Cadernos do Fim do Mundo

(Excerto de “Cadernos do Alter Ego”)

Eu já estava em Portugal há algum tempo, preso por um par de pernas altas e magrinhas. Naquele dia, estava com mais vontade de ficar a conhecer o mundo no quarto, do que de me ir meter no meio de uma multidão, mas a Skinny Legs queria ir aonde estava a animação. E porque não? Tomámos o pequeno-almoço, bebemos um café preguiçoso, e descemos até à manifestação que ia haver na baixa de Lisboa.
A coisa tinha nascido como um protesto contra um esquema de trabalho ao estilo medieval que existia na altura, basicamente, metade do ordenado que cada um fazia, ia para o governo. Mas por algum acaso cósmico, ou simplesmente como no jogo do telefone estragado que se fazia na primária, a coisa foi crescendo até se tornar numa manifestação geral de descontentamento pelo estado das coisas.
O Marquês e a Baixa estavam apinhados de gente. Não daqueles que já estás à espera de encontrar em manifestações, velhos sindicalistas ou putos neo-trotskistas-pós-freaks. Era gente, mesmo “daquela”, “normal”. Dos que nunca foram a manifestação e que, provavelmente, poucas vezes votaram. Era uma multidão realmente expressiva do que Portugal era na altura.
Pessoalmente, eu podia ter todas as razões para me identificar com tudo aquilo. Era daquela geração, tinha nascido no mesmo país, e vivia no mesmo mundo. Mas quando se é uma personagem de banda desenhada, como eu sou, tem-se a tendência para criar um afastamento dos assuntos dos outros humanos. Podes ter simpatia e carinho pelos seus problemas, mas não aquela urgência cega, que faz um tipo juntar-se a uma multidão para sentir que o mundo o ouve melhor.
Rapidamente, começámos a beber. Afinal, nós éramos daquela geração. Desde cedo criámos o bonito hábito de beber e festejar onde quer que houvesse musica e um aglomerado de pessoas. Fomos a geração mais qualificada daquele país. Mais qualificada para trabalhar, e mais qualificada para viver. Usámos com arte a globalização dos prazeres do mundo. Qualquer gajo do meu tempo, no sítio onde eu cresci, sabia apanhar uma boa bezana, dar uma boa foda, ou como passar tempo à volta de uma piscina. Qualquer gajo do meu tempo, no sítio onde eu cresci, conduzia um carro, dava-se bem com a mãe e conhecia pelo menos um traficante regular.
Havia ali coisas bonitas a acontecer, esboços ténues do que poderia ser a revolução mais bonita da história dos homens. Esboços porque o som dos tambores e os passos de dança não andavam em direcção a um objectivo. Foi como se a manifestação fosse um fim em si, e a sensação de dever cumprido chegasse durante o telejornal, com as imagens da multidão na televisão e a certeza de ter estado lá. Durante quase todo o tempo, como um chumbo nos pés que me dificultava a dança (ouvia-se boa música por ali) havia a consciência de uma peça essencial solta na engrenagem de tudo aquilo. Era como se uma geração inteira, um pais inteiro, estivesse a tentar queixar-se a Deus, através da televisão.
Alguns acharam que fazia sentido comparar aquela tarde a revoluções anteriores ou às revoluções de Jasmim, que estavam a acontecer naquela altura no Médio Oriente. Mas eu tinha estado lá, no Egipto e na Tunísia, e lá as pessoas sabiam que estavam a trabalhar em direcção a algo, a um país novo. Na manifestação em Portugal, caminharam em direcção ao Rossio e deram duas voltas à praça.
Entretanto encontrámos uma amiga que tinha um polaco a dormir no sofá. A animação estava no fim, as nossas pernas estavam cansadas e já não havia música. Pusemo-nos a andar em direcção a comida. O polaco vestia-se de uma maneira insólita, definida pela Skinny Legs como Indie Pedófilo. Primeiro estava só calado sorrindo-me com uma cumplicidade estranha se eu cruzasse o olhar com ele, depois, ao jantar começou a abrir-se: Que viajava a estudar filosofia e arte, e que estava a escrever uma peça de teatro homo erótica que metia gajos a esfregarem-se em chantilly. Não apanhei muito mais porque estava cheio de fome e o arroz de polvo tinha acabado de chegar. Daí seguimos para o bairro. Fomos dar a um bar onde uns brasileiros estavam a tocar um samba levezinho. Gastei seis euros em meio litro de mojito e pus-me a dançar “Vai, meu irmão /pega esse avião”.
O polaco estava mais interessado em mim do que nas miúdas, e abanava o peito e os ombros a dançar como uma gaja no Mardi Gras a tentar chocalhar ao máximo as mamas. A nossa amiga, que no inicio parecia colada ao chão e ao balcão, começou a relaxar a sorrir e a dançar. A Skinny Legs dançava devagarinho. Podia ficar para sempre só a olhar, se não soubesse que um dia vou morrer. “O malandro / Na dureza / Senta à mesa / Do café / Bebe um gole / De cachaça /Acha graça / E dá no pé”.
Agora já não havia chumbo nos pés.

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2 respostas a Cadernos do Fim do Mundo

  1. Excelente !
    Isto não é uma «boste», muito mais um conto curto (ou um excerto dele).
    Parabéns miguelcarranca tive um enorme prazer em ler.

    🙂

  2. Nuno Ramos de Almeida diz:

    bem-vindo, eu conheço-te de qualquer lado, não é beto realizador?

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