@rtavares, uma eleição não é uma nomeação e a democracia é representativa, infelizmente. @miguel e marisa, quando escreverem e votarem resoluções para abrir caminho às intervenções da NATO no Bahrein, na Arábia Saudita ou no Irão, digam qualquer coisa no tuit.

O Rui Tavares diz que vota o que lhe dá na real gana com o mandato que recebeu dos eleitores. É um direito formalmente inquestionável mas eticamente muito duvidoso, uma vez que as pessoas que o elegeram fizeram-no com base num programa político e não pelo seu maior ou menor brilhantismo parlamentar. É um bom esclarecimento. Diz o Rui que “no PE a regra é a liberdade de voto, felizmente”, justificando de seguida os motivos pelos quais votou a famigerada alínea 10 da não menos famigerada resolução que abre caminho à intervenção da NATO na Líbia, e que, como o Bruno desmontou e se deduz do tuit acima, para lá do seu nome estar entre os signatários o texto até pode ter sido escrito pelo Miguel Portas.

Sem nenhum respeito por este tipo de magistraturas, de políticos que se julgam eleitos pela sua mais ou menos esbelta compleição física, cor dos olhos ou dress code, tenho vontade de deixar a conversa por aqui, ainda para mais porque o Rui Tavares ainda se dá ao despudor de colorir as suas explicações caracterizando a vigilância democrática dos eleitos pelos eleitores por “fúria inquisitorial”, insinuando também sobre a minha maior ou menor capacidade como jornalista. Para quem diz querer fazer um debate sério sobre a intervenção militar do Ocidente na Líbia é no mínimo um mau começo. Em nome da fidelidade ao programa com o qual pediram aos cidadãos os seus votos deveriam ter ido pelo caminho com que estavam comprometidos.

Afirma o Rui Tavares para justificar a sua opção pela intervenção militar: “Temos na Líbia um ditador armado até aos dentes”. Ora, sabendo nós que o Rui Tavares acha o mesmo de uma boa dúzia de chefes de Estado, impõe-se a pergunta: para quando uma resolução sobre cada um desses espaços aéreos, de Luanda a Pyongyang, de Havana a Gaza? Esta frase, por outro lado, também nos leva a concluir, e o camarada independente que o desminta, que “os ditadores armado até aos dentes” de Bagdad, Cabul e Belgrado tiveram o que mereceram da comunidade internacional. Lamentavelmente os respectivos povos passaram a ter não um mas dois tiranos com quem tiveram que lutar, não um mas dois exércitos dos quais se tiveram que se defender, não um mas duas artilharias que descarregavam sobre eles o seu fósforo branco, o seu urânio empobrecido ou a sua pólvora democrática. Está bom de ver que esses povos ficaram muito melhor depois das referidas intervenções e para que não reste qualquer dúvida basta ver o histórico das vítimas civís em cada um desses países.

Rui Tavares, insolente, acusa os que não estão nem com Kadhafi nem com a NATO de estarem a “marimbar-se” para a resistência líbia, que estamos a deixar “que eles se lixem”, mas pelo menos deixa claro que tem consciência do leitmotiv desta discussão e das portas que a resolução que aprovou abre: “o mundo não é feito só da “melhor das hipóteses”, e quero ser honesto com os problemas que uma zona de exclusão aérea pode criar. Uma zona de exclusão aérea pode criar um casus belli e uma pressão para uma intervenção militar e/ou ocupação da Líbia.”

Ao contrário do que pensa o Rui Tavares esta não é uma discussão nova e não foi preciso esperar pelos deputados do BE no PE para haver quem encontre mil maneiras elegantes de contribuir ou acabar na trincheira do imperialismo. A este propósito, nada como reler uma passagem da entrevista que Trotsky deu a Mateo Fossa: “Existe actualmente no Brasil um regime semi-fascista que qualquer revolucionário só pode encarar com ódio. Suponhamos entretanto que, amanhã, a Inglaterra entra em conflito militar com o Brasil. Eu pergunto a você de que lado do conflito estará a classe operária? Eu responderia: nesse caso eu estaria do lado do Brasil “fascista” contra a Inglaterra “democrática“. Porquê? Porque o conflito entre os dois países não será uma questão de democracia ou fascismo. Se a Inglaterra triunfasse ela colocaria um outro fascista no Rio de Janeiro e fortaleceria o controle sobre o Brasil. No caso contrário, se o Brasil triunfasse, isso daria um poderoso impulso à consciência nacional e democrática do país e levaria à derrubada da ditadura de Vargas. A derrota da Inglaterra, ao mesmo tempo, representaria um duro golpe para o imperialismo britânico e daria um grande impulso ao movimento revolucionário do proletariado inglês. É preciso não ter nada na cabeça para reduzir os antagonismos mundiais e os conflitos militares à luta entre o fascismo e a democracia. É preciso saber distinguir os exploradores, os escravagistas e os ladrões, por trás de qualquer máscara que eles utilizem!”.

