“Um enorme e pacifico protesto contra o Governo”

A frase que dá titulo a esta posta, roubada ao Público, diz bem do que unificou todas as vozes mas não nos revela o esprit du temps do protesto. Ontem,  na Avenida da Liberdade, foi a voz da esquerda a que se fez ouvir. Pacheco, claro, protesta. É o PREC, fareja com razão. E os jornalistas tiveram o despudor de filmar. Lamenta. Ele sabe do que fala porque lá deve ter tido alguém e porque o assusta o que viu em directo. O que o chateia, na verdade, não são os jornalistas, que ele quer que continuem horas infinitas nos congressos do PSD e do PS e provavelmente na Volta a Portugal. O que o deixa do avesso é que ele viu o elemento mais determinante: o protesto foi de esquerda.

Contou com pessoas de direita, sim, mas muito poucas e algumas que nem sabem que na verdade são de esquerda. As tresmalhadas ou jogaram às escondidas ou foram mal recebidas. Não tiveram o direito à palavra não porque lhes tenha sido retirada mas porque não apareceram ou porque não têm melhor do que aquilo que foi levado a cabo quer no Estado Novo quer desde o 25 de Abril. Ficaram em silêncio porque sabem que têm pelo menos a mesma responsabilidade no actual estado de coisas. O que se ouviu nas propostas que a esmagadora maioria das organizações e das pessoas levaram às ruas foram coisas como o fim da precariedade, a defesa dos serviços públicos, contra os recibos verdes, os contratos a prazo e pela defesa do emprego com direitos, pelo não pagamento da dívida, contra a inflação e o aumento de impostos, contra o FMI. Voltaram-se a ouvir os estudantes a gritar contra as propinas e nos mais velhos a preocupação simultânea com a reforma e os netos. Contra o Sócrates falaram todos mas o Cavaco não foi o homem da luta que parece ter sonhado na tomada de posse. Apareceu gente de várias gerações mas na inversa proporção do que costuma acontecer. Os militantes dos partidos de esquerda souberam aparecer integrados nos movimentos e foram muitos mil a lutar por outro Abril.

No final os organizadores despediram-se com cravos erguidos e o povo mostrou saber quem nos trouxe até aqui e parece não querer que tudo se repita. As próximas paragens estão definidas – dia 16 no Comité Contra o Pagamento da Dívida e no dia 19 na Manifestação Nacional da CGTP – mas também ficou visto, no debate que interessa fazer entretanto, que importa perceber o que fazer a seguir para que o Sócrates e tralha sucedânea perceba definitivamente que já basta (Passos Coelho ficou seguramente com menos vontade de chegar ao poder) e que queremos mais do que “prometer reforçar políticas”, seja lá o que isso quer dizer. A força que se juntou na rua tem a responsabilidade de continuar. Sem isso o dia de hoje não passará de uma boa ida ao divã quando tem condições para ser muito, mas muito mais.

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51 respostas a “Um enorme e pacifico protesto contra o Governo”

  1. José diz:

    “algumas que nem sabem que na verdade são de esquerda.”
    Não há uma, mas muitas “esquerdas”, que, naturalmente, se auto-excluem.
    Tal como nos divórcios e nas guerras civis, não se vê ódio mais visceral do que nas lutas entre “esquerdas” nacionais…

    • Renato Teixeira diz:

      Olhe que estiveram lá todas, e diga-se que bastante solidárias. Para onde foi a direita? Perdeu-se nas avenidas?

      • LAM diz:

        Em Lx. talvez. No Porto houve uma que foi para um comício na Alfandega (http://paredes.pcp.pt/tag/alfandega/).

        • Renato Teixeira diz:

          Eu digo que houve gentes de direita, mas que ou são de esquerda e não sabem ou não ousaram usar a palavra. Um comunicado da JSD distribuído às escondidas e apenas para jornalista ver e uma dúzia de fascistas sempre hostilizados pela manifestação foi só o que se viu. Muito pouco. Quase nada. O povo não quer mais nada com esta gente e esta gente morre de medo do povo.

