Colóquio Internacional Rancière em Lisboa: é já amanhã.

Entre nós e as palavras: a filosofia contra o consenso
15 e 16 Março de 2011

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas

Universidade Nova de Lisboa

Edifício ID, sala multiusos 3 (4º piso)

Organização

Golgona Anghel

Vanessa Brito

Silvina Rodrigues Lopes

Abrir um espaço entre nós e as palavras, criar dissensos, é, para Rancière, o próprio coração da política e a condição do pensamento. Pretendemos neste Colóquio tomar essa tese como incitação a uma reflexão que não se limite a explicitar as relações poder/saber e os dispositivos de legitimação e institucionalização que as concretizam. A escrita enquanto pensar/agir – capaz de evidenciar e de deslocar as operações de unificação do mundo constituídas por ficções consensuais que procedem à naturalização das relações tecidas em palavras e imagens – será, pois, o tema orientador. Partir-se-á da leitura de livros e textos de Jacques Rancière, insistindo em conceitos neles decisivos, como os de igualdade, de emancipação, de partilha do sensível e de história, que estão na base da conceptualização da possibilidade de incessantes reconfigurações do mundo, segundo as quais, poesia, literatura e filosofia partilham a capacidade de dar existência ao que era imperceptível apesar da sua operatividade. Essa é a possibilidade de conceber a história em termos não-deterministas e de escapar aos mecanismos identitários: experiência de afirmação da igualdade que implica uma atenção às palavras da literatura que não as reinscreva nos circuitos do estabelecido e às palavras anónimas com que se fez história e ficaram ignoradas pelo ruído de modelos narrativos que impuseram uma lógica de exclusão.

PROGRAMA

15 de Março de 2011

9H30 Conferência inaugural por René Schérer, «Le Dissensus constitutif»

10h30 Pausa Café

1° PAINEL As palavras contra a mestria

Moderadora: Golgona Anghel

10H50 Silvina Rodrigues Lopes, «Anti-destino, experimentação e emancipação»

11H30 Vanessa Brito, «L’espace entre les mots et les choses»

12H10 Maria Benedita Basto, «Comme si, comme cela : histoire et vérification de l’égalité»

13H00 Almoço

2° PAINEL O arquivo e as palavras anónimas

Moderador: João Pedro Cachopo

14H30 Déborah Cohen, « Jacques Rancière et les mots de l’archive »

15H10 José Neves, «A História, o Proletariado e o Espectador»

15H50 Luís Trindade, «A narrativa do desentendimento histórico »

16H30 Tiago Baptista, «Aritméticas da nação no cinema moderno português»

19H00 Mesa-redonda na Cinemateca Portuguesa: Arte popular, arte do povo?

Encerramento do ciclo de cinema Jacques Rancière – curtas viagens ao país do povo

Moderadora: Vanessa Brito

Participantes: Emiliano Battista, Pedro Costa, Luís Miguel Oliveira, Jacques Rancière

16 de Março de 2011

3° PAINEL

As palavras sem destinatário da literatura

Moderadora: Maria Benedita Basto

9H30 José Paulo Pereira, «Literatura e democracia: Derrida e Rancière»

10H10 Golgona Anghel, «L’intrus, le silence, le conflit: pour une critique de l’exception»

10H50 Maria Filomena Molder, «Perigos, equívocos e linguagens naturais»

11H30 Pausa café

4° PAINEL As palavras e a configuração do sensível

Moderador: Manuel Deniz

11H50 Gabriel Rockhill, «Rancière’s productive contradictions: from the politics of Aestectics to the Social Politicity of Art»

12H30 Miguel Cardoso, «A partilha do legível: ordem, desordem e mediação no regime estético»

13H10 Almoço

5° PAINEL Contra as palavras consensuais

Moderador: José Neves

15H00 António Guerreiro, «Comunidade e política dos puros meios. Para um confronto entre Rancière e Agamben»

15H40 João Pedro Cachopo, «Le dissensus démocratique. Comment désordonner un mot d’ordre?»

16H10 André Barata, «Dissensualizar consensos, sensualizar palavras, democratizar a democracia – ‘La lute politique, c’est aussi la lutte pour l’appropriation des mots’»

18h30 Sessão de autógrafos com Jacques Rancière (Mediateca do IFP).

