a lata de gasolina e o fósforo no dia em que a rainha foi coroada por um dragão.

Puseram-me o primeiro filme à frente, assim com uma introdução de nada que deu ideia quase de uma bd, boa, mas bd, e de repente, aqui estou. Os outros dois filmes foram logo de seguida. Depois, a seguir ao primeiro volume, voltou a ir o primeiro, e o segundo depois de lido o segundo volume. Já podia ter acabado o terceiro, mas estou intencionalmente a retardar o fim, a ler tudo muito devagarinho, e a voltar atrás, e a fazer retrospectivas. Primeiro, porque sim, porque apetece. Mas sobretudo porque acho que vou entrar num terrível cold turkey quando acabar.

… quando acabar não sei se vejo só A Rainha no Palácio das Correntes de Ar, ou se faço uma overdose e vão os três de seguida. E sete, sete livros que nunca se escreveram com a morte de Stieg Larsson, e para onde vai assim o resto da vida de Lisbeth Salander, do Super Blomkvist, da Suécia? o resto da nossa vida, nós que estamos todos ali numa ilusória bidimensionalidade, num mundo mental em que o ser humano de repente parece capaz de amor e razão e inteligência a jogar o jogo que tantas vezes o traz derrotado. É uma das coisas que se pode ganhar com a saga Millennium. Se sobra consciência de que o inferno não é o limite a que os seres humanos se levam uns aos outros o limite fica bem para lá do inferno, também fica um sentimento profundo de confiança. Nas pessoas. Nas pessoas que sabem e querem reconhecer o outro como a si mesmas.

 

Fica dragão tatuado.

 

M01. Os homens que odeiam as mulheres | M02. A rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo | M03. A rainha no palácio das correntes de ar

Sobre Sassmine

evil fingering.
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12 respostas a a lata de gasolina e o fósforo no dia em que a rainha foi coroada por um dragão.

  1. Obrigado pelas dicas Sassmine.

    Tenho que procurar esses livros (talvex na Férin da Rua Nova do Almada ?)

    🙂

  2. Sassmine diz:

    Confesso que a minha caixa veio da FNAC. A tradução portuguesa é da Oceanos.

  3. Helena Borges diz:

    Devorei os dois primeiros há um ano e deixei o terceiro pendurado até anteontem. Pousei-o hoje. Fica dragão tatuado, mas sabe a tão pouco. Não houvesse os sete que não vão cumprir-se e…

    (Detective no armário desde a Colecção Vampiro da tia São às escondidas, nas férias em Vila Pouca de Aguiar.)

    Quando lia o primeiro ou o segundo, tropecei num texto que afirmava que a trilogia do Larsson era misógina. Absurdo, até porque implicava uma gradação do feminismo à misoginia: afastando-se do feminismo, teria de aproximar-se da misoginia. Absurdo, nem misógina… Nem feminista! Apesar disto, acho que podia ser mais poupada nos estereótipos. O jornalista cinquentão com o mulherio pelo beicinho é um bocado enjoativo, mas, enfim, há-de ser um alter ego, desculpa-se.

  4. Sassmine diz:

    🙂 Eu por acaso acho a trilogia deliciosamente feminista. Aliás, aquilo para mim é o estado óptimo do feminismo, afirma-se a cada passo sem nunca precisar de se nomear. E ver o ponto de vista da mulher escrito daquela forma por um homem… bom, acho que nunca vi tamanho testemunho de alteridade, tamanha capacidade de entender o tamanho da violência sobre o suposto outro. Repito-me, é o melhor dos feminismos porque esse suposto outro não é outro, não se distingue homens de mulheres a não ser no reconhecimento da violência e do preconceito (pela acção, não pela dissertação, à boa maneira detectivesca só aparentemente amoral). Só se vê pessoas, e entre elas pessoas preconceituosas de vários graus (aquele detective obcecado com as Evil Fingers, toda aquela palhaçada mediática em torno da Salander ser uma lésbica sado-maso, o primeiro volume que traz logo por título “os homens que não amavam as mulheres”, tema que se prolonga na figura de Salander pelos restantes volumes), e por outro lado pessoas que têm uma ânsia de liberdade quotidiana. Muitas formas de liberdade. Ser-se uma pessoa decente também é uma forma de liberdade. E na Suécia é bem mais acessível ao cidadão médio do que aqui, resultados de democracias que apesar de todas as imperfeições se levam a sério. Outro dia saíu-me assim e acho que nos tempos próximos vou repetir muitas vezes: na Suécia têm uma Polícia de Defesa da Constituição; aqui temos de defender a Constituição do parlamento.

    E o cinquentão é um doce, Helena. Até na forma como aprecia, chamêmos-lhe assim, mulheres radicalmente diferentes (entre a tattoo da Salander e a madurez da Harriet Vanger vai outro libelo feminista). Um bocadinho pueril. Mas acaba por cumprir a sua função, apagando-se na história de Salander, que no início não se percebe (intui-se, mas não é claro) ser o centro da saga. Já viste os filmes? 🙂

    • Helena Borges diz:

      Vi há pouco. Acho que o terceiro omite mais do que os outros, mas pode ser impressão de quem não respirou entre o livro e o filme.

      Quanto ao feminismo, estava distraída com os implantes de silicone, mas estes serão uma adequação às expectativas que agrilhoam os corpos das mulheres, a cedência de quem já resistiu tanto. O Larsson não conta histórias de deuses, conta vidas de pessoas imperfeitas como nós. Tens razão, haverá feminismo no meio disto tudo, neste escrever com a mão da mulher, do outro que é mulher. Mais ou menos como nas canções do Chico Buarque.

      O cinquentão é docinho e ecléctico, não há quem consiga resistir-lhe. Bem, só a pivot… Até ao terceiro livro. Reformulo: um bocado enjoativo é o mulherio todo pelo beicinho!

      😉

    • Helena Borges diz:

      Não temos polícia, mas temos cidadã! Obrigada pelos artigos, gosto de ler um (ou dois) por dia, nas calmas.

  5. Sassmine diz:

    A comparação com o Chico é na mouche, Helena, nunca tinha pensado nisso. Quanto ao silicone… eu estou com a Haraway: somos todos ciborgues. 😉

    Em tua homenagem, sai já o artigo da CRP de hoje, antes que o dia se complique mais… *

  6. Sassmine diz:

    E estou aqui em ânsias com a versão americana que se está a fazer. Bem, é David Fincher, mas… não é a Noomi Rapace. Diz que ela não aguentava mais a personagem, o que se compreende, mas eu não consigo conceber a Salander noutro corpo (apesar das maminhas da Rapace se manterem pequeninas. :))

    • Helena Borges diz:

      Mas o Daniel Craig é tão G. I. Joe… E o Blomkvist pede love handles. E sem Noomi Rapace, pois…

      O mercado cinematográfico norte-americano estupidifica, não gosta de dar a ouvir outras línguas, também porque não lucra tanto com elas. Lembro-me logo do remake do “Funny Games”: o Haneke repetiu os planos todos, assim ao milímetro e ao milésimo de segundo, mas em inglês e com a Naomi Watts lá dentro. Não quis mexer muito no que acha que fez bem em 1997. Very, very, very clever!

      Mas quero ver a versão norte-americana. Na pior das hipóteses, será pretexto para ranhosar mais um bocadinho!

  7. Sassmine diz:

    sim. 🙂

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