O Nojo!…

Que o professor jubilado Aníbal Cavaco Silva nunca tenha dito uma palavra contra a ditadura do “Estado Novo” e justifique isso por não ser um menino rico e não se poder dar a esses luxos, revelou-nos um cobardolas como muitos milhares, capaz de esconder essa característica por detrás da desvalorização e insulto aos que não se calaram.

Que, para aceder a um emprego, tenha escrito preto no branco estar em consonância com o regime vigente (o tal da altura), até pode ter constituído uma mentira ou semi-verdade, reveladora da falta de espinha vertebral ou da sua capacidade de fazer a sua vidinha, fosse qual fosse o regime político em que vivesse.

Que o presidente da república (desculpem a ausência de maiúsculas mas, hoje, não as consigo escrever) Aníbal Cavaco Silva tenha chamado ao 10 de Junho “Dia da Raça”, até poderia ter sido, com muito boa vontade da parte de quem ouvisse, um lapso de quem tão facilmente se adaptou aos tempos da outra senhora.

Mas que em 2011 exorte “os jovens” (essa vaga entidade que de novo se tornou politicamente apetecível) a empenharem-se «em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar» vai para lá de qualquer imbecilidade, falta de cultura democrática ou de visão histórica.

É cuspir nos jovens de hoje, é cuspir nos jovens de ontem que foram obrigados a travar essas 3 guerras, é cuspir nos mortos e mutilados físicos e psicológicos que delas resultaram, é cuspir nos povos tiranizados pelo colonialismo e naqueles que contra ele se levantaram, é cuspir naqueles que derrubaram a ditadura tendo o fim dessas guerras como um dos seus três objectivos fundamentais, é cuspir no regime democrático que disso resultou e que este senhor é suposto presidir e representar.

Também por lá andou, como muitos? Sim. Mas isso não desculpa (tal como a sua declaração escrita de apoio à ditadura não o justifica) o branqueamento da história, desconfortável mas nossa, com base no próprio discurso fascista.

Este presidente não é apenas um erro de casting pela forma como se comportou antes de 1974 e pelas discordâncias políticas que com ele se tenham no presente.
De cada vez que abre a boca acerca do passado (ou de qualquer coisa que com ele esteja relacionada), fica mais claro que não foi apenas uma pessoa demasiado cobarde para criticar a ditadura, ou sequer demasiado conformista para se sentir desconfortável por viver nela.
Fica mais claro que é lá que estão as suas referências políticas e sociais profundas, e não no Portugal democrático em que, com todas as suas limitações, vivemos.

Nem vale a pena, suponho, lembrar as consequências que declarações como estas teriam em qualquer país democraticamente decente.
E, afinal, elas fazem com que saudar, no mesmo discurso, os «militares de etnia africana» pareça quase uma calinada irrelevante

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5 respostas a O Nojo!…

  1. marilu diz:

    Fosca-se,ainda não li ninguém a acusá-lo de Fascista e,que de acordo com a Constituição,sempre renovada contrariamente à da constituição do Império-já lá vão 220 anos sem ser mexida,logo atual pela opinião dos especialistas da modernidade-o gajo(sic!) deveria ser corrido,ou seja ,o mandato cassado!!!

    Mais,senhor presidente,dê os meus comprimentos ao seu ex,a que custo, conselheiro de estado,Dias Loureiro!!!O seu,a seu dono.

  2. André Gonzaga diz:

    “Saudamos com especial apreço, pelo muito que lhes devemos, os militares de etnia africana que, de forma valorosa, lutaram ao nosso lado. Todos, combatentes por Portugal!”

    Mas nós devemos o quê??? o que é que se ganhou com o sacrifício de toda esta gente de parte a parte? E não me digam que os combatentes rebeldes (com causa) ganharam alguma coisa. Eles, que nos tiveram de tirar a ferro e fogo o que lhes era de direito. O desejo de autonomia face a uma metrópole que nunca os deixaria erguer como portugueses de pleno direito e em igualdade de circunstâncias com os restantes patrícios ungidos por deus com pele de lixívia.
    e se quer agradecer-lhes mesmo à séria VÁ LÁ BUSCÁ-LOS ONDE DESONROSAMENTE OS DEIXÁMOS E DÊ-LHES A CIDADANIA!
    … mas desconfio que é precisamente por isto que o hipócrita se recusa a chamar-lhes portugueses. Foram antes uns bacanos que se decidiram a dar uma ajudinha ao nosso lado.
    Este cretino é um fracista! E fracista também de fraccionar. Porque nunca, desde o 0225 de Abril, vi um gaijo tão reaccionário como este e que faz questão, a torto e a direito, de só servir a minoria dos portugueses que nele votaram.

    Indignação total!

  3. maradona diz:

    correção: professor doutor jubilado; um professor doutor é completamente de um professor só. até os titulos académicos a esquerda radical burguesa nos quer roubar, oh caraças!

    • Enquanto professor doutor eu próprio (para além de uns milhares de outros gajos), garanto-lhe que “Professor Doutor” e “Professor” não são nem completamente diferentes, nem sequer diferentes. A possibilidade de um não doutorado ter, em Portugal, o estatuto de Professor Convidado devido ao currículo é tão rara que nesses casos é que se faz a diferenciação.
      Não é assim em todo o lado. Por exemplo, em Oxford e Cambridge há umas décadas atrás, como referiu o sociólogo Hermínio Martins por alturas do seu doutoramento honoris causa, só os mais fraquitos é que tinham que fazer doutoramento. Os melhores eram logo convidados para professores. Outros tempos, de que partilhou o “nosso” presidente.

  4. Armando Cerqueira diz:

    Mas não perceberam que o Prof Cavaco Silva tornou-se democrata algum tempo depois do 26 de Abril de 1974? Que afinal, apesar da sua esperteza provinciana em esconder a sua verdadeira personalidade, do cinismo, ele está/va intimamente de acordo com o regime autoritário e a sua deriva colonialista. É dramático: temos um homem que oficialmente se reconheceu perfeitamente integrado no espírito do regime salazarista como Presidente da nossa república democrática…

    A história de ele ter sido filho de gente pobre como sendo justificativo do dobrar da coluna perante o regime não é desculpa: é que nem a sua família era tão pobre, nem a maior pobreza relativa impediu muita gente de se opor ao regime e, inclusivamente, passar pelo 3º andar da Rua António Maria Cardoso ou pelo reduto Sul de Caxias, ou ter uma actividade anti-colonialista no Exército colonial de agressão e opressão.

    Eu tinha algum respeito pelo Prof Cavaco Silva. Mas perdi-o a pouco e pouco e sinto pelas suas concepções salazarentas uma profunda repugnância.

    As suas declarações colonialistas enquanto chefe do Estado duma república originada na e legitimada por uma postura e atitude anti-colonialistas deveriam lavá-lo, se tivesse um mínimo de pudor e vergonha, a apresentar a sua demissão.

    Esperou pela sua reeleição para mostrar a sua verdadeira face o seu íntimo até então escondido.
    Não é o MEU Presidente.

    Armando Cerqueira

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