19H00 Mesa-redonda Voz e democracia (Anfiteatro do IFP).

Participantes: Manuel Deniz, Jacques Rancière, Rui Tavares

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42 respostas a Colóquio Internacional Rancière em Lisboa: é já amanhã.

  1. Citando de memória (e portanto com ‘falhanços’ de certeza)

    «Tous les mistères que conduisent de la théorie au mysticisme recontrent son explication dans la praxis rationelle, et sur la compréhension de celle-lá.»

    C’est justement comme ça, professeur !
    Je souhaite tout de bon pour vous. Et bon séjour ici !

    🙂

    • Bruno Peixe diz:

      Caro Major,

      É de facto uma boa memória, a sua. Já deve fazer algum tempo desde que o Rancière usou essas palavras. Acho que desde então o interesse dele se deslocou do modo de produção dos discursos (teóricos ou místicos) para os seus efeitos. Sempre para bom efeito, digo eu.

      Saudações intervalares e dissensuais, diria alguém que eu sei que o Major sabe quem é que o Major sabe que eu sei que o Major sabe.

      Bruno.

  2. Uma cena hiper revolucionária, com o Rui Tavares e tudo.

    • Bruno Peixe diz:

      Como se sabe, o Eurodeputado é anarca, o que faz dele um interlocutor privilegiado desse desarrumador de lugares feitos que é o Rancière.

  3. Bruno Peixe diz:

    What, Carlos? Não sou eu que digo que o Rui Tavares é anarca, ele é que se reclama do anarquismo. E se pode haver um banqueiro anarquista, porque é que não poderá haver um deputado (euro) anarquista?

    • joaovalenteaguiar diz:

      Caro Bruno,

      porque o anarquismo dá para tudo: desde uma assumpção de um estilo de vida, a uma corrente política, a um niilismo destrutitivista irracional e incapaz de pensar racionalmente a sociedade, etc. Nada contra o anarquismo, mas nada a favor. O anarquismo só vale enquanto ociosidade para intelectuais. Para o movimento popular não serve para nada. Não é por acaso que nunca existiram, nem existirão, levantes ou revoluções anarquistas.

      O Rui Tavares diz-se anarca porque é outro intelectual ocioso e que cultiva uma estética da boa vida política desligada da vida concreta do proletariado e das classes populares.

      Abraço

      • Bruno Peixe diz:

        Ok, João, mas pergunto-me que interesse é que tem fazer crítica política sob a forma de processos de intenção. Acho que sabes melhor do que eu que o Anarquismo, historicamente, nunca foi apenas um movimento de intelectuais. Mesmo que fosse, isso não lhe retiraria, para mim, qualquer legitimidade revolucionária, mas a verdade é que não foi. E se foi uma ociosidade, foi uma ociosidade que custou o sangue, a vida e o desterro a muitos que em nome dela lutaram. Por isso me pergunto, ao ler o que escreves: o que é que serve para o movimento popular?

        Quanto ao Rui Tavares, mais uma vez parece-me pouco desejável fazer a crítica política por via do processo de intenções, ainda mais de tom duvidosamente acusatório como « intelectual ocioso » e cultivador de uma « estética da boa vida ». Primeiro porque se há coisa que o RT não pode ser acusado é de ociosidade, bem pelo contrário, a ser alguma coisa, o historiador-cronista-dramaturgo-deputado-comentador será antes hiperactivo. Que o não se aprecie os resultados dessa hiper-actividade, isso é toda uma outra história. Para além disso os termos dessa crítica, parecem-me um tanto moralistas.

        Dito isto, acrescento que as referências ao Rui Tavares como anarquistas eram para ser lidas como irónicas. Admito que isto da ironia, quando não é imediatamente óbvia, é um jogo arriscado. De qualquer modo, agregar numa expressão eurodeputado e anarquista a mim parece-me ser irónico. Estava apenas a tentar acompanhar a ironia do Nuno, mais óbvia que a minha, reconheço. Agora, também me parece que não é pelo facto do Rui Tavares não ser um revolucionário com as cartas passadas por quem de direito pode passar as cartas da revolução (seja lá quem for) que faz com que um debate entre ele e o Rancière possa ser desinteressante. É não é o carácter supostamente revolucionário ou não do colóquio (e que raio é que pode ser um colóquio revolucionário? um colóquio onde se dizem coisas que são revolucionárias? e que coisas são revolucionárias de se dizer?) que lhe retira, ou que lhe traz alguma validade.

