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Depois de tantas reservas, não consegui evitar ir à Manifestação da ‹‹Geração›› à Rasca. Por isso bebo apenas meio copo de água, ao contrário do Pedro Penilo que bebeu um copo inteiro. Mas não vim de lá particularmente entusiasmado e vou explicar os porquês da coisa – sem parecer um derrotista, espero.

É completamente estrondoso o número de pessoas que desceram a Avenida da Liberdade até ao Rossio, que por lá se mantiveram nas duas horas seguintes, mais as outras que ainda marcharam à Praça do Comércio. Uma brutalidade de gente diferente lá desfilou de várias formas diferentes pela avenida abaixo, mas – ao contrário do que se seria de esperar de um esquerdista sem partido – a diferença nem sempre foi tão interessante quanto isso.

A manifestação deu para tudo e o que unia boa parte das gentes eram duas coisas: ser contra este Governo do Partido Socialista e ser contra a cada vez maior precarização das condições e vínculos de trabalho, que são à priori duas boas bases para juntar pessoas. Tal só foi possível porque a convocatória agradava a muita gente – não era organizada por nenhum partido ou sindicato, fugindo à forma repetitiva de fazer as coisas (boa ou má, não é isso que está aqui em questão). Nesta manifestação eram as pessoas a fazer pressão sem grande estrutura por detrás – pelo menos aparentemente. Mas as aparências iludem, e não falo aqui tanto do papel que alguns grupos e pessoas tiveram em apoiar os quatro organizadores da coisa, mas do papel patético que tiveram os Homens da Luta na manifestação.

Quando os Homens da Luta ganharam o Festival da Canção da RTP não me pareceu nada mal, sempre sai do balofo baladeiro que lhe é característico – mas, francamente, quero saber tanto do Festival da Canção como quero saber de couve-flor no meu prato ao jantar. Uma das coisas que me fez confusão foi a carrinha dos Homens da Luta (acompanhados por um vencedor da Quinta das Celebridades) andar de trás para diante no Rossio, quase atropelando as pessoas que estavam no seu caminho, lançando o ‹‹luta, luta camarada luta›› em loop, com muita gente a segui-los de um lado para o outro. Por momentos pensei que estava numa festa académica (havia muitos trajadinhos, ajudou). Os Homens da Luta foram as vedetas da manifestação para quem lá esteve e eu cá quero melhor, quero uma manifestação sem vedetas.

Essa foi uma parte irritante. A outra foi a grande e ruidosa confusão que por lá havia. Por mais que os fascistas fossem silenciados, que as bandeiras do Partidos pelos Animais pela Natureza não chegassem a duas dezenas, que os cartazes dos clientes do BPN fossem mínimos, que os jornais do Ruptura fossem menos que os panfletos de pequenos festivais de música, que as bandeiras de Portugal não estivessem por todo o lado, que os cartazes que pudessem ter reivindicações concretas ou frases armadas em dada, que os discursos que pudessem ser a querer um mundo e uma vida diferente ou a manutenção do que está, isto foi uma grande confusão. Da extrema-direita à extrema-esquerda, e um grande grupo de gente no meio disso, lá se estava.

E por isso, por mais interessante que seja ter tido tanta gente na rua com uma convocatória quase acrítica, que muita gente tenha ido a uma manifestação pela primeira vez, só tenho uma pequena questão: o que se faz com isto? Não se discute, dizemos que foi uma vitória, ficamos alegres e que agora é este o caminho?

Pois bem, eu estou muito entusiasmado com o evoluir da coisa: um fórum de discussão no Facebook.

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7 respostas a ±

  1. =) tás redimido. boa análise, oh céptico. cá no porto: nem ruptura, nem PNR, nem trajados. que eu tivesse visto, pelo menos…

    • Renato Teixeira diz:

      “nem ruptura, nem PNR, nem trajados”, é no mínimo um tiro ao lado uma vez que os primeiros e os terceiros são capazes de ser bons aliados na frente da Geração à Rasca, não? Ou basta-te a esquerda nova, o manifesto e sei lá, a UDP?

      • … desculpa, renato, não ter escrito todos os grupos que NÃO vi identificados, na manif. =)

        reformulo em modo politicamente correcto: no porto foi talvez diferente de lisboa, já que não vi ninguém com simbolos partidários – de nenhum partido, que eu tivesse visto. ( isto claro, independentemente de eu não ter nada contra os ruptura, o manifesto, o psr, a udp, o pcp, o mrpp, etc… e ter tudo contra o PNR e os trajados.)

        • Youri Paiva diz:

          Essa diferença é importante, em Lisboa houve muitos e muitos grupos identificados, o que não é um problema de maior (depende do grupo), mas é diferente do que a Gui descreve do Porto.

          Outra diferença importante foi no Porto não terem que aturar os Homens da Luta. Acredita Gui, se soubesse teria era ido para aí.

          Agora, Renato, os trajes e as praxes combatem-se ou não se combatem? Aliados? Francamente…

      • Youri Paiva diz:

        Se calhar aqueles terceiros não. Eu não gostava de os ver em lado nenhum para além das capas e batinas a arder:
        http://aeiou.expresso.pt/braga-confrontos-entre-alunos-da-catolica-e-sem-abrigo=f637863

        (sim, claro, há muitos praxistas simpáticos que estão a ‹‹brincar››, mas o problema da praxe é toda ela existir, toda a sua ideia, que dá sempre, sempre, nestas merdas – de uma forma ou de outra)

  2. João diz:

    Youri no dia em que encontrares a tua ilha pura, se simpatico e avisa-me para eu também lá ir.

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