        • Renato Teixeira diz:

          Quanto ao PCP acho que esteve bem. Mobilizou o activismo extra sindical o que já é muito bom face à conhecida fobia pela unidade das lutas.

          • LAM diz:

            Sim, também no Porto a direita, que provavelmente por lá andava, não se fez notar, e acredito que muita gente dessa direita aderiu a palavras de ordem que há 1 mês atrás nem sonhavam.

            Quanto ao PCP no Porto, o estranho foi a realização de um comício, com cartazes espalhados pela cidade a anuncia-lo, exactamente para o mesmo dia e hora da manif., mas isso são das tais coisas que eu nunca compreenderei e ainda estou à espera que os participantes da manif. sejam acusados de “divisionismo”…

        • Crixus diz:

          É incompreensível, ou talvez não, esta fixação e ódio pelo PCP. Caro LAM, pode dizer que a luta do PCP contra a exploração e a precariedade tem sido ineficaz ou insuficiente, mas não pode pretender que o PCP tem qualquer responsabilidade por esta situação, se tem sido o único partido que contra elas tem lutado e as tem denunciado (lembra-se da cassete?). O PCP não organizou nem teve qualquer papel institucional nesta manifestação (além da representação, respondendo ao convite dos organizadores) pelo que não fazia sentido abortar as iniciativas já marcadas. Pode confirmar que o PCP tencionava comemorar os seus 90 anos (aqui: http://www.pcp.pt/node/248866) e que é hábito fazê-lo no Porto no 2º fim de semana seguinte ao dia 6 de Março (aqui: http://www.cidadedoporto.pcp.pt/?p=502). Portanto se a sua luta também é contra a precariedade, os baixos salários e a exploração o seu inimigo não é o PCP, porque nesse comício também se lutou por uma ruptura com estas politicas de direita.

          • LAM diz:

            Qual foi a parte do meu comentário que não percebeu ou que tem uma versão diferente? Estou a falar de factos, se se acha no dever de arranjar desculpas para o facto que cito, esteja à vontade, não serei eu que o contestarei ou discutirei desculpas. Opções políticas, calendários ou prioridades cada partido toma as que quer.

            p.s. reli o meu comentário anterior e não encontro nada em que tivesse dito que o PCP tem qualquer “responsabilidade por esta situação”, nem nada que o possa levar a falar numa “fixação e ódio pelo PCP”. Deixe esse foguetório de canalização de frustrações próprias para agentes externos para os clubes de futebol.

  2. NunoFCouto diz:

    Eu estive no Porto.

    Fui lá de propósito.

    Sou social democrata.

    Não suporto a maçonaria nem gosto do PSD dos últimos anos.

    Fui lá porque achei que já basta de roubar quem trabalha.

    Fui lá porque dói ver gente estudar que se farta para acabar humilhada quando se forma.

    Haviam por lá uma meia dúzia de “controleiros” de megafone na mão a tentar politizar a coisa…

    Você que é um tipo inteligente e que eu até gosto de ler, não queira ser mais papista que o papa. Aquilo não foi de esquerda, aquilo foi de toda a gente, e não faltaram gritos e cartazes a mandar abaixo TODOS os partidos !

    Cordialmente.

    • Renato Teixeira diz:

      Gosta, já agora, de que PSD?

      • V. KALIMATANOS diz:

        Do PSD antigo, mais ao gosto do Nuno, acho eu, e, arrisco, pelas mesmas razões de aborrecimento político ou pureza filosófica que o levaram a si a não gostar do PC da US a partir duma certa altura, não acha, ó Renato? Não monopolize o direito das massas ao anti-revisionismo. Nem ao revisionismo.

        • Renato Teixeira diz:

          Não monopolizo nada. Diz que à avenida ia quem queria, mas parece que só falou quem se sentiu em casa.

      • NunoFCouto diz:

        Meu caro, gosto daquele PSD onde a gente saía à rua sem estar à espera de contrapartidas.