        Um abraço,
        Bruno.

        • joaovalenteaguiar diz:

          Claro que o debate entre os dois será interessante. Quando falo em ociosidade isso não quer equivaler-se a algo do tipo da preguiça mas à ociosidade intelectual em estudar e “pensar” os rodriguinhos da sociedade e o acessório e nunca o estruturante. Ele não é o único e até é mais reflexivo que mta gente da academia portuguesa.
          E é óbvio que o anarquismo é uma forma de ociosidade e só foi um movimento de massas junto de categorias que depois foram engolidas pelo desenvolvimento do capitalismo: artesãos, camponeses em alguns cenários (camponeses andaluzes), shopkeepers, etc.

          Eu não avalio o colóquio por ser ou não revolucionário. Era o que faltava. E até iria com todo o gosto se estivesse em Lx nesses dois dias. Apenas me foquei no “anarquismo” lifestyle do Rui Tavares.

          Abraço

          • Bruno Peixe diz:

            Sim, João, eu percebi que não estavas a avaliar o colóquio pela sua natureza supostamente revolucionário. Como escrevi na resposta anterior, pareceu-me que se calhar o comentário do Nuno podia ir por aí. Ou podia ser só uma laracha, que daí não vinha nenhum mal ao mundo.

            Já a questão da ociosidade me parece mais duvidosa, e ficou ainda mais nesta tua resposta. Por um lado falas de uma ociosidade intelectual, que se prende com a incapacidade de um grupo específico, os intelectuais, em pensar o que chamas « o estrutural » numa sociedade, em ficarem-se pelo acessório. É um juízo sobre uma prática de um grupo, sobre um conjunto de produções simbólicas. Outra coisa bem diferente é dizer-se que a luta dos anarquistas na história é ociosa porque os grupos sociais que a constituiram foram engolidos pelo desenvolvimento do capitalismo. Não percebo porque é que daqui extrais um julgamento que, volto a dizer, me parece extremamente moralista. Porque esses grupos não foram capazes de perceber o movimento histórico pelo qual iam ser engolidos ou ultrapassados? Em que é que isso faz da luta deles uma luta ociosa? Ou é uma questão de número? Foram poucos e residuais?

            Abraço,
            Bruno

            p.s. como correu a apresentação do teu livro na quinta-feira em letras? sei que a coisa estava nas boas mãos do João (Fagundes) e gostava de ter ido, como gostava de ter ido à do Figueira, mas foi-me impossível.

          • joaovalenteaguiar diz:

            Caro Bruno,

            correu bem. A apresentação do João foi mto boa e o debate posterior com a assistência tb. Pena foi eu ter estado engripado e cheio de dores 🙂

            Vamos falando.
            Um abraço e continuação do teu bom trabalho

            P.S. se tiveres tempo e pachorra lê e dá pancada no meu livro 🙂

      • Niet diz:

        J.Valente Aguiar: Acho que exagera muito sobre o fraco grau de eficácia das correntes anarquistas ou libertárias no espaço político. Então e a ajuda capital dos anarquistas na Revolução de Outubro? E o papel de alta combatividade por eles desenvolvido na Guerra Civil Espanhola? E nas revoluções de 56 em Budapeste e Varsóvia( 58)? E no imorredouro Maio 68? Niet

        • joaovalenteaguiar diz:

          Em 56 tivemos revoluções? Em Budapeste os contra-revolucionários andavam com as efígies dos líderes fascistas de 21-44… Em 17 o Makhno era, no mínimo, muito amiguinho dos brancos. Kronstadt era uma bela aliança com os Brancos, mencheviques, etc. Caro Niet não veja isto como uma provocação gratuita mas como a minha visão política aqui apresentada de um modo mto resumido naturalmente.

