Cada um no seu Lugar ou, da Desigualdade da Produção à Produção da Desigualdade

Agora a sério, vale a pena ler este post da Irene Pimentel (IP), não pelo valor das suas reflexões ou propostas, que variam entre o inócuo e os lugares-comuns do liberalismo menos interessante. Em meu entender o exercício interessante é ler o texto como sintoma de uma certa atitude face às desigualdades sociais, à divisão social do trabalho lhes subjaz, à desigualdade em geral. O Zé Neves começou a fazer isso neste post, ao juntar duas partes do texto de IP só fazem sentido quando lidas em conjunto.

Comecemos pelo fim, i.e., pelo fim do texto de IP: “Alguém disse que hoje o filho do sapateiro ou da empregada doméstica já não é obrigatoriamente sapateiro ou empregada doméstica. Ora, isso não é um pormenor, é talvez das grandes conquistas (irreversíveis?) dos últimos 36 anos”. Podemos perguntarmo-nos se é assim e se, apesar de não o ser “obrigatoriamente”, a reprodução inter-geracional das desigualdades sociais – e talvez mesmo da divisão social do trabalho – ainda não terá a sua (muita) força. Não sei e deixo essa constatação para quem sabe. Não é isso que me interessa agora, interessa-me sim constatar que, como aponta o Zé Neves, a frase só faz sentido se lida com outra, que a antecede no texto, onde a autora diz que é importante « rebater a ideia de que todos se devem licenciar. A academia é a academia e nem todos têm vocação para ser académico ».

Fica então a pergunta? Quem é que se deve então licenciar? E já agora quem é que deve ser sapateiro e empregada doméstica? Estão a adivinhar a resposta, não estão? Quem tem vocação, pois claro. Ao privilégio herdado de pais para filhos sucede-se a lei de ferro da vocação individual, princípio ordenador da divisão social do trabalho nesta nova sociodiceia, como lhe chamou Bourdieu. Uns têm portanto vocação para passar a vida a ler e a escrever e outros para lavar varandas, estar atrás de uma caixa de supermercado e outros ainda para atender chamadas em call centres. Viva a diversidade humana que é disto que se faz a vida! O que é sinistro na meritocracia é que a ordem social e as suas hierarquias são assim concebidas como reflexo  de desigualdades inerentes aos indivíduos, como realização de uma justiça social, que espelha nos lugares profissionais e rendimentos as capacidades e inteligências de cada um. Dir-vos-ão que não, que as desigualdades atuais têm uma parte de distorção, e que ninguém diz o contrário, mas que o que é preciso é combater essas distorções para que o mérito seja recompensado. Os limites desta patranha estão à vista no esforço que qualquer gestor ou empresário faz para que os seus filhos não tenham a mesma probabilidade de ser mineiros ou advogados. Ou não é assim?

O que é preciso é romper de uma vez com a ideia de que é necessário haver um sistema de recompensa, e de tradução das diferenças entre indivíduos em desigualdades económicas e sociais. Fico, pois, à espera que os próximos vídeos de propaganda às próximas manifestações da geração à rasca tenham um pouco menos de apelos ao reconhecimento do mérito e do trabalho, e invoquem um pouco mais o único princípio sobre o qual se pode construir uma humanidade que seja comum: a igualdade de todos e de cada um.

 

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15 respostas a Cada um no seu Lugar ou, da Desigualdade da Produção à Produção da Desigualdade

  1. Ernst von Superavit diz:

    Sr.Bruno Peixe, vai-me desculpar, mas o seu post não pode deixar de merecer (tem MÉRITO nisso) algumas reflexões.

    « rebater a ideia de que todos se devem licenciar. A academia é a academia e nem todos têm vocação para ser académico ».

    Parece-me óbvio. Já imaginou uma sociedade em que todos vão” passar a vida a a ler e a escrever”, ou uma sociedade em que todos vão passar o tempo a “lavar varandas”??
    Que tal?!
    Não parece lá muito funcional, pois não?!