        Gosto daquele PSD feito de gente de trabalho, de pequenos empreendedores, de gente simples e de gente séria que acredita no valor do mérito.

        Gosto daquele PSD onde éramos nós dávamos ao partido ao invés de estarmos sempre à espera de conseguir algo em troca.

        Tenho saudades do PSD dos primeiros anos do Cavaco e penso que não sou só eu, muitos Portugueses sentem a falta dessa militância honesta e do tempo em que na política ainda havia gente séria.

        Uma coisa boa desta manifestação é que mais que uma crítica a um governo moribundo, funcionou como um alerta ao próximo que aí vem !

        • Renato Teixeira diz:

          Sem dúvida. Por isso digo que o Passos Coelho ficou com um bocadinho menos vontade de “ir ao pote”.

          Não percebi grande coisa dessa sua direita. Em que medidas e políticas isso se traduz e qual delas não foi de forma exímia aplicada pelo Sócrates?

          • NunoFCouto diz:

            Mais do que a dicotomia direita/esquerda é uma questão de corruptibilidade que parece ser intrínseca aos políticos em geral.

            Cavaco numa fase inicial conseguiu entrar em acordos com os sindicatos na concertação social, conseguiu em termos percentuais aumentos significativos nos salários e pensões de forma sustentada, criou onde não havia, estradas, escolas e universidades ( e note bem no “onde não havia”, faz toda a diferença em relação à política do betão do Sócrates), apoiou a indústria, em particular as PME com programas de investimento e com o plano Mateus para as mais necessitadas, havia emprego, a qualidade de vida era superior, éramos apelidados de “bons alunos” da Europa.

            Certamente temos formas diferentes de ver as coisas a um nível político, mas as comparações com Sócrates roçam a caricatura; aquando a saída de Cavaco duas críticas eram apontadas à sua figura, a arrogância, e o clientelismo.

            Quanto à primeira nada a fazer, é uma questão de estilo.

            A segunda só vem provar que os políticos com excesso de poder abusam inevitavelmente do mesmo; Cavaco porém manteve-se sempre acima da sua colectânea de ministros corrompidos; no fim, como era o chefe, não fugiu às suas responsabilidades sujeitando-se a sufrágio contra Sampaio e como sabe, perdeu.

            No fim são homens contra medíocres, e Cavaco pertence a uma geração de políticos (que incluí muitos homens de esquerda) que tinham um tipo de moral e sentido de estado; o que temos actualmente são homens de mão da maçonaria.

            PS: cavaco é a esquerda do PSD, as privatizações foram acompanhadas de golden-shares e a segurança social assim como os direitos fundamentais dos cidadãos nunca foram postos em questão, no fundo foi dos poucos que seguiu o caminho de Sá Carneiro. O que por aí vem, bom… Vejamos, faça figas meu caro !

            Foi um prazer.

    • idi na huy diz:

      principalmente o seu querido partido social democrata,partido de Bandidos, Chulos, Ladrões, Oportunistas.Se eu pudesse acabava com tal raça.Como vê sou muito democrata para quem espolia e torna a vida dos outros num inferno enquanto o dias loureiro rouba com o encobrimento do presidente e passa a divida para cima de nós e o gang do seu partido enriquece!!!!

      • NunoFCouto diz:

        Meu caro, respire fundo e leia o que escrevi.

        o meu “querido PSD” já não existe, e sim tenho saudades, não só dele mas de todo um universo de partidos que dignificavam a nossa política, coisa que agora é mais do domínio da paleontologia…

        Dias Loureiro, ao que tudo indica, é ladrão e merece a cadeia, e quem nos “endossou” a dívida (do BPN presumo) não foi Cavaco, foi a assembleia da república por Decreto-Lei aprovado pela maioria socialista.

        Pior, Nacionalizaram e estagnaram o banco, com isso perderam a clientela e transformaram um buraco inicial de cerca de 500M em 5.000M !

        Cumprimentos.