          • Niet diz:

            Carissimo JV Aguiar: Sabe por certo que Trotski escreveu no Terrorismo e Comunismo que ” o homem é um animal preguiçoso “. Tudo boutades, meu caro. Agora, em Out/Nov de 1917 não havia discriminações maiores entre os bolcheviques e os mencheviques. E gostei de se ter esquecido de Maio 68! Sobre a Revolução de 56 em Budapeste, o JV.Aguiar por certo sabe que sem os tanks russos o PC tinha desaparecido às mãos dos Conselhos Operários e da Juventude como o documentam Castoriadis, Mandel, Lefort ?!? Salut! Niet Niet

    • Carlos Vidal diz:

      Pensa bem (quanto ao RTavares).
      E, por acaso, até acho o Rancière um arrumador.

      • Bruno Peixe diz:

        Acho que já percebi quanto ao RT. Para mim, o único problema de ele se dizer anarquista é a minha convicção de que ele está, de facto, convencido que há alguma verdade nisso. Mas não acho que seja uma questão minimamente importante, a não ser para quem esteja sempre interessado em enfiar as pessoas numa categoria política. Ora, como eu sei que não tens nenhuma simpatia pelas pulsões identitárias, sei que não é esse o teu caso.

        Quanto ao Rancière ser arrumador, bem, é de facto um tipo que arruma bem as ideias, se é isso que queres dizer, mas não é a isso que me referia. É antes à atenção, a que ele nos obriga, ou que a sua leitura nos faz prestar, aos modos de arrumação dos discursos e práticas políticas que organizam os consensos históricos. Nesse sentido, é o grande teórico hoje, da desarrumação discursiva e da política como interrupção da ordem do discurso e do discurso de ordem.

        Abraço grande.
        bruno.

        • Carlos Vidal diz:

          Meu caro,

          Os seus “La Haine de la démocratie” ou o anterior “Malaise dans l’Esthétique” são respostas a um pensador que bem conhecemos. Este sim, um tipo que chateia e desarruma. O Rancière, não sei. Fiz-me entender?
          Até 19.
          CV

          • Bruno Peixe diz:

            Acho que fizeste, mas não me parece que tenhas razão. Não me parece nada que o « La Haine e la démocratie » seja uma resposta ao Badiou, ou sequer às posições que o Badiou toma em relação à democracia. Bem pelo contrário, eu diria que os alvos do Rancière são também alvos da crítica do Badiou, em termos bastante mais violentos. É o que acontece, por exemplo, no pequeno livro recentemente publicado em parceria com o Eric Hazan, o editor da La Fabrique.
            Lamento dizer-te que essa insistência em contrapor o Badiou ao Rancière te aproxima do teu inimigo jurado MSP que num post de há uns meses insistia na oposição entre dois pensadores que têm, como eles próprios reconhecem, muito em comum. É verdade que os próprios fazem questão de marcar as diferenças em artigos que escrevem um sobre o outro mas como diz o Badiou no texto que está nas actas do Colóquio de Cerisy sobre o Rancière « nous sommes frères, tout le monde le voit, et moi aussi, à la fin ».
            E se, por um lado, o Badiou aceita a crítica que o Rancière faz ao Althusser (a aceita-a tão cedo quanto o De L’idéologie) mais recentemente acho que se pode dizer que o modo pelo qual o Rancière pensa a política deve bastante ao Badiou. É o próprio Badiou que nos faz o favor de descrever os vários aspectos de que se compõe essa dívida no texto que dedica ao Rancière no Compêndio de Metapolítica.
            Um abraço,
            bruno

          • Carlos Vidal diz:

            Estás a subvalorizar o paternalismo subtil do Badiou.
            Rancière sempre disse que a democracia não se esgota na caracterização que dela faz o Badiou (e, por mim, esgota-se). E que não há oposição entre democracia e comunismo tal como define Badiou. Pois não, porque a noção de acontecimento é que é a antítese da de democracia, e a partir daqui entre Badiou e Rancière não pode haver nada em comum.

