As massas entram em cena

Que extraordinário é poder ter como primeiro post neste fórum uma breve reflexão acerca do mais marcante protesto social em Portugal da última década! É uma mobilização que deixará a sua marca na História. Por razões tanto quantitativas como qualitativas. A malta saiu em números que superaram as minhas mais optimistas expectativas, não tenho memória de tanta gente assim na Rua, talvez nalgumas da CGTP, mas nesse caso eram manifes nacionais convocadas apenas pa Lisboa, neste caso houve protestos de Faro a Ponta Delgada… São largos contingentes que se juntam à “Luta” (de abstracção inócua na boca dos do costume começa agora a tomar forma no espírito das mais amplas massas), é um mar de gente que nunca antes tinha estado num protesto ou estado numa organização e agora toma o seu lugar na luta social.

Como todos os outros grandes movimentos populares, qualquer que seja o espaço ou lugar, os momentos germinais exibem sempre um caleidoscópio de reivindicações, razões de queixa, proveniências e propostas as mais diversas…

Mas trazem uma Determinação, Criatividade, Alegria, fundamentais a qualquer processo de transformação social, que pouco se vislumbra nos protestos convocados pela fotocópia no placard da entrada da repartição…  E num movimento genuíno é assim mesmo que tem de ser, aqui, como em Fevereiro de 1917 ou Abril de 74 não há uma voz de comando a ditar as palavras de ordem, é a frustração e o descontentamento larvar que finalmente emerge! E que positivo é que apesar de todas essas diferenças e contradições, em vários pontos fulcrais a malta esteja bastante esclarecida e saiba identificar os responsáveis pela situação.

No meio do sofrimento e tremendo sentido de revolta sentido pela população em geral há também imensa confusão, a malta não sabe bem para onde focar a revolta e que soluções procurar. Para já, apesar de tudo o espírito predominante é positivo, é aproveitar! Quem tiver unhas tocará guitarra , as massas já deram o sinal (por outras bandas a par com um pujante movimento social…), que resposta têm as forças organizadas a isto?

Parece-me que BE e  PCP cada um por si não irão a lado nenhum (ou ficarão muito longe do necessário, que vai dar ao mesmo), juntos os dois (mesmo que conseguissem superar o seu intenso sectarismo) não sei se não subtrairiam mais do que somariam. A solução sempre me pareceu ser BE-PCP e mais quem vier por bem (Alegristas talvez, se bem que isso agora é campo queimado…). A irrupção das massas na cena políticó-social era a variável que faltava a esta equação. De facto, só com raízes num forte movimento popular poderia uma plataforma de Esquerda a sério ter alguma esperança de primeiro ganhar o país e segundo governá-lo. Só a pressão popular poderá superar o sectarismo existente sobretudo ao nível das direcções. Mais, só assim poderão surgir novos actores que junto com BE e PCP  dêem a um projecto de refundação da República uma face em que a maioria da população se possa rever. Neste momento uma importante tarefa dos que procuram uma mudança de rumo de sentido progressista para a Nação só poderá ser dar força a esta dinâmica, e sem a partidarizar, politizá-la.

Estamos no início de uma nova era, a vários níveis, porque várias são as contradições: emergência dos BRIC e estagnação dos PIGS, migrações, finitude dos recursos para sustentar o actual modelo de desenvolvimento, insustentabilidade do contrato social que surgiu na Europa ocidental no pós segunda guerra… Todas essas crises se estão a conjugar. Aqui em Portugal, o actual regime apresenta sinais de podridão avançada. A questão do regime, por estranho que pareça, aparece sobretudo associada a sectores de direita que volta menos volta propõe alterações à constituição, ou mesmo, uma completamente nova. Regra geral a Esquerda, fora (sem juízos depreciativos) certos sectores marginais, mete-se na trincheira e defende o bastião “a constituição de Abril”. Esta é a primeira grande discussão, não será a altura de abandonar a trincheira e partir à ofensiva? Não será a altura da Esquerda, e não apenas a direita ultra liberal, falar de REVOLUÇÃO e falar de forma consequente nisso! Não ser apenas slogan de franjas ultras, mas uma exigência, uma necessidade para sairmos desta situação? Parece-me que sim, aliás o tempo das meias medidas já passou e se não forem as “nossas” a triunfar serão as “deles” (vidé as recentes propostas do PSD e os PECs sem fim PS-PSD). A direita exige rupturas, se bem que por vezes é necessário jogar à defesa, sem atacar é impossível vencer, a Esquerda Política e Social se quer (e deve) ser fiel a este movimento que agora surge tem de sair da trincheira. Só uma nova Revolução, poderá salvar o que de Abril ainda há neste país. Defender o regime é afundarmo-nos com ele.

PS – Considero-me da Esquerda Radical e Popular, com a consciência de que a História não começou em Outubro de 1917, nem muito menos terminou com a queda do Muro em 1989, muitos e variados foram as personagens e eventos que deram contributos positivos ao desenrolar do Processo Histórico (alguns exemplos estão neste vídeo, com um ganda som a acompanhar). Também acho que é importante ter em atenção certos pormenores da História, como por exemplo o Lénine ter sido levado pá Russia em 1917 pelo estado maior Prussiano (que também ajudou financeiramente os Bolcheviques), and so what??? Parece-me que fizeram muito bom proveito da “ajuda” dada e em pouco ou nada se comprometeram… A arte da política e da Revolução tem muito que se lhe diga. Mas claro para lá dos pormenores o fulcral é mesmo a dinâmica das massas.

