Quando acordo, e antes mesmo de levar o puto para o penico, a primeira coisa que me lembro é de tomar café. DISSE E REPITO: O BE AJUDOU A ABRIR AS PORTAS A UMA INTERVENÇÃO MILITAR DA NATO NA LÍBIA

A resposta do Miguel Portas e da Marisa Matias a esta interpelação é deliciosa, antes de mais porque não é assinada pelo Rui Tavares. Para lá de se ocupar com o que me preocupa a cada manhã, o que me parece digno num desabafo de facebook mas menos próprio se o destino for a página oficial do partido, deixa claro que o BE aceita que a ONU, ou quem a ONU entenda, passe a escolher quem são os bons e os maus ditadores, resolvendo militarmente o problema. Entre o disparate de eu ainda me indignar com o BE e o absurdo do Miguel Portas e da Marisa Matias andarem a adivinhar os meus desejos matinais, prefiro claramente o segundo. Sem desdenhar as suas dúvidas, sugiro que o debate seja exclusivamente político, deixando a ética do pequeno almoço de cada um ou a estética das respectivas alquimias para outra oportunidade.

Comecemos pelos dois comentários mais sensatos em todo este debate: “A ironia quanto aos eurodeputados tem de ver com voto em si, muito antes do sentido. O que não se reconhece não pode ser votado. Nem um cêntimo e nem um voto (seja qual for) para o que quer que possa vir a envolver a NATO. (…) Não me parece coerente que se defenda o fim da NATO ou a saída de Portugal e se venha votar a favor, ou contra o que quer que seja que lhe abra caminho a uma posição, seja qual for. Só o facto de figurar no documento (…) a “possibilidade” de uma zona de exclusão aérea, remete para a possibilidade de intervenção da NATO. Ao defender, muito bem, que Portugal deve estar fora da NATO, então que não se legitime a organização, que se mantenha a rígida posição, para o bem e para o mal.”, escreveu sabiamente a Ana Mafalda Nunes, do Arrastão, na caixa de comentários da sua não menos assertiva posta.

Sempre gostei de debater com a ala direita do BE uma vez que são, regra geral, duas vezes mais honestos do que a aliança “revolucionária” que o dirige. Dos tempos em que se mostravam cativados com o Processo de Bolonha, com a intervenção militar no Líbano ou com a participação em governos e maiorias autarquias em aliança com o PS, o debate com este campo sempre foi cristalino. Desta feita não fugimos à regra.

Afirma o Miguel e a Marisa tentando provar que foram vítimas de uma campanha infame e esquecendo que não têm como negar o resultado da moção que aprovaram com toda a burocracia europeia: “Podíamos ficar por aqui, mas há mais duas ou três coisas que nos ocorre dizer em face da insultuosa campanha que está em curso. A primeira: o bloco não tem, nunca teve, uma posição de princípio contra intervenções de natureza militar sob mandato da ONU. Já as defendemos em situações de genocídio ou espiral de massacres. A segunda: uma das razões porque fomos contra a possibilidade de criação de uma zona de exclusão aérea é porque o parágrafo não esclarecia o que se queria dizer com isso.”

Fica portanto claro que ao BE já não sobra alternativa do que a concepção de uma Ana Gomes ou de um António Guterres, que acham que o mundo se resolve com exércitos disfarçados de bons samaritanos, (de preferência, claro, com os capacetes da NATO pintados de azul) e meia dúzia de resoluções para a consciência.

No plano táctico, o Miguel e a Marisa colocaram-se à margem do tal ponto dez (aquele que sintetiza toda a resolução e melhor traduz as intenções), mas até que retirem a confiança política ao Rui Tavares é legitimo imputar ao BE este tratado, que como se percebe viola o escrito quer na Moção Estratégica em vigor quer no Programa do partido:

“10. Salienta que a UE e os seus Estados-Membros devem honrar o seu dever de protecção, de modo a salvar a população civil da Líbia de ataques armados em larga escala; assinala que nenhuma opção prevista na Carta das Nações Unidas pode, por conseguinte, ser descartada; solicita à Alta Representante e aos Estados-Membros que se mantenham disponíveis para uma decisão do CSNU sobre novas medidas, incluindo a possibilidade de uma zona de exclusão aérea destinada a impedir o regime de atacar a população civil; sublinha que as medidas adoptadas pela UE e pelos seus Estados-Membros devem ser conformes com um mandato das Nações Unidas e assentar numa coordenação com a Liga Árabe e a União Africana, incentivando ambas as organizações a conduzir os esforços internacionais;”

Ora, como bem disse o Miguel as coisas não são assim: “Somos contra qualquer intervenção militar, incluindo a medida que lhes pode abrir as portas, a zona de exclusão aérea. Temos a experiência, sabemos como começam as medidas militares e sabemos como elas nunca acabam depois de começarem”.

Se assim é, para quê então votar o inicio de um movimento político que só tem em mente a ocupação militar? Como entender uma resolução que colhe o entusiasmo da direita mais militarista? Como justificar que quem não quer a NATO no território esteja “a defender o ditador”? Como ter a pouca vergonha de o fazer depois de votar uma resolução com a esmagadora maioria da burocracia que recuperou o Kadhafi para a diplomacia, os bons negócios e até Comissões de Direitos Humanos da ONU?!? E como fazer tudo isto sem exigir uma auto-crítica relativamente à reciclagem de Kadhafi a essa mesma maioria?

Se sabemos que a intenção do ocidente é duplamente criminosa, uma vez que quer fidelizar os futuros vendedores de petróleo e controlar a onda revolucionária do Norte de África e do Médio Oriente, como não fazer o que recomenda a Ana Mafalda Nunes: “O que não se reconhece não pode ser votado”, ou mesmo o PCP: “A Resolução do PE defende a intervenção militar, dado que não pode haver zona de exclusão aérea sem intervenção militar. (…) Esta resolução, em vez de contribuir para uma solução pacífica, parece visar a preparação de actos de agressão, pelos EUA, a NATO e talvez da União Europeia, contra a Líbia, pelo que expressamos a nossa firme oposição a qualquer intervenção militar externa neste país. (…) Qualquer agressão militar pelos EUA e seus aliados – inseparável dos seus objectivos de controlo dos recursos naturais líbios – seria direccionada não só contra o povo Líbio, mas contra todos os povos da região que se levantaram e prosseguem a luta pelos seus direitos sociais e políticos, pela liberdade, a democracia e a real soberania e independência dos seus países. São lutas que apoiamos. Por isso, votámos contra a Resolução.”?

Posto isto, contribuíram ou não para que a estratégia bélica do Durão Barroso, do Ban Ki-moon, do Rasmussen e do Obama se concretize? Depois desta resolução ficamos mais perto ou mais longe de uma intervenção militar ocidental no território?

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