”, afirmou o líder da CGTP, Carvalho da Silva, à TSF.

O acordo para a Competitividade e o Emprego teve luz verde das quatro confederações patronais e da UGT, mas a CGTP retirou-se das negociações depois de o Governo ter anunciado um novo pacote de medidas de austeridade.

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28 respostas a Venha quem vier, aconteça o que acontecer, hoje é dia de festejar a queda de uma das maiores abjecções (políticas) pós-1974

  1. O Rural diz:

    Abjecção maior que esta, só mesmo no dia 26 de Abril de 1974, quando ninguem foi levantar o poder que caiu na calçada do largo do Carmo, até hoje!

  2. Pedro Penilo diz:

    A ministra André que avalia as greves em kilowatts.

  3. donatien diz:

    Gostei de ver.Havia de os ter partido!

    • Carlos Vidal diz:

      Aos papéis que trazia devotamente no regaço?
      Esses já nasceram partidos, isto é, sem nexo, iletrados, quebrados.
      (Apesar de tudo, ainda quebraram a vida de muita gente.)

  4. Bruno Peixe diz:

    Não encontro grandes motivos para celebrar. Primeiro, porque subscrevo o Boaventura de Sousa Santos, quando disse que, se as eleições servissem para mudar o que quer que fosse de relevante, há muito que tinha sido proibidas. E convém não confundir a reciclagem periódica de tachos na cozinha do poder com política.
    Dito isto, os tachistas do PSD sempre me pareceram menos desejáveis do que os do PS, mais desavergonhados, e ao mesmo tempo mais convictos na forma como rapam o tacho e dizem aos outros que têm de se contentar com as migalhas.
    A verdade é que por muito pouca política que veja no parlamentarismo, não me consigo abster, talvez porque não vivo fora dos efeitos dela. E é nesse sentido que me parece que caminhamos, a esse nível que, repito, não é onde está a política digna desse nome, para um equilíbrio de forças mais à direita.
    Oxalá me engane.
    Abraço,
    Bruno.

    • Carlos Vidal diz:

      Caríssimo,
      Já reparaste que te estás a meter numa embrulhada argumentativa sem saída?
      Já reparaste que assim só podes acabar keynesiano, que é o capitalismo na sua versão “menos má”?
      Versão que, neste contexto presente (e recentemente passado) nada tem a ver com o PS, claro.
      Custa então muito negar / refutar / tudo fazer para destruir (“niilismo activo”, lembras-te?) os dois, PS e PSD?
      Consegues mesmo achar Sócrates “menos mau” que Passos?
      E, se sim, que fazer com isso meu caro? Um caminho, uma “esperança”? Em quê?
      Na última eleição brasileira, deu para aprender uma coisa curiosa. Alguém dizia, não sei se os Sem Terra (do lado de quem estou / estamos), que era preciso derrotar o candidato da direita nas eleições e a Dilma, depois, na rua. Isto é, continuar a luta, a luta concreta, goste ou não a Dilma dessa luta, de ocupação de terras, de distribuição “ilegal” de riqueza, etc.
      Não podemos fazer o que tu fazes ou dizes, Bruno. Negar é negar os dois por igual e combater um de forma diferente do outro.
      Sempre foi isto que eu admirei em Debord: a invenção de uma estratégia, OK?
      E foi isso que Debord admirava em Gracián, Maquiavel, Clausewitz, Tucídides…..
      É que não há mesmo outra via.
      Grande abraço (amanhã, passa então pela “esplanada do Siza”).
      CV

  5. Bruno Peixe diz:

    Combinada a esplanada, Carlos. Quanto a negar os dois por igual, não podia estar mais de acordo. É por isso que não consigo celebrar a queda do Sócrates. Aquilo a que estes momentos de queda de um governo nos expõe é a triste realidade da eterna repetição do mesmo. E à tarefa cada vez mais urgente de interromper esse movimento. Só aí, quando essa interrupção se fizer sentir, é que vou ter razões para celebrar.
    Abraço,
    Bruno.

    • Carlos Vidal diz:

      O momento da queda é fundamental e sempre de festejar.
      Aqui, trata-se de algo que fornece consciência.

      No caso do Egipto e da Tunísia, tratou-se (como escreveu Badiou) de saber que um Estado pode ser derrubado (independentemente do que a seguir vier).
      Nós não derrubámos: aquilo, cá, caiu de podre.
      Mas é fundamental esta percepção da (possibilidade da) “queda”.

  6. Renato Teixeira diz:

    Continuo sem perceber que raio de poder amnésico o PS tem sobre alguma esquerda. O PS foi sempre mais determinante para os recuos do que o PSD. Hoje, ninguém consegue de resto estabelecer diferenças programáticas de substância. Recusam encarar a realidade e a realidade é que o PS tem uma direcção política tão liberal quanto o PSD, com muito menos resistência social.