Libyan leader Moamer Kadhafi (C) poses with Arab leaders for a family pictures at the opening of the Arab Summit on March 27, 2010. Sudanese President Omar Al-Beshir, Yemeni President Ali Abdullah Saleh, Kadhafi, Chairperson of the African Union Commission Jean Ping, Tunisian President Zine El Abidine Ben Ali, and Italian President Silvio Berlusconi; Morrocan Prince Moulay Rachid, Egyptian Premier Ahmed Nazif, Arab League Secretary General Amr Mussa, UN Secretary General Ban Ki-Moon, Turkish Premier Recep Tayyip Erdogan and Omani Vice Premier Fahd bin Mahmud Al Said.

Ora, mesmo sabendo que qualquer um dos três deputados não defende uma saída revolucionária, o mínimo que seria de esperar, e porque todos dizem estar contra uma ocupação militar, é que fossem coerentes com essa posição. Não querer a NATO em Portugal nem Portugal na NATO mas colaborar para que a NATO venha a entrar noutro país não só não tem qualquer sentido como as suas consequências serão pagas exclusivamente pelo povo líbio.

O BE ficou mal na fotografia e neste caso não vai a tempo de emendar a mão. A máquina de guerra, como se viu das declarações da NATO na sequência da moção que aprovaram, está em marcha.

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34 respostas a @rtavares, uma eleição não é uma nomeação e a democracia é representativa, infelizmente. @miguel e marisa, quando escreverem e votarem resoluções para abrir caminho às intervenções da NATO no Bahrein, na Arábia Saudita ou no Irão, digam qualquer coisa no tuit.

  1. m diz:

    não percebo nada destas lutas, só sei que jamais pertencerei a um partido. nesse dia deixava de ser pessoa e passava a ser um papagaio a debitar o que lá vem não sei onde ( o programa?) sob pena de grandes castigos se me atrevesse a opinar ao lado da cartilha. não há paciência para ajuntamentos.

    • Renato Teixeira diz:

      “O que lá vem não sei onde” é suposto ser a vontade dos eleitores. Que outra vontade preferia? A do deputado? Miss? Ditador? Rei?

  2. Pedro Dias Silva diz:

    Suponho, portanto, que na guerra que opôs a Alemanha à Inglaterra (“Nacional-socialismo” vs. “Democracia”) um bom trotskysta tenha estado do lado dos fucking nazis…

  3. o da boa-fé diz:

    Sr. Teixeira,

    O “Isto é uma piolheira”, com que D. Carlos – o dos balázios – manifestava o seu desprezo pelo povo que ‘representava’, foi adoptado por alguns eurodeputados relativamente ao seu eleitorado. Nenhuma dúvida em relação a isso.

    Os eurodeputados do BE também devem gostar daquele maravilhoso e lúcido soneto de António Nobre que termina:
    “Amigos,
    Que desgraça nascer em Portugal!”

    O que é Rui Tavares?! Para que serve? A que fede?

    “Dizia Spencer que o principal é fazer do homem um bom animal” (Miguel de Unamuno).

  4. JP diz:

    trotsky versão brasileira e uma leitura às três pancadas do ‘imperialismo, fase superior do capitalismo’ como se 2011 fosse 1916.

    *[censurado o resto do comentário. Considerações sobre a minha qualidade jornalística é favor dirigir-se a http://ruitavares.net/textos/sobre-a-libia/. ]

    • Renato Teixeira diz:

      Karl Kautsky versão alemã e uma leitura às três pancadas do “Programa de Erfurt do Partido Social Democrata da Alemanha” como se 2011 fosse 1891. Para dinossauro, dinossauro e meio.