    • idi na huy diz:

      Essa do TODOS é uma manipulação descarada.Vocês do ‘partido’ da Desumanidade é q teem explorado,mas um dia destes vão-se foder e,espero que a JUSTIÇA seja feita com mão dura!Cumprimentos ao joão rendeiro,dias loureiro,ao ferreira do amaral ao eurico de melo….

  3. Chatice.
    Deve ser da idade.
    A mim não me deu, continuo a ser (básicamente, não em tudo, e sem partido, como sempre…) de extrema-esquerda.
    Desprezo esses gajús todos que há à frente, embora nem exactamente tudo o que eles tenham feito/possam fazer.
    Conheci o referido quando ele era (o único, publicado) historiador da classe operária , e duma extrema-esquerda próxima da minha.
    Tenho pena dakilo em que se tornou/alugou a, mas se o encontrar na rua está claro que a gente se fala.

    Acabei.

    🙁

  4. Pascoal diz:

    Achei interessante a histeria dos jornalistas das TVs.
    Nunca teriam visto uma manifestação?

    • Renato Teixeira diz:

      Nunca a puderam-souberam cobrir assim. Foi globalmente bom, não obstante o facto de ninguém ter confrontado a direita com o seu isolamento.

  5. Banda sonora, nós já cá andávamos antes…

  6. Pedro M diz:

    O protesto não foi de esquerda nem de direita, deverá ter sido mais dos cidadãos responsáveis pela duplicação dos número de votos em branco, dos mais de 50% de abstenção (que não resolve nada, mas merece reflexão) e do facto de apenas uma fracção da população ser militante em partidos, sendo que a maioria dos que o fazem está lá para angariar emprego.

    Já se vêem comentadores comprometidos com os partidos do centro preocupados, dizendo que isto é um “carnaval” ou “uma novo PREC” ou “um início de fascismo”.

    Há um motivo não fictício para estarem preocupados: este vai ser o fim das nomeações políticas nas instituições públicas; da permuta de pessoas entre o sector privado e a política e dos ordenados e regalias milionárias para cargos políticos.

    A política tem que vir do espírito de serviço público e de generosidade dos cidadãos, os gestores das suas instituições têm que ser admitidos por concurso e avaliação de competências.

    Custou-nos (custa-nos) caro o atraso na implementação destas medidas, seja directamente pelo que custam manter ou indirectamente pelo rol desastroso más soluções de gestão.

    • Renato Teixeira diz:

      A esquerda não se resume ao PCP e ao BE. Há muita esquerda entre o voto em branco e nulo. Direita também, é certo. Na manifestação não se lhe ouviu uma angustia, um desabafo, uma proposta.

  7. Von diz:

    Não Renato, não foi a voz da esquerda. Acabe lá com esses sectarismos bacocos. Foi a voz do país, dos cidadãos, de todos sem cor nem sigla. Nestes momentos Renato, sermos todos unos é a essência, e não essa forma pequena de olhar o que é grande.

    • Renato Teixeira diz:

      Até o Pacheco Pereira percebeu Von: http://ephemerajpp.wordpress.com/2011/03/12/manifestacao-%E2%80%9Cgeracao-a-rasca%E2%80%9D-12-de-marco-de-2011-2/

      Não há cá todos juntos quando uma parte do país quer continuar a ir pelo mesmo caminho. Evidentemente, esses, não poderiam ter ido à manif e entre o gosto dos sapatos e a vergonha, o que se passou na rua foi grosso modo contra eles.

      Ou o Von é daqueles que ainda vê traços socialistas no PS?

      • Von diz:

        Eu fui, com a minha mulher e os meus dois filhos. E nem por um momento me senti de esquerda. Senti-me cidadão, inconformado, militante por uma causa e não por uma sigla ou por um ponto cardeal. E não insista ó amigo, muitos, mesmos muitos, estavam lá com a mesma postura. Agora, o importante e o essencial, é que gente de esquerda, direita e centro e das restantes direcções, ou nenhumas, se tenham juntado e a uma só voz, protestado com firmeza. Não me parece correcto ou útil, sectarizar o que deve ser de união. E não me venha com pachecos nem com pereiras, que considerar-lhe a voz já é perder tempo, citá-lo será então má vontade.