Por isso viva o protesto das Gerações à Rasca, eterna glória aos jovens que fizeram o chamado e quem ajudou no “back stage”! Vivam as Massas, os Homens da Luta, o Coelho, tudo o que nos faça avançar e a Malta Pá! e até dia 19.

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9 respostas a As massas entram em cena

  1. toulixado diz:

    Oblá ó meu, estás à espera que o pessoal leia este lençol todo? Tá bem que és novo aqui, mas tem dó, ainda por cima metes fotos mais vídeo. Balhamedeus.

  2. joaovalenteaguiar diz:

    Essa dos bolcheviques receberem dinheiro do estado maior Prussiano é, desculpa lá, pura caralhada de quem não sabe nada do assunto. Como tb é caralhada dizer que o Lénine foi levado para a Rússia pelo estado alemão. O que ele teve foi permissão para passar, tal como aconteceu com o Martov, líder dos mencheviques, e este nunca quis a paz, nem com os alemães nem com ninguém. As pessoas esquecem-se que os grandes revolucionários que conhecemos hoje eram, na época, pouco mais do que revolucionários obscuros e relativamente desconhecidos. Fora dos círculos revolucionários europeus, quase ninguém conhecia o Lénine. Mesmo na Rússia quando ele chega a Petrogrado o Partido Bolchevique era uma força minoritária no seio da luta que se tinha desencadeado com a Revolução de Fevereiro. Portanto, isso do Lénine ter sido ajudado pelos alemães é pura caralhada. O Martov era bem mais um impecilho para os alemães na altura (os mencheviques faziam parte dos governos provisórios que defenderam e mantiveram os esforços bélicos contra os alemães). Ao mesmo tempo, importa lembrar que essa falsidade não explicaria porque algum tempo depois os alemães iriam tentar derrubar o poder soviético em Petrogrado e que só seriam contidos os seus intentos expansionistas com o acordo de Brest-Litovsk.

    >Pois, não vou discutir factos, pesquisa e encontrarás. A questão é que a política é mesmo feita de contradições, inimigos podem juntar-se por conveniência hoje e amanhã serem inimigos ferozes… Não percebo o q tem de mal os Bolcheviques terem aproveitado a boleia mais a guita… So what? Foram subservientes ao Estado Maior Alemão por isso? Não me parece. Às vezes dá pa comer o bolo e ficar com ele. E os militaristas Prussianos conseguiram tirar da guerra a Rússia e libertar tropas para uma última jogada na frente ocidental. Foi um negócio mutuamente vantajoso. E a médio prazo acabou por explodir na cara dos Generais Alemães, quando, também por efeito de contágio, se dá a Revolução Alemã. Que de facto marca um ponto final na Grande Guerra. Aqueles que desde o início estiveram contra a guerra, são elemento fundamental para precipitar o seu fim e para isso ainda se aproveitaram de um dos beligerantes. Assim se faz a História.

  3. Finalmente alguém e, da esquerda radical popular propõe. “A solução sempre me pareceu ser BE-PCP e mais quem vier por bem (Alegristas talvez, se bem que isso agora é campo queimado…). A irrupção das massas na cena políticó-social era a variável que faltava a esta equação. De facto, só com raízes num forte movimento popular poderia uma plataforma de Esquerda a sério ter alguma esperança de primeiro ganhar o país e segundo governá-lo. Só a pressão popular poderá superar o sectarismo existente sobretudo ao nível das direcções. Mais, só assim poderão surgir novos actores que junto com BE e PCP dêem a um projecto de refundação da República uma face em que a maioria da população se possa rever. Neste momento uma importante tarefa dos que procuram uma mudança de rumo de sentido progressista para a Nação só poderá ser dar força a esta dinâmica, e sem a partidarizar, politizá-la” este caminho, e muito bem explicitado. Há portanto uma 3ª via à conquista do poder.

  4. JMJ diz:

    “Não será a altura da Esquerda, e não apenas a direita ultra liberal, falar de REVOLUÇÃO e falar de forma consequente nisso!”

    A importância da pontuação, na lingua portuguesa…

    (ou não…)

  5. BASTOS diz:

    José Manuel Faria,

    de facto “Finalmente alguém e, da esquerda radical popular propõe” a unidade da esquerda.
    O José ou anda esquecido ou não participou na vida interna do seu partido (BE) nos últimos três anos pois caso contrário teria reparado que já há quem defenda uma plataforma de esquerda que agrupe o BE, PCP, CGTP e outros sectores de esquerda há muito tempo.

  6. Renato Teixeira diz:

    A “poesia” está em cena. Bem-vindo!

  7. Luís Rocha diz:

    Xico amigo, o povo está contigo! Um grande abraço camarada!!

  8. Antónimo diz:

    Xico, um abraço desde o Técnico

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