      • JP diz:

        Vai ter que me desculpar mas não aceito a censura. O Renato assume-se publicamente como jornalista e autor de blog mas depois não aceita críticas quando revela ignorância sobre aquilo que escreve? É que não é tanto por aquilo que lê ou que ouviu dizer mas antes por tudo em que nunca sequer se deu ao trabalho de pensar.

        • Renato Teixeira diz:

          Publiquei a crítica, censurei o insulto. Ponto final, parágrafo. Tente o Rui Tavares. Pode ser que o publique.

  5. xatoo diz:

    um destes dias apontei aqui o dedo a Rui Tavares acusando-o de ser um submarino do lobie sionista (embrulhado no papel pardo do BE e entregue na comunicação social corporativa)… dito assim de chofre poderia parecer uma acusação espúria… mas, fora da retórica “de esquerda”, as consequências práticas lá se vão confirmando pela realidade das acções do personagem

  6. Ernst diz:

    “A máquina de guerra, como se viu das declarações da NATO na sequência da moção que aprovaram, está em marcha.”

    Olhe que não, olhe que não!
    (e uma “no-fly zone” é, apesar de tudo, diferente de uma “intervenção”, certo?)
    A ler:
    http://www.telegraph.co.uk/comment/columnists/simonheffer/8384180/We-dont-have-the-luxury-of-an-interventionist-foreign-policy.html

    Posso então presumir que, na práctica (que é o que interessa e não a mera retórica) o Coronel Khadaffi pode fazer o que muito bem lhe apetecer??….. pois é mais fácil cair um nevão no Inferno ou ver um coqueiro na Antárctida do que haver uma intervenção efectiva da Liga Árabe ou da OUA.

    Obs: a acompanhar, sim, com atenção crescente, os acontecimentos da Bahrein e a troca de “galhardetes” crescente entre Ryadh e Teerão. Estamos perante uma situação de tensão religiosa que, na verdade, faz lembrar as intermináveis guerras, que devastaram a Europa, entre Católicos e Protestantes.
    Para um conflito, a religião (ou uma questão intra-religiosa) ainda parece ser um dos mais eficazes “rastilhos” para o conflito.

    • Renato Teixeira diz:

      Errado. Como se viu na Sérvia e como assume o Rui Tavares no seu rebate realista: “o mundo não é feito só da “melhor das hipóteses”, e quero ser honesto com os problemas que uma zona de exclusão aérea pode criar. Uma zona de exclusão aérea pode criar um casus belli e uma pressão para uma intervenção militar e/ou ocupação da Líbia.”

      • Ernst diz:

        Não creio.
        A generalidade dos países da Aliança Atlântica está, neste momento, sobre fortes problemas económicos (EUA inclusivé e, se calhar, sobretudo eles) e, como se sabe, uma guerra custa muitos €€€ e $$$.
        É ainda de salientar que, pela primeira vez, os EUA estão em fortes cortes na Defesa (assim como em outros sectores) devida à pavorosa (passe o eufemismo) situação orçamental do Governo Federal (e dos governos estaduais, muitos deles, na práctica…..falidos).

        • Leo diz:

          “A generalidade dos países da Aliança Atlântica está, neste momento, sobre fortes problemas económicos (EUA inclusivé e, se calhar, sobretudo eles) e, como se sabe, uma guerra custa muitos €€€ e $$$.
          É ainda de salientar que, pela primeira vez, os EUA estão em fortes cortes na Defesa ” ???

          E acha que isso impede a agressão? Não é essa a opinião por exemplo de M. K. Bhadrakumar que foi um destacado embaixador da Índia e é colaborador habitual de política internacional do Asia Times. Siga o link:

          M. K. Bhadrakumar: A Revolta Árabe altera a ordem mundial
          A evolução da manobra imperialista em relação à Líbia é tortuosa, defronta obstáculos e contradições, mas prossegue a sua ameaçadora escalada militar. Havendo agora a registar, no plano europeu, a conivência com esta perigosa manobra de forças políticas que assumem situar-se à esquerda.

          http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=9&id_noticia=149628

        • É precisamente nos momentos de maiores dificuldades e de crises mais agudas do capitalismo que a natureza belicista e agressiva do imperialismo se intensifica e manifesta mais forte.