  4. xatoo diz:

    trocando por miudos, o Rui Tavares é uma peça oculta da engrenagem do lobie judeu; a menos que o desminta (e já tornou pública na sua coluna essa sua afinidade com “uns seus primos israelitas… e tal… “se quisesse podia pedir a nacionalidade”, etc”) não necessitando por isso muitas mais explicações sobre as cordas estruturais por onde se amanha o seu modus operandi, p/e na votação a favor da invasão da Líbia

    • Bruno Peixe diz:

      xatoo, o que é que queres dizer com « o Rui Tavares é uma peça oculta da engrenagem do lobie judeu; a menos que o desminta »? apercebes-te de que isto exprime uma lógica pidesca? tu acusas o RT de algo, e dás a acusação por confirmada caso o acusado não o desminta, quando quem acusa é que tem de provar a sua acusação.

      de resto não sei se percebo muito bem o teu raciocínio: o Rui Tavares tem primos israelitas, logo é uma peça oculta na engrenagem do lobbie judeu. é assim? e como a invasão da Líbia supostamente interessa a esse suposto lobbie judeu, então está provada, através deste cadeia de inferências, que o Rui Tavares quer a invasão da Líbia para servir o lobbie judeu. assim, com raciocínios aparentemente evidentes, se confunde deliberadamente. mas que raio é que têm a ver as afinidades de parentesco do Rui com as suas posições políticas? não confundas « israelita » com « judeu » e acima de tudo não fales dos judeus como se fossem um agência dotada de vontade e capacidade de decisão. isso é o princípio lógico do anti-semitismo e, já agora, de todo o pensamento racista.

      • José diz:

        Bruno, infelizmente não me parece que o xatoo entenda as subtilezas dos conceitos “judeu”, “israelita” e “sionista”.
        É tudo judeu, ergo, é tudo mau.
        O racismo cega.

  5. a anarca diz:

    E os senhores seres tão revolucionários
    tanta hostilidade tanto pedantismo não fica bem .
    Se as pessoas acreditassem em Utopias não precisavam para nada de revoluções .
    Depois do falhanço do marxismo quem vos disse a vocês que o futuro não está no anarquismo
    LOL

    • joaovalenteaguiar diz:

      Hostilidade? Absolutamente nenhuma minha cara. O anarquismo é inofensivo. Para o capital, para a revolução, para o futuro.

      Sejamos claros. O anarquismo não é o inimigo do marxismo, é apenas uma forma insuficiente e irracional de praticar e “pensar” a política.

      • Bruno Peixe diz:

        Podemos perguntar-nos se o anarquismo é assim tão inofensivo de onde vem tanto afã persecutório por parte das autoridades policiais que servem o estado capitalista. basta lembrar o que se passou aquando da cimeira da NATO. olha que o tal serviço de ordem da manifestação contra a mesma cimeira organizada pelo CPPC não os achou assim tão inofensivos.

        Mais equívoco me parece esse adjectivo de irracional. Já o aplicaste uma vez a mim, não sei se te lembras, por criticar o patriotismo do PCP. Para ser mais exacto acusavas-me a mim, e ao José Neves, de irracionalismo, por não sabermos distinguir entre nacionalismo e patriotismo. Isto depois de eu tentar defender, com argumentos lógicos (ou seja, de forma racional) a minha posição. Agora voltas a usar esse termo, mais uma vez, para predicar o défice de pensamento e de prática política dos anarquistas.

        A ver se entendo: se o irracionalismo não é um vício de forma – o apelo a uma adesão que não se situa no campo da discursividade racional, mas sim na participação de algo que transcende os poderes da razão humana, e parece-me que para ti não é esse aqui o problema – o que é então o irracionalismo? parece-me que só pode ser um problema dos conteúdos concretos, seja das doutrinas anarquistas, seja dos que vêm no patriotismo um nacionalismo mal-disfarçado. e se é um problema de conteúdos, o que é que devemos supor? que é que está livre de ser irracionalista?

        um abraço,
        bruno

        • joaovalenteaguiar diz:

          Bruno,

          como uma série de picanços meus deram para alimentar uma discussão nunca vista num post sobre um colóquio… 🙂

          1- o anarquismo chateia a polícia porque parte montras da Louis Vitton, McDonald’s, etc. não porque envolva as massas e as levante contra o capitalismo.

          2- o irracionalismo em relação ao anarquismo prende-se com duas questões fundamentais: a) não existe uma teoria anarquista sobre o funcionamento da sociedade. O próprio João Bernardo que anda a boiar entre o marxismo e o anarquismo admite isso mesmo, ou seja, para ele o marxismo é, no fundamental, óptimo para analisar a sociedade, e o anarquismo a prática política dele; b) no anarquismo a necessidade de uma acção nunca é equacionada, por um lado, em função de estratégia e organização, e, por outro, pela própria teoria, portanto, duas vertentes racionais.

