Os invisíveis

Um marciano que aterrasse em Portugal e visse as televisões e lesse os chamados jornais de referência concluiria que o assunto mais importante do país era o congresso do CDS.
O paladino do jornalismo light e sexy, o Público, dá-lhe três páginas. Os canais televisivos noticiosos estão de manhã à noite em permanente directo. O que lá acontece de novo? O líder é contestado? O CDS/PP vai deixar de ser oposição e apoiar o governo? Nada disso, ao todo e por junto, Nobre Guedes reconciliou-se com Paulo Portas. O congresso do CDS é uma não notícia. Nada de novo aconteceu. Tudo de importante: a chamada à votação do PEC IV no parlamento, o facto de ir concorrer sozinho as eleições que se avizinham, estava decidido antes do conclave começar. O sonorífero massacre televisivo só pode ter duas razões: ou os jornalistas de política tornaram-se tão próximos de determinados políticos que se esqueceram dos critérios jornalísticos, não percebendo que noticiar significa mediar e seleccionar o importante no meio do acessório, ou, no caso das televisões, para justificarem o fim de semana em Viseu e os meios de directo deslocados, torturam os espectadores com incontáveis horas de emissão.
O mais grave é que essas horas não significam uma cobertura de qualidade, toda a comunicação social referiu que o congresso tinha cerca de 1000 delegados, na votação sobre o fim das eleições directas do líder participaram pouco mais de 300 delegados e nenhum jornalista reflectiu sobre a veracidade da informação que divulgaram antes.
Voltemos ao Público, e à maioria da comunicação social, ao contrário do congresso do CDS, minimizaram a gigantesca manifestação da CGTP. Na edição online ela estava relegada para as últimas notícias e o referido diário, por exemplo, dedica-lhe uma página. O Correio da Manhã corre a coisa com 1/4 de página. Uma cobertura substancialmente diferente daquela que, correctamente, dedicaram às manifestação de dia 12 de Março. É visível que para a direcção do jornal da Sonae, como para os outros, há camadas sociais que são visíveis, como os delegados do CDS, e outros que praticamente não existem. Uma das maiores manifestações sindicais que Lisboa viu, nunca aconteceu. É suposto ser silenciada com umas linhas de circunstância.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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8 Responses to Os invisíveis

  1. Pisca diz:

    Será que vai aparecer aquele fulano dos jugulentos a fazer contas, 2+3-16×89+7-14=a avenida estava vazia ?

  2. idi na huy diz:

    É a Ditadura da CLASSE burguesa.Afinal, MARX está actualissimo!!!Vivemos numa ditadura,embrulhada por uma ‘democracia’ de corruptos,palhaços e assassinos em q se incluem os sucialistas,of course…No dia em q os partidos do arco do ‘governo’ forem arredados,chamarão de uma Ditadura.É o caso da Venezuela mas,eu prefiro uma do Stalinista e,para os venenosos,não foram mortos milhões,nem um milhão…!Vejam a Estónia como muitos ficaram vivos….

  3. José Manuel Torcato Ribeiro diz:

    Já há muitos anos que estamos confrontados com esta triste realidade, controlo da dita comunicação social pelos grandes grupos finaceiros, mas a pergunta que se impõe neste cenário é: Que fazer?
    Cumprimentos

  4. Nuno querias o quê ?
    À uma o jornal é do Bel/Sonae.
    Às duas o que vende é intriga e «gajahs semi-nuas», e ‘frutebol’.
    Manifs. onde não há disso não são assunto.
    Necessário vender papel, pah !
    Mesmo que a ‘coisa’ custe umas quantas árvores numa floresta lá na Suécia ou na Finlândia…)

    🙁

  5. SANTIAGO MACIAS diz:

    Caro Nuno

    O desfile de 12 de março foi importante, isso é inegável.
    O que acontece é que teve, também, o beneplácito do patriciado urbano. Que pôde, finalmente, participar numa “coisa daquelas”. O que foi giríssimo.
    Ontem foi diferente. E os de ontem não têm acesso aos media do poder. O “Público” online tinha há pouco, uma tonitruante afirmação de Portas (Paulo): “Portas promete governar sem mentir aos portugueses”. Ora nem mais. O que conta é o saundebaite! Não é a gigantesca manif de ontem.

    Abraço
    SM

  6. Helena Borges diz:

    É isto tudo. Chicotada certeira, Nuno.

  7. João Torgal diz:

    Estava a pouco a ver a Sic Notícias e fiquei impressionado com a quantidade de tempo que se esteve a falar sobre o NADA. É que de facto pouco ou nada havia a dizer sobre este congresso, a não ser pormenores de circunstância. Embora infelizmente não tenha podido estar na Manif, de certeza que houve bem mais assunto ontem e terá ficado para 2º plano na Comunicação Social.

    Nuno, 1/4 de página sobre a Manifestação até me parece muito para o Correio da Manhã. Não estava nada à espera.

    • Pisca diz:

      Parece que os anuncios “especiais”, também andam em crise e à ultima da hora tiveram que encher com “alguma coisa”

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