Esperto no cabeço

Não há fumo sem fogo, nem na verdade é preciso haver fogo para chamar os bombeiros: eles não demoraram a materializar-se para arrombar a porta do apartamento do Sidney da Pontinha depois de ele lhes ter ligado do Nokia a prestações. “O preto esqueceu-se das chaves dentro de casa”, gritou o bombeiro de turno, a despachar quatro homens para o local. A polícia demorou mais a chegar, e sem identificar o alegado morador, os bombeiros está quieto, calha de o preto ser um assaltante e depois a gente é cúmplice, topas? “Documentos”, pediu a autoridade, consubstanciada em dois. Sidney sacou da carteira com a tranquilidade dos justos e a elegância que levara uma namorada alentejana com mãe cinéfila a baptizá-lo assim, “a minha mãe diz que pareces mesmo o Sidney Puátiê” – quem? “Alfa Xis”, leu a autoridade no Bilhete de Identidade emitido pelo Arquivo de Identificação de Lisboa, e Alfa Xis, uma fome do caraças depois de 10 horas a acartar tijolo, achou que estava mais perto da cozinha. Estavas. “Cartão de residência”, inquiriu a autoridade. “Cartão de residência?”, perguntou Alfa Xis do alto do seu metro e noventa. “Sim, cartão de residência”, repetiu a autoridade. “Como é que eu vou ter cartão de residência se eu sou cidadão português?”, perguntou Alfa Xis, a rir-se da ignorância na cara da autoridade. A autoridade fez peito. “Tu não és estrangeiro? Os estrangeiros têm de ter autorização de residência para viver em Portugal”. Alfa Xis pensou no peixe, a descongelar desde madrugada no quentinho da casa, tirou suavemente o BI das mãos da autoridade, e pôs-lho à frente dos olhos, cartão amarelo para a autoridade: “Como é que eu posso ser estrangeiro com um Bilhete de Identidade português?”. A autoridade também achou curioso, porque voltou a pegar no BI e deu-lhe duas voltas. “Olha”, disse Alfa Xis, a tratar a autoridade numa base de tu-cá-tu-lá, que era o que a autoridade claramente preferia, “vou perguntar ao SEF se também tenho direito a um cartão de residência para portugueses, mas agora, aqui comigo, só tenho Bilhete de Identidade”. Aquilo soou a compromisso aos ouvidos da autoridade, que também tinha jantar à espera, não se sabe se carne ou se peixe: assina aqui, podem arrombar. Pouco depois Alfa Xis entrava em casa, direito à faca mais afiada da cozinha, mas antes de atacar a dourada com sevícias de cozinheiro, largou um portuguesíssimo foda-se.

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