          Sobre o irracionalismo, patriotismo e afins. Aquilo foi uma boutade minha. Mas tinha algum sentido por algum mecanicismo do livro “comunismo e nacionalismo” – que até é um excelente livro em termos de material empírico – pois todos os patriotismos seriam nacionalismos, haveria supostamente um predomínio da nação sobre a classe na acção política do PCP, a análise enviesada do Lopes-Graça como se o campo fosse o único espaço “autenticamente popular” para o L-G, quando tal não é absolutamente verdade. O livro do Zé Neves levanta muitas questões importantes, independentemente de se concordar ou discordar delas e penso que tem havido pouca atenção para os problemas/problemáticas que levanta. Um livro é tanto mais instigante quanto mais levantar tópicos de discussão. E esse foi o grande mérito dele.

          Para terminar, dois tópicos. 1) não acho que tenhas sido irracional, de maneira nenhuma. o anarquismo, em geral, é que o é; 2) o anarquismo é uma estética interessante de se ver, enquanto prática política progressista em movimento irreflectido. Porém, o anarquismo está longe de ser o principal obstáculo à luta operária e popular. O inimigo dos trabalhadores encontra-se numa outra vertente. E esse é que importa combater. Já no dia 19 de Março.

          Um abraço

          • Niet diz:

            Caro JV Aguiar: O que quer dizer com esta frase: ” O anarquismo é uma estéctica interessante de se ver,enquanto prática política progressista em movimento irreflectido “? Isto dava para fazer um livro sobre a Ontogénese transversal da Consciência de Classe, de Platão a Marx e o seu retorno… Claro, que o JVA criou um facto politico e filosófico! Sem o desejar? Sem o reflectir? O super-excelente Bruno Peixe por certo estará atento a esta mediação freudo-marxista! Salut! Niet

          • joaovalenteaguiar diz:

            Caro Niet,

            sobre a sua primeira pergunta. Considero o anarquismo como uma estética na medida em que se baseia mto mais na produção de uma performance no espaço público do que propriamente em, por um lado, criar teoria e, por outro, pensar a própria prática. A performance, o movimento vivem autopoieticamente para si mesmos e em si mesmos. É um movimento progressista pois intenta transformar a sociedade no sentido da emancipação dos trabalhadores. Que seja essa a via, aí está a grande divergência.
            Sobre se criei um facto político. Bom, honestamente a discussão tem sido proveitosa, pois quanto mais provoco mais recebo em troca pelo que, da minha parte, só me posso sentir satisfeito. Evidentemente, nunca pensei que a coisa tivesse tido esta expressão e todo o diálogo subsequente. Talvez todo este diálogo não seja mais do que um anarquismo blogosférico: um movimento irreflectido de todos os intervenientes em busca de uma efectiva prática política progressista e emancipatória.

          • Bruno Peixe diz:

            João,

            eu também em sinto satisfeito. É isto que eu gosto na blogosfera, aliás. Por imperativos profissionais, só poderei responder mais tarde à questão do anarquismo e do irracionalismo.

            Um abraço.

  6. «Inofensivo» ?
    ROFLMAO !
    A CNT/FAI espanhola era inofensiva ? Deve ter sido por isso que os comunistas deram cabo dela…
    E aki em PT o movimento operário ERA anarquista, muito antes sequer de o PêCêPê ter pensado em se fundar.
    E os marinheiros de Kronstadt estavam de mãos dadas com «os brancos» ? ROFL ! Então porque terão ajudado a faxer Outubro de 17 ? Vocação suicidária ?
    E o Mouvement 22 Mars que iniciou o Maio de 68 em Paris (Nanterre) estava a soldo da «reacção» e era ‘pago’ pelo Quai des Orfévres ?
    Ora bolas, cegueira e preconceito de recém-chegados.
    Os anarquistas eram a ponta da frente do movimento operário, muito antes de os comunistas se dignarem sequeer cá a aparecer.
    Sacco e Vanzetti eram anarquistas. E pagaram com a vida.
    A União Operária Nacional aki (UON) estava carregadinha deles (se calhar pensavam que o movimento sindical tinha começado com a CGTP-In ?? Tem pai que além de ser cego, é preconceituoso à brava. E depois costuma pôr-nos um labéu e fuzilar-nos contra um paredão, boa prática… 🙁 )
    Portanto intelectual ocioso é a avó torta.

