O risco impossível

Aquilo que aconteceu no Japão, com as centrais nucleares, volta a colocar na ordem do dia a questão do risco e a ideia de estabelecer para as iniciativas humanas o princípio da precaução.
O facto de as centrais nucleares serem alegadamente seguras a 99% não as torna uma escolha acertada. Devemos sempre contar que seja possível acontecer o pior. As empresas e as sociedades calculam o risco. Isso é normal em acidentes de automóvel em que podem morrer as poucas pessoas que andam num carro, mas não pode ser norma aplicável quando pode estar em causa o planeta inteiro.
A teorização sobre a Sociedade do Risco não é nova, mas parece ter escapado a empresários e políticos. A energia nuclear, tal como a conhecemos, não é apenas perigosa neste momento: se por milagre fechassemos todas as centrais nucleares hoje, os riscos prolongar-se-iam por muitos milhões de anos – o tempo que os resíduos, por elas, produzidos durassem. Há uns anos, li no Le Monde Diplomatique que foi realizada uma conferência para discutir esse problema, os especialistas tropeçaram em questões que nunca lhes tinham ocorrido: de que modo se devem sinalizar os resíduos nucleares de modo que daqui a 100 mil ou 200 mil anos, alguém saíba que lá estão e que são perigosos? São sinais que nos mostram que esta é uma energia proibida.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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11 respostas a O risco impossível

  1. Nightwish diz:

    Ocorreu um acidente com a falha de bombas hidráulicas a diesel depois de um terramoto seguido de um tsunami, causando uma central que seria desactivada no próximo ano a, até ao momento, soltar uma certa quantidade de radiação.
    Face a um cenário em que o número de pessoas com acesso a electricidade vai aumentar, em que os ganhos em eficiência não passarão de 300% e a necessidade de serviços aumentará, é necessário um milagre na produção energética. Um deles poderá passar pelo aumento em 10000% na capacidade de armazenamento do energia (baterias essas que poderão causar explosões grandes e em cadeia) ou pela investigação e desenvolvimento de nova tecnologia nuclear mais limpa que qualquer outra fonte, e praticamente sem resíduos.
    Enquanto esperamos podemos desligar as notícias e ignorar os milhares de mortos anualmente no uso de carvão, os mortos anualmente em guerras por petróleo, os mortos e torturados anualmente em regimes por nós suportados e ignorar o aumento de CO2 no planeta.
    São escolhas.

  2. Akilo deve estar prêto.
    O imperador, que nunca vai à televisão (axo que o pai ou avô dele também só foi uma vez, para se render ao gen. McArthur no fim da WWII) foi agora lá, exprimir preocupações e condolências.
    O aeroporto de Tóquio está completamente ‘entupido’ com gente a querer sair dali.
    Os países vizinhos (China Coreia, etc) estão a tentar pensar no que vão fazer se os reactores entrarem em «meltdown» e os ventos lhes distribuirem uma parte da nuvem radioactiva.
    Essa tecnologia está muito mal estudada, e é muito perigosa.
    O primero que quiser viver ao lado de uma central nuclear que se chegue à frente, s.f.f.

    Eu definitivamente não.

    🙁

  3. maradona diz:

    “se por milagre fechassemos todas as centrais nucleares hoje, os riscos prolongar-se-iam por muitos milhões de anos”

    penso que isto já não é correcto; da maneira como hoje se guardam os resíduos nucleares, o risco passou a ser quase de ordem (ou escala) geológica, ou seja, sem significado humano.

    essa questão da “sinalização” parece-me mais para passar o tempo: acha-se mesmo que vai haver dificuldades em deixar registado os locais para as gerações futuras? por deus. é até provável que nem este comenário deixe de estar acessivel aos interessados que vivam a cem mill anos de distancia do dia de hoje.

    agora a parte que interessante:

    o “risco” de algo (da energia nuclear, por exmeplo) não pode ser analisado assim; se o risco da continuada emissão de CO2 (por enquanto, a unica alternativa ao nuclear economicamente viável, mas pode ser que isto mude) for considerado maior que o da energia nuclear, é válida (em termos de análise de risco) a opção por esta última; exemplo: o maior jornalista ambiental do reino unido, e um dos mais fanáticos ambientalistas que eu conheço, acha precisamente isso:

    http://www.guardian.co.uk/environment/georgemonbiot/2011/mar/16/japan-nuclear-crisis-atomic-energy