  8. Camarro diz:

    Estou de acordo com o Renato: o protesto foi de esquerda! Não estou a ver o pessoal de direita gritar a plenos pulmões, como aconteceu inúmeras vezes , “O povo unido jamais será vencido”! Também não os vejo a cantar a “Grândola”… Percorri vários sectores da manifestação, e as “mini-reuniões”, ou desabafos se quiserem, apontavam no mesmo sentido: PS e PSD não são a solução!

    Para aqueles que referem que houve tentativas de partidarização das organizações de esquerda, devo dizer que a única propaganda que eu vi foi da JSD!

    O que aterroriza os comentadores do regime é que se começam a desenvolver os embriões de uma consciência de classe, muita gente que participou ainda não a desenvolveu por completo, mas já estivemos muito mais longe!

    • Renato Teixeira diz:

      Tudo (brilhantemente) dito.

    • Von diz:

      Se não está a ver, engana-se. Redondamente. Essa de que a canção, o slogan ou seja o que for tem a chancela ou a propriedade de alguém ou de algum sector, é obtuso. Eu fui. E não sou PC. Eu fui. e não sou BE. Eu fui e não aceito etiquetas nem catálogos. Fale por si. O Renato que fale por ele. Mas falar por todos é abuso. Ou então, que se refira toda aquela multidão por um só objectivo: contestar e protestar os abusos dos partidos que em governo, ou aproveitando de alguma forma o Estado, arrasaram um país e injustiçaram toda uma população.

      • Camarro diz:

        Presumo então que o caro Von também tenha gritado a plenos pulmões, ” O povo unido jamais será vencido!” Seja bem-vindo então! Há frases, ou slogans como diz, emblemáticas e que estão claramente associadas à esquerda, como é o caso!

        Mas já reparou que no seu comentário produz uma contradição gritante. Quando afirma que “contestar e protestar os abusos dos partidos que em governo, ou aproveitando de alguma forma o Estado, arrasaram um país e injustiçaram toda uma população” está a dar-nos razão! Pergunto eu: tem sido a esquerda a governar o pais? Quando? Quem? Como? Portanto, se os manifestantes contestam este facto isso significa que estão a condenar quem nos tem governado e não me parece que tenha sido a esquerda a fazê-lo, a não ser que o caro Von ainda não tenha percebido o que é a coisa denominada de Partido Socialista!

  9. Aires da Costa diz:

    As manifestações não foram de esquerda nem de direita. Ser de esquerda ou de direita implica um sentido, uma direcção, ainda que possa não ser precisa ou até nebulosa. Estas manifestações foram manifestações de desagrado, de insatisfação. Não contra uma política, contra uma linha de rumo, mas contra a realidade.
    Em verdade estas manifestações são a demonstração cabal da ineficácia dos partidos de esquerda, que não fazem parte do arco da governabilidade: O PS, o PSD e o CDS governaram o país nas últimas décadas e o país está na situação em que está, mas os partidos que se lhe opôem, o PC e o Bloco, mas também os extraparlamentares, não têem mostrado capacidade de desenvolver alternativas políticas reais. A prova cabal são estas manifestações.

    Os problemas existem, mas apesar de quer o PC, quer o Bloco, quer outras pequenas organizações proporem soluções, nenhum deles, nem todos em conjunto, conseguiriam colocar na rua grande parte das pessoas que se manifestaram ontem.
    Dia 19 vai haver uma manifestação. Acredito que irá ser uma grande manifestação, mas a esmagadora maioria dos que se manifestaram ontem não vão lá estar. Não vão lá estar e as pessoas de esquerda deveriam fazer uma profunda reflexão sobre isso.

    Aires da Costa

    • Renato Teixeira diz:

      Como disse em cima, a esquerda não se resume ao PCP e ao BE e olhe que estes não só se fizeram representar como foram bem recebidos.