    A citação que deixei acima ou é do Lire le Capital ou da Leçon d’Althusser, não estou certo porque não sei onde param esses 2 livros. Muito antiga.

    Este em baixo é só p’ra propósitos educacionais, e em França foi publicado em 2000.
    O meu exemplar foi adquirido em Edimburgo, uns 5 anos depois, e está traduzido em anglo.

    Se gostarem, comprem o livro, não é muito grande, cento e poucas páginas:

    Trata-se de «Le Partage du Sensible: Esthétique et Politique», na versão anglo «The Politics Of Aesthetics: The Distribution of the Sensible».
    Não sei se ha trad. port.
    A versão anglo (tradução de Gabriel Rockhill) pode ser baixada daki:

    http://www.4shared.com/document/XRk4f9Bj/The_Politics_Of_Aesthetics_The.html

    A capa é esta aki:
    http://img859.imageshack.us/img859/6720/thedistributionofthesen.jpg

    Salut prof. !

    • Bruno Peixe diz:

      É pá, Major Alvega,

      tendo em conta a linguagem, e a afinidade com a temática Feuerbachiana, eu diria o « Le Concept de Critique », do « Lire le Capital ». quanto ao livro que propõe à leitura, fica o aviso que já tem tradução portuguesa, feita pela Vanessa Brito, uma das organizadoras do congresso, especialista no pensamento do Rancière e conhecedora profunda da língua francesa. A tradução tem o título « A Partilha do Sensível ».

      Abraço,
      Bruno.

    • Niet diz:

      Major Alvega: Tudo belíssimo. Mostre a sua garra…
      Não confunda é o Althusser com os anars, mon chèr. Niet

  7. Abraço também p’ra si.

    🙂

    Se posso recomendar (mais um…) seria «Courts voyages au pays du peuple», 1990, Éditions du Seuil.

    Há no mínimo uma tradução anglo via Stanford University Press ou coisa assim.

    Se calhar também há em ‘tuga’, não sei ao certo.

    Muito mais pequeno (152 páginas ou por aí) e tão interessante quanto os «Tristes Tropiques» do Lévy-Strauss, embora óbviamente a perspectiva, o objecto e o registo sejam diferentes.

  8. xatoo diz:

    Bruno
    “Judeu” = habitante da provincia romana da Judeia; como herdeiros históricos não reconheço nenhum, a não ser os palestinianos
    “Israelita” um povo ficticcio, eleito pelo misticismo biblico, assente em lendas de concepção não provadas cientificamente, irracionais, mas que ganhou expressão politica na Alemanha a partir do século XVII
    “Sionismo”, se toda a nação é uma alucinação, quando chegamos a Israel estamos conversados
    (quanto ao Rui Tavares a frase pode ficar gravada assim, sem mais ilações: “o Rui Tavares assumiu-se publicamente como judeu na coluna que escreve no Público”)
    de resto, podem continuar a lançar labeus e campanhas de ódio apelidando-me de “racista” que isso não altera em nada a verdade das coisas

    • joaovalenteaguiar diz:

      Eu concordo com algumas coisas do Xatoo (análise do sionismo sobretudo, enquanto corrente perversa e fascizante). Apenas acho que, não deixando você de ter razão em alguns tópicos, se concentra mais no factor “raça” do que na classe. A própria “raça”/etnia é explicada, em muitos casos, pela classe não acha?

    • José diz:

      ““Judeu” = habitante da provincia romana da Judeia; como herdeiros históricos não reconheço nenhum, a não ser os palestinianos”
      “(quanto ao Rui Tavares a frase pode ficar gravada assim, sem mais ilações: “o Rui Tavares assumiu-se publicamente como judeu na coluna que escreve no Público”)”

      Caro Bruno, temos que reconhecer o erro: afinal quando o xatoo dizia – “Rui Tavares é uma peça oculta da engrenagem do lobie judeu”, apenas queria dizer que o Rui Tavares era um palestiniano e que trabalhava para o “lobie” palestiniano!
      Ele não é nada racista, não senhor! E tem uma visão cristalina da realidade!