    (repare-se que ele acha o “risco” do carvão para humanidade é maior que o do “nuclear”.)

    afirma-se que a “teorização do risco” escapa a “empresários e políticos”; não escapará, portanto, ao nuno ramos de almeida, é isso? não vamos duvidar que o nuno ramos de almeida seja um visionário mais dotado que aquela gentalha toda; mas até para colocar em uso essa qualidade é necessária alguma imaginação, nomeadamente para que não se caia na tentação de achar que os factos que ainda não nos pertencem são irrelevantes para as consequencias práticas dos nossos dotes politico-filosóficos. quero dizer: há sempre o “risco” de estarmos enganados.

    PS: acho que o “risco” do nuclear é muito maior que o do carvão.

    • Gualter diz:

      Ó maradona, talvez não tenha percebido bem quando dizes que a forma como os resíduos se guardam hoje não têm importância numa escala humana, apenas geológica.

      É que eu estive há pouco tempo em Gorleben, a poucos metros do armazém onde se guardam a maior parte dos resíduos nucleares reprocessados da Alemanha (em CASTOR) e fiquei com uma ideia diferente. O armazém onde os guardam temporariamente (durante cerca de 20-30 anos, o tempo que precisam para arrefecer…) é um barracão ao ar livre, certamente menos seguro que a própria central de Fukushima (embora, por sorte, não esteja numa zona sismíca – pensamos nós, que nem sempre sabemos tudo).

      Depois desse tempo, os resíduos devem ser transferidos para um armazém debaixo da terra. Em Asse já há resíduos armazenados, numa antiga mina de sal. Recentemente descobriram que afinal não é estanque – há infiltrações, com o potencial de trazer radioactividade para o rio Wesa, que posteriormente se junta ao Elbe (que desagua perto de Bremen). Se isto

      • maradona diz:

        a dificuldade em encontrar um local ideal para armazenar os residuos nucleares deriva, essencialmente, do nacionalismo: os locais optimos não foram distribuidos equitativamente pelas nações produtoras de residuos; esse problema seria facilmente resolvido com um bocado de ciencia, solidariedade, informação pública competente. mas, novamente: sim, o ideal seria não arriscar nesta matéria.

        PS: as “infiltrações” não são graves por si. calcula-se que aqueles icónicos bidões que se deitavam no mar até há poucos anos resistam dezenas de milhar de anos, e o fundo do mar não é propriamente um local imune a infiltrações; por outro lado, um “barracão ao ar livre” na alemanha é um milhão de vezes mais seguro que o que quer que seja que se coloque no japão. mas, enfim, eu também não me sinto confortavel com aquilo para ali a “arrefecer”. era bom que parássemos o nuclear, desejavelmente para voltar a pensar tudo do zero.

        • Nightwish diz:

          O armazenamento é insuficiente, são necessárias centrais que processem urânio não purificado, e para isso é necessário investimento. Boa sorte a tê-lo, toda a gente vai preferir voltar ao carvão nos próximos 20 anos.

          • Gualter diz:

            Existem centrais de reprocessamento (La Hague em França, Sellafield no Reino Unido e várias no Japão). O produto final é o MOX, que inclui plutónio, várias vezes mais perigoso e durável do que o urânio. Essa é, aliás, a preocupação central com o reactor 3 de Fukushima, que usa esse combustível reprocessado.

  4. P’ra quem quiser seguir de perto a «coisa», link que me foi enviado pelo meu amigo Kev (ele vive em Melbourne, AUS). Até eles começam a estar preocupados.

    http://www.abc.net.au/news/

  5. o da boa-fé diz:

    (Enraivecido )- É PRECISO ACABAR COM O NUCLEAR!

    (Preguiçoso)- E como, meu caro?

    (Enraivecido) – A resposta é muito simples, ainda que perfeitamente desconhecida por cá. Os franceses chamam-lhe ‘décroissance’ (http://www.ladecroissance.net/).

    (Preguiçoso) – Eu quero é que os franceses se fodam…

    (Enraivecido) – Sabes por acaso o que é ‘Almaraz’?

    (Preguiçoso) – O defesa direito do Tirsense? Não, o esquerdo. Não é do Tirsense, bolas, é do Lordelo. Almaquê?!

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