    “Viva a diversidade humana que é disto que se faz a vida!”

    Apoiado.
    Nunca percebi essa ânsia de alguma esquerda na supressão da diversidade como se fosse algo de intrínsecamente mau. Já imaginou o Sr.Peixe um mundo sem diversidade? Um mundo em que tudo e todos fossem iguais?
    Interessante, não?

    (já agora, a (por certo para si) “saudosa” CCCP…NUNCA, JAMAIS EM TEMPO ALGUM conseguiu produzir uma sociedade igualitária. nem a CCCP, nem a Roménia de Ceausescu, nem a Albânia de Enver Hoxha, nem a RDA de Walter Ulbricht, etc….mas nem é bem isto que está em causa, adiante.)

    “O que é sinistro na meritocracia é que a ordem social e as suas hierarquias são assim concebidas como reflexo de desigualdades inerentes aos indivíduos,…”

    Ah bom….afinal sempre existem “desigualdades inerentes aos indivíduos”!
    Pois é claro que existem. Essas desigualdades são naturais (contrariar a Natureza é complicado, no mínimo) e nada têm a ver com a merdice de “berços” ou com os tiques e mesuras de barões e baronetes.
    Simplesmente, existem.

    “O que é preciso é romper de uma vez com a ideia de que é necessário haver um sistema de recompensa, e de tradução das diferenças entre indivíduos em desigualdades económicas e sociais.”

    obs:mais uma vez, algo que nenhum país da Europa de Leste, que conheço muito bem, conseguiu ou, se calhar, nem sequer tentou (o “sacrossanto Povo” não tinha acesso a “Dachas, nem a bens importados, nem a Mercedes…..lol) propriamente implementar pois, uma vez no poder a passada a fase mais “excitada” do “comunismo de guerra” aperceberam-se rápidamente dos limtes da “engenharia social”.
    É curioso como desde que “nos separámos” ideologicamente, em 1903, vossas excelências parecem nada ter aprendido.
    Esta sua expressão é, por si só (e tem MÉRITO nisso) um tratado sobre a forma como encara a mera ideia de liberdade individual (ou colectiva). Como se fossemos todos meras peças de uma engrenagem e meros escravos ao serviço de um grupo de iluminados que nos diz o que devemos ou não fazer das nossas vidas. Era só o que faltava.
    A função do Estado deve ser reguladora da economia, redestributiva (assegurando por exemplo um sistema de saúde, ensino e segurança social universais) e de tentar implementar uma efectiva igualdade de oportunidades (bem diferente do igualitarismo forçado aqui apresentado). Depois, o que cada um faz da sua vida individualmente……é com cada um e não de um grupo de burocratas iluminados.
    Esse “desprezo” pelo binómio “indivíduo/liberdade individual” é não só anti-natural (e, por isso, votada ao fracasso, vai-me desculpar) como completamente claustrofóbico.

    Outro ponto curioso deste texto é a forma como são abordadas certas profissões, como se lavar varandas ou atender chamadas em call-centers fosse algo de “mau” e/ou “desprestigiante” e/ou “inferior” quando comparadas com “passar a vida a ler a escrever”.
    (cada um deve ter a profissão que quer e lhe apetece, todas FAZEM FALTA e todas devem ser tratadas com igual dignidade, sem mais. é ainda de salientar a escassez de quadros médios propiciada pelo facto de esta sociedade atrasada quere ser toda “xôtor” e “xôtora” )

    Parece-me este texto (e, embora de outra forma, o de Irene Pimentel) um amontoado de preconceitos micro-burgueses MUITO PRÓPRIOS da Europa do Sul. Pois, é verdade. Dificilmente textos nestes termos sairiam de teclados da Europa Central ou Setentrional (onde esta catadupa de preconceitos e estes “dramas de classe” são praticamente inexistentes e onde, diga-se com frontalidade, o leque salarial é incomparavelmente mais pequeno do que no Sul atrasado, cuja mentalidade está anos-luz de outras paragens).
    A Europa do Sul é fantástica.
    Este “elitismo” serôdio-meridional, transversal às esquerdas e às direitas é de deixar qualquer um espantado.
    Depois admiram-se com o “diktat”, por exemplo.