  9. xatoo diz:

    caro
    – o conceito de “raça” foi de facto destruido pelos estudos da genética populacional: não existem “raças” e ainda menos “raças puras”
    – quando me refiro genericamente a “judeus” (e a confusão propositada lançada já dura há meses) deve ler-se “activistas religiosos que usurparam uma identidade” e que são fanáticos defensores do Estado Sionista israelita tal qual existe
    – nunca leu nada de mim em que condene por exemplo os judeus do movimento ortodoxo Naturei Karta, a etnia judaica remanescente do Irão, Israel Shahak, Schlomo Sand, Isaac Deutcher, Freud, etc
    – embora numa fase posterior à destruição so Sionismo como politica, a questão da religião (essa puta drogada em ópio) tenha de voltar novamente a ser equacionada, desmistificada, enfim, ensinada nas escolas, livre de mitologias assassinas
    – afinal, em termos religiosos, o judaismo é (foi) apenas uma fraude que se insere na fraude mais alargada que é o cristianismo
    – o que se passa actualmente é que existe uma espécie de OPA do judaismo sobre a igreja católica apostólica romana, uma tentativa de unificação que sirva de ópio às agressões que enformam a presente conquista da hegemonia mudial pela superpotência imperialista
    – o resto já sabemos, o lobie judeu na politica dos EUA, o controlo privado pela rede bancária judaica da Reserva Federal que emite a moeda de referência mundial, os biliões para Israel, a Alemanha ocupada como pagadora de indemnizações de guerra a favor da causa, etc…
    – e o Rui Tavares e outros (como o Daniel Oliveira), que nunca por nunca escrevem nada de nada sobre isto, pese o seu peso na opinião pública (porque será?)
    – depois deste resumido cardápio, creio que o racismo económico que determina a classe social a que cada um pertence em cada país, consoante o seu alinhamento, se explica por si. Só haveria hipótese socialista se os bancos emissores deixassem de ser privados e postos ao serviço do interesse da comunidade. Embora sendo um imperialista (do soft power) era isso que o Kennedy queria fazer… se…

  10. xatoo diz:

    obviamente quando dirigi o meu comentário anterior a “caro” me referia a JoaoValenteAguiar

    quanto a “José” que me cheira fortemente a avatar de A.Figueira (lol) temos de o esgrimir com questões menos complexas, p/exemplo, porque é que a Elizabeth Taylor é judia?, porque é que “A Feiticeira de Oz” (Oz em hebreu quer dizer Força) é a obra mais icónica produzida por hollywood? claro que sendo a indústria cinematográfica um monopólio judaico (como aliás 90% da imprensa do espectáculo), trata-se de simples coincidências

  11. José diz:

    Ok, nova versão: afinal o Rui Tavares já não é palestiniano, é um ” “activistas religiosos que usurparam uma identidade” e que são fanáticos defensores do Estado Sionista israelita tal qual existe”.Ele não sabe, mas nada como o xatoo para o esclarecer.
    Ainda vamos ver o Grão Rabino sefardita sentado no torno de S. Pedro, no final da OPA sobre a igreja católica romana.
    O xatoo esqueceu-se do Elvis, da Marilyn, do Sammy Davis Jr, do Seinfeld, do Spielberg, da Natalie Portman, do James Franco, da Sarah Jessica Parker, entre algumas centenas que nasceram judeus ou se converteram ao judaísmo., prova provada da maldade da conspiração judaica.
    Oz não significa apenas força, mas também coragem em hebraico.
    Já a Feitiçeira de Oz, produto da imaginação de um cristão metodista norte-americano, tem sido um dos filmes mais apreciados por crianças e adultos, pela fantasia cheia de beleza que o envolve. Mas nada como o xatoo para descobrir nele as sórdidas maquinações do “lobie” judaico e nele ver o veículo por excelência da conquista do mundo pelos judeus.
    Sim, porque ao xatoo, no que a judeus se refere, ninguêm lhe come as papas na cabeça!
    E não! não é nada racista…

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