          Além disso, a guerra custa dinheiro aos mesmos do costume: a quem a financia. E, em contrapartida, dá muito dinheiro aos de sempre: quem a usa para impor o domínio.

          Talvez fosse altura de olhar para isto, como o Renato enviesadamente já sugeriu, através de uma óptica de classe e não de Estado ditatorial / Estado democrático ou mais ou menos democrático. É questão de perguntar ao proletariado de todos os países invadidos pelos EUA e NATO a pretexto da suplantação das suas ditaduras se vive hoje melhor ou se em algum caso essas invasões ou agressões contribuiram para a sua emancipação de classe.

          • Renato Teixeira diz:

            pedras contra canhões, foi por interposta pessoa que “enviesadamente” sugeri. Imagino que depois de me linkar imagino lhe custe citar o velho Trotsky, mas em contrapartida também fiz uma posta a citar o Jerónimo de Sousa. 😉

            Muito bom comentário. É exactamente esse o problema.

          • Já paravas de me tratar por você, bolas!

            Citar trotsky, eu? não tenho qualquer tipo de pruridos com isso. Só depende do objectivo da citação. Se for para ajuizar da razão de uma opinião, não o considero fonte avisada. 😉
            Até porque, sobre quase tudo, trotsky disse uma coisa e o seu contrário, em função da conjuntura e da (sua) necessidade.

          • ah ok… a culpa é minha pela confusão. Umas vezes assino assino assim, outras assim:
            “pedras contra canhões”.

          • Renato Teixeira diz:

            Ora, ora, para manter a coerência já bastava o zé dos bigodes.

          • continuas um “terrorista”, bem vejo.

          • Renato Teixeira diz:

            hahaha. Cada um tem que lutar com as armas que tem. Não tenho o charme necessário para seduzir a reacção. 😉

            http://acausafoimodificada.blogs.sapo.pt/500541.html

          • AHAHA! isso é muito bom. Mas eu não sou esse. Sou o outro: o “que tem fama de duro, especialista em motas, artes marciais e tatuagens.”
            Essa é a forma como fui, orgulhosa e honradamente, descrito pela revista Sábado.

          • Tiago Mota Saraiva diz:

            E que percebe de Parque Escolar!

          • maradona diz:

            vocês estão sempre a gozar comigo; mas oh pá, gosto muito dele, aviso já; aquele sotaque é sexy. porqu eé que não gostam dele? é uma cena teorica?

    • a anarca diz:

      “a grande superstição atual é o direito divino dos parlamentares” – Spencer
      “no futuro será de colocar um limite no poder dos parlamentos.”- Spencer

  7. a anarca diz:

    Renato ,
    A Europa é um agregado de hipócritas como sabemos
    (U.S. /U.K) são os alfas do sistema mas estão debilitados 🙂
    E a Onu além da cor excelente dos capacetes não resolvem muito .
    Pergunto :
    Que sugestão é que têm para o conflito ?

    • Leo diz:

      Que tal os próprios líbios tentarem resolvê-lo? O conflito é interno.

    • Renato Teixeira diz:

      Acho regra geral que a emancipação não se faz com os exércitos dos opressores, nem com os seus serviços secretos. A revolução tem que ser popular. O BE é um partido e os partidos têm ferramentas legítimas de intervenção, em conjunto com as organizações no terreno. Se não conhecem nenhuma passem a conhecer. Enquadrar a resistência à NATO e à UE é meio caminho andado para derrotar a revolução na Líbia e nos restantes locais do Norte de África e do Médio Oriente.

      Noutros tempos a esquerda anti-capitalista sabia como fazia. Exigia e trabalhava no plano internacional para isolar o ditador de turno, e no terreno dava apoio às organizações com quem tinha relação ou confiança politica ou militar no conflito em curso.

      Durante décadas a esquerda esqueceu-se de fazer isso no Norte de África e no Médio Oriente e o resultado está à vista com muito pouca oposição dentro dessas fronteiras ideológicas.

      Ao vazio não podemos contrapor a irresponsabilidade. Se nada mais se pode fazer isole-se Kahdhafi, defenda-se a Líbia de uma intervenção estrangeira que mais não irá fazer do que ocupar a Líbia ou criar um governo à moda do Iraque e do Afeganistão, e eternizar no território uma guerra ainda mais sangrenta.

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