    Quem já percebeu que o regime democrático nada tem de democrático só pode ficar contente com o derrube sucessivo das cliques que nos governam. O crescimento das forças políticas à esquerda, e acima de tudo, um número enormíssimo e crescente de gente que cada vez vota menos no centrão, nem se que seja para deixar de votar, é revelador de que de tombo em tombo maiores serão as fissuras e a capacidade de fazer a transferência de poder, a destruição do aparato e ir garantindo conquistas parciais importantes.

    O argumento de que não temos razões de festa porque o Passos Coelho é pior do que o Sócrates é a aplicação consequente da doutrina (já deve ser doutrina) do mal menor e esvazia todo o pensamento político. É um argumento, como explicou bem o Carlos, que nos leva a desistir de todo e qualquer projecto de sociedade alternativo e radicalmente antagónico. É acabar sempre no colo de um Alegre de ocasião, à primeira, à segunda ou à terceira volta.

    Não deixa de ter a sua ironia que esta relativização, esta escolha entre não escolhas, vem maioritariamente daqueles que à esquerda do PS concorrem a eleições e disputam o voto à alternância anti-democrática.

    Portanto o motivo é de festa e de festa rija e deve ser tão ou mais saudada do que a queda de Santana ou o exílio de Barroso. Qualquer nostalgia só se justifica por fetiche e já não encontra nada na realidade que o suporte.

    • Carlos Vidal diz:

      Eu percebo onde o Bruno quer chegar, apesar de não estar evidentemente de acordo.
      E também percebo que uma mão cheia de inenarráveis medíocres venha posteriormente a dispor de exílios dourados: Ferro Rodrigues, Vitor Constâncio, Durão Barroso, António Guterres….
      Isto é bom e mau: é bom para eles, enriquecem à custa de incautos, é mau para a justiça política séria, e acaba por ironicamente ser bom para nós, porque desaparecem de cena, de Portugal.
      Mas a celebração pelo desaparecimento destas personagens tem de se realizar.
      O Vara, por exemplo. De certeza que vai fazer estragos em Moçambique, de certeza que vai ser muito mau para a nação moçambicana ter aquela personagen a viver por lá. Mas, de exílio em exílio, aquela gente um dia não terá para onde ir.
      Como já é tarde da noite, remataria assim abruptamente:
      foi o Mao que nos ensinou que a guerra seria prolongada.
      Agora há que cumprir esta via.
      E celebrar.

    • Renato Teixeira diz:

      Mais, é evidente que o bloco central se enfraquece se não conseguir levar os seus governos até ao fim. Bastaria isso para brindar, no fundo. Ou acham mesmo que um sector importante da direita não transpira por ter que ser cada vez mais assim?

  7. De acordo com quase tudo, excepto nisto: nem o Féfé, nem o Constâncio (que não conheço) nem o prof. Guterres, nem sequer o «abrunhoso» do Barroso são medíocres.
    Podem ter sido péssimos políticos, isso é outra coisa, vocação errada, ” limites de Peter”.

    Just my two damn cents.

    :/

    • Rocha diz:

      Dariam bons capitalistas então. Eu continuo a achar que eles são medíocres, eles e toda a sua classe capitalista.

    • Carlos Vidal diz:

      Caro major, de todos esses o meu preferido em competência genial é o sr. Constâncio!! Nada medíocre, nada mesmo.

  8. casapia diz:

    Resumindo e concluindo:O Sócrates que vá para a puta que o pariu!

    Agora,há gizar a Cloigação eleitoral entre o PCP e O BE,pq a soma dos dois é maior do que cada um por si só,somados!

    Quanto ao PSD já imagino elenco ‘governamental’:Dias Loureiro:ministro das Finanças;João Rendeiro:ministro da Economia;:Eurico de Melo,ministro da casapia;Isaltino de Morais,….valentim Loureiro,…..Duarte Lima,……Paulo Portas:ministro da defesa/compra de submarinos e venda de segredos (60 mil páginas!!!(Não percebo como os militares não lhe deram um pontapé no cú mas,creio que são da mesma loiça que eles…)da Defesa,…..