    PS – Só para ilustrar um história. Há uns anos, numa empresa portuguesa (com certeza) chegou uma máquina vinda da Alemanha. Um grupo de doutores/engenheiros reuniu-se, olhando com um misto de curiosidade e distãncia para o gigantesco aparelhómetro. Falou-se muito mas ninguém fez nada. Eram preciso técnicos quallificados para montar a geringonça. Após o almoço surgem os doutores/engenheiros alemães que, espantados, viram a máquina parada, embalada, perante o ar engomadinho dos engravatados doutores/engenheiros portugueses.
    Perante o horror (HORROR!) dos xôtores portugueses, os seus homólogos alemães vieram de t-shirt e calça de ganga e, perante um crescente pavor dos xôtores deste país, vestiram um fato-macaco e, olhando de forma algo divertida para os xôtores (como se a dizer: ides longe assim, ides…) desembalaram e montaram o dito aparelho. Sujaram-se, pois é.
    Não quero generalizar mas é um exemplo. E conheço mais.
    É o classismo bacoco dos sociedades arcaicas.
    É o amontoado de preconceitos.
    É a vida.

    • Bruno Peixe diz:

      Caro Ernst,

      Vou ter que deixar uma resposta mais completa para depois.
      Por agora deixo-lhe apenas uma pergunta: e que tal alguma boa fé na discussão pública? Ou imputar ao outros opiniões que eles não defenderam em lado nenhum também é próprio da Europa do Sul? Onde é que eu defendi os regimes socialistas da Europa do Leste, ou a URSS? E onde é que eu defendi a direcção de um grupo de iluminadas? Bem pelo contrário, o que eu defendo neste post é a igualdade como pressuposto básico na construção do ser em comum. Pense bem, Ernst, o que se passa é que o Ernst ouviu falar de igualitarismo pensa logo nos regimes da Europa do Leste. Assim como quando ouve falar em comunismo pensa logo em direcções iluminadas a guiar as massas a partir da justa teoria. Que para si o comunismo se resuma a isto, bem, isso diz mais dos limites do seu saber. Mas não fique preocupado. Ao contrário de si, eu acredito nas infinitas potencialidades do homem, e no seu caso nem é muito complicado. É esforçar-se e aprender um pouco mais. Como fazem no Norte da Europa, não é?

      Cumprimentos.

      • Ernst von Superavit diz:

        Aguardo, curioso, a sua resposta mais completa.
        Depois sempre lhe responderei a este interessantíssimo comentário que fez.

  2. Jorge diz:

    O Bruno Peixe quer um país como os estrunfes, se possível com ele a mandar. Posso ser médico no seu país? E que tal controladr aéreo? Quem chega primeiro tem direito a escolher aquilo que quer ser?

    • Bruno Peixe diz:

      Claro Jorge,

      A maneira mais fácil de desqualificar politicamente o argumento que se quer rebater é dizer que o que os outros querem, no fundo, é mandar. Mesmo que não se tenha escrito nada nesse sentido. Mas deixe estar, se calhar estou a ser mau. O Jorge lá pressentiu que o texto é contra os que mandam e como acha que tem de haver sempre alguém a mandar noutro alguém, vai daí conclui que, se eu não quero estes, então é porque quero mandar eu.

      Jorge, o que eu quero, resumidamente, é que não haja mando.

      • Jorge diz:

        Eu também não escrevi que o Bruno era parvo. Estava implícito. É uma questão de hermenêutica, percebe?

        • Ernst von Superavit diz:

          “o que eu quero, resumidamente, é que não haja mando.”

          Ah, bom….equivoquei-me ao que parece.
          O Sr.Bruno é assim a modos que um anarquista.
          Bom, em termos de utopias estamos conversados.