  9. Bruno Peixe diz:

    Renato,

    Não sei qual é a tal « certa esquerda » em que parece que me estás a por. Não podia estar mais de acordo contigo – como se pode depreender do que escrevi – quando escreves que « ninguém consegue de resto estabelecer diferenças programáticas de substância ». Já que encontrem menor resistência social, as duas últimas semanas, bem como as sucessivas manifestações de professores, provam que isso não é bem assim. E ainda bem. Sendo assim, porque é que não me consigo convencer a tirar a taça do armário e brindar com vocês?
    1º porque mais do que derrubar governos, o que importa é derrubar a governabilidade em que assenta a dupla parlamentarismo-capitalismo;
    2º porque ao contrário de ti não me parece que a queda de governos contribua o que quer que seja para isso – até ver trata-se do rotativismo do costume;
    3º a abstenção eleitoral não faz prova de qualquer crescimento das forças anti-sistémicas: países como os EUA e o Reino Unido vivem com altíssimas taxas de abstenção;
    4º é nisso que o PSD aposta quando insiste na tecla dos ciclos uninominais;
    5º o facto de julgarmos impossível qualquer transformação relevante a partir do parlamentarismo não me leva a achar que é tudo igual e eu prefiro um sistema onde haja lugar para partidos como o PCP e o BE;
    6º as quedas e eleições de governos fazem tanto parte do espectáculo do parlamentarismo como a chamada « governação estável »
    7º não tenho dados para isto – e seria bom que alguém informado me contradissesse ou confirmasse – mas tenho a ideia que os governos do PS são estruturalmente mais favoráveis à intervenção do Estado e menos dados aquilo que o patronato vem chamando « as reformas necessárias »;
    8º defendo que devemos sair da dicotomia entre Estado e mercado, entre público e privado, mas de forma nenhuma defendo que são equivalentes: nem Estado nem mercado, mas antes Estado do que mercado.
    Por agora fico-em por aqui.
    Quando cair o Passos tiro o copo do armário e brindo com vocês.

    Um abraço,
    bruno.

  10. Renato Teixeira diz:

    Bruno, eu não te meti em nenhuma esquerda, essa direito é, felizmente, de cada um de nós.

    Levou poucos dias até que Barroso, Santana e Portas tivessem protestos onde quer que metessem os coutos. Levou anos até o mesmo acontecer com Sócrates. Anos. Alguns de grande e tenebrosa apatia.

    Já reparaste que cada vez menos gente confia no bloco central? Atenta à soma dos seus votos desde a primeira ronda eleitoral desde os dias de finados do PREC.

    Pelo teu raciocínio não sei porque irás festejar a queda do Passos Coelho. A seguir não se seguirá um António Costa, ou um outro José a jogar pelo Seguro?

    Acho que insistes em encontrar diferenças entre dois partidos que há muito são o mesmo lado da má moeda que nos destrói a vida.

    Abraço

    • Justiniano diz:

      Bom toque Renato, ao ângulo!!
      Surpreende-me esta queda, do Bruno Peixe, no abismo utilitário dos males dos menores!E a inclinação intuitiva pela coisa Estadual como se fosse tudo público, baldio à espera da sementeira!! Sim, porque sim!!
      E não percebo, verdadeira e genuinamente, onde é que o Bruno foi buscar a ideia de que ele ou o PS significavam maior resistencia à mercantilização da alma humana que o PSD, mesmo com o Passos (pensava eu, erradamente, que o BE apenas conseguia influenciar gente menor de idade)!! O mais extraordinãrio é que se esta táctica, 5x4x1, resulta com o Bruno, que me parece compreender a construção de sociedades, culturas e economias, como não há-de de resultar com outros nossos irmão menos avisados nas andanças do demónio!!
      Quedo-me verdadeiramente surpreso!!

      • Carlos Vidal diz:

        Também não percebo muito bem o Bruno.
        Estaria à espera de um PEC 6 ??
        Se não fosse o belo dia de hoje, ele viria, caro Bruno, podes estar certo de que viria.

        • Justiniano diz:

          Caríssimo Vidal, o caro Bruno que tenha calma que ainda pode bem vir a receber um renovado “ele”. A coisa ainda não acabou!!

          • Carlos Vidal diz:

            A coisa está a começar, caro Justiniano.

            Mas há dois pontos – Bruno, atenção:

            ponto 1:
            “Eu nada festejo, pois não estou para festejar a perpetuação do rotativismo como sempre, entre os de sempre”.

            ponto 2:
            “Eu nada festejo, pois quem lá vem a seguir é pior”.

            Bruno, eu posso perceber o ponto 1, ou o argumento 1, mas não o ponto 2.

  11. Justiniano diz:

    Caríssimo Bruno,
    “7º não tenho dados para isto – e seria bom que alguém informado me contradissesse ou confirmasse – mas tenho a ideia que os governos do PS são estruturalmente mais favoráveis à intervenção do Estado e menos dados aquilo que o patronato vem chamando « as reformas necessárias »;”
    Isto é simplesmente um pobre mito urbano!!
    Excepto se a intervenção a que se refere for a intervenção porque sim e porque não!! Eu, visitando, a história de ontém, e, as respectivas distritais do Porto, de Coimbra e meia dúzia mais, arriscaria mesmo o inverso, caro Bruno!! Actualmente já não sei, mas parece-me tudo muito igual, como bem dizem!!(Mas há um que tem um Lello, um Canas…)
    Mas, mais importante, quando por virtude de um Sócrates nos entregamos ao mundano exercício de saber qual das duas donzelas é mais fogosa, só nos podemos quedar tristes, caro Bruno!! Agora, nos jargões e bordados, de esquerda, e a vender automóveis, nisso, caro Bruno, o PS ganha aos pontos!!

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