  3. susana diz:

    isso, bruno. recordo com frequência um discurso de um professor que tive na cadeira de estudos de arte. acerca dos juízos de valor a conversa evoluiu para o seguinte: mais vale ser-se um bom carpinteiro que um mau escultor. deste pano pude ir fazendo muitas mangas, para acabar por concluir que não faz sentido a discrepância salarial a que assistimos. outra coisa interessante e trivial que ouvi pelo caminho foi a seguinte, a propósito de uma amiga alemã, ‘head-hunter’, uma das profissões mais bem pagas do capitalismo. ela tinha um enorme orgulho no pai, mecânico, e gabava-o como um profissional prestigiado, importante na sociedade. o marido dela comentou-o comigo explicando que na alemanha prevalece o respeito pelo bom desempenho em qualquer profissão e o pai era um mecânico competente, por conseguinte muito respeitado. isto também me pareceu bom, embora o problema do estatuto traga a reboque o prestígio dos doutores e as designações cosméticas que envernizam profissões para lhes conferir algum estatuto, quando as condições e o salário permanecem iguais (tipo técnico de superfície ou auxiliar de acção pedagógica). a ideia é a da ‘raridade’ das competências, quanto mais ‘raro’ mais ganha, mas poderia ser a da necessidade. uma sociedade mais nivelada em termos salariais é uma sociedade mais aberta, uma vez que os estuilos de vida comuns continuam a ser um dos factores preponderantes para a associação afectiva das pessoas.

  4. susana diz:

    acima, “estilos”, claro.

  5. m diz:

    muito bem. os sapateiros e empregadas domésticas são necessários , os canalizadores e marceneiros e demais profissões “estigmatizadas socialmente” pelas decadentes sociedades de “doutores” também , e não há justificação nenhuma , nenhuma mesmo numa época em que há trabalhadores intelectuais a pontapé , para que ganhem mal / muito menos. aliás , tudo indica que operários não qualificados para a economia venham a ser os trabalhadores intelectuias e a nova burguesia os que sabem fazer , os trabalhadores manuais. as voltas que o mundo dá , heim?

  6. Justiniano diz:

    Caro Bruno,
    Ora, ali o Jorge, da hermeneutica do controlo aéreo, assim como o Ernst, não lhe compreenderam os pressupostos, mas certamente compreenderam os da Irene. O caro Bruno compreendeu os pressupostos da Irene mas recolocou a coisa com os seus!!
    Aqui a caríssima Susana, parece-me, compreendeu bem demais os da circunstancia possível do mercantilismo a que refere a Irene.
    Compreende o caro Bruno a dificuldade das propostas assentes nas intangíveis potencialidades desse homem, com tantos destes homens!!
    E será esta imagem apenas um incidente das imagens emprestadas pela imagem dominate do momento!!??

  7. susana diz:

    perfeito mesmo seria se todos tivessem rendimento só por existirem e se o trabalho fosse todo voluntário… 😉

  8. m diz:

    eu não percebo como este post que diz que todos somos iguais ainda que diversos e que essa diversidade deve ser preservada, levantou polémica. suponho que os polemistas serão de “direita” e querem conservar privilégios de “letras” ? é que se não forem , palavra de honra , que não entendo a esquerda: ele não pode haver classes por dinheiro ,. mas pode haver por “saberes “? santa paciência.

  9. susana diz:

    justiniano, temo que este post já tenha sido engolido pelo passado mas, se ainda aqui voltar: o que é ‘compreender bem demais’?

    • Justiniano diz:

      Caríssima Susana, bem sei que venho muito tarde, muitíssimo, mas, ainda assim, temendo ser mal compreendido, aqui vai!!
      A Susana, parece-me, compreende, perfeitamente, a imanencia da economia e a estrutura, aí, quase ontológica do mercantilismo, assim como a relação essencial entre as trocas e a satisfação de necessidades!! Esse espírito de practicabilidade e adaptação é, no fundo, a essencia deste mundo que o Bruno quer subverter!!
      Apenas isto, sem qualquer ofensa ou desmerecimento!!
      Um bem haja para si,

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