      Ao contrário do que diz acho que muita gente fora do PCP, do BE e dos restantes sectores que costumam ir às manifestações da CGTP ontem perceberam que o mais importante é manter a pressão de rua e por isso ficaram mais convencidas a ir no próximo sábado à jornada de protesto e de indignação.

      Com diz e bem “O PS, o PSD e o CDS governaram o país nas últimas décadas e o país está na situação em que está”, e cada vez mais pessoas percebem isso. A Geração à Rasca contribuiu, e muito, para essa clarificação.

      • Aires da Costa diz:

        Também acredito que algumas irão à manifestação de 19 para “manter a pressão de rua”, mas a esmagadora maioria não. Porquê ? Não sei! Sei é que a dinâmica deste tipo de movimentos político-sociais resultantes da falta de segurança, quando não se esboroam por desaparecimento (diminuição da força) das suas causas, muito facilmente se desdobram em movimentos fascizantes, por vezes liderados mesmo por ex militantes de partidos de esquerda, nomeadamente se à esquerda não surgirem alternativas práticas às políticas vigentes.

  10. JL diz:

    Renato,
    Eu estive lá… e sou de Direita.
    E fiquei cheio de orgulho de fazer parte dum povo que não se resigna.
    um abraço

    • Renato Teixeira diz:

      Então? E que frase levou? É que sinceramente tirando a patacoada pelo bem da nação de não sei quem, não vi uma proposta de direita. Uma. Porque ficou calado? O que tem a propor em alternativa ao Sócrates? O que distingue, de substancial, o PS do PSD?

      • JL diz:

        Renato,
        Não levei frase alguma. Nem me pareceu que devía levar uma proposta. Apenas fui protestar, porque não me resigno a viver num país governado por gente que mente de cada vez que abre a boca. O que distingue esses dois partidos talvez seja a genética (são filhos de pais diferentes).
        A mim o que me importa é a Decência… que existe tanto à Esquerda como à Direita (e está longe de fazer parte da conduta deste governo, que por acaso até é de um partido da esquerda)
        O que me levou a ir talvez tenha sido a fúria que me provocou o anuncio de mais um PEC… talvez isso. Como percebeu eu sou dos que acha que a Politica não se resolve na Rua… mas que alivia dar um grito de vez em quando, lá isso alivia.
        outro abraço

  11. Luis Ferreira diz:

    Foi uma manifestação à esquerda sem sombra para dúvidas, as pessoas de direita não fizeram ouvir a sua voz, e aqui também concordo com o Renato. Não se fizeram ouvir talvez porque não saibam como, ou porque chegaram a um beco sem saída e já não pudessem reivindicar aquilo que já tem sido feito por PS, PSD e CDS.
    Mas também teve um forte pendor libertário, essa ideia que não vive institucionalmente e não tem cara nas TVs mas que teima em vir ao de cima espontaneamente nestas ocasiões. O protesto foi auto-organizado e apartidário. Os sindicatos foram ultrapassados e já não ouço falar dos grupos de precários impulsionados pelos partidos de esquerda desde há umas semanas.
    Em Braga gritou-se “revolução”. A única voz que suponho ser de direita ouviu-se nessa altura. Foi uma moça que no final respondeu “não precisamos de revolução, mas sim de evolução”. Mais à frente voltou-se a gritar “revolução”.

  12. ricardosantos diz:

    E no fundo tanta frustração nestes renatos e companhia pois não houve porrada não responderam ao apelo feito durante a semana pois já se faziam comparações a tunisia,ejito e libia grande desiluzão não renato?

    • Renato Teixeira diz:

      Os manifestantes egípcios e tunisinos, bem como os Iémene, do Bahrein e até os líbios foram sempre pacíficos até à violência lhes ser imposta. Eu defendi e ajudei para que um grande protesto de massas contra o governo e a precariedade tivesse lugar. Assim aconteceu. Se o governo se mantiver mudo compreende-se que outras atitudes se venham a verificar. Os únicos que foram à manifestação à procura de porrada saiu-lhes o projecto furado. Foram corridos com a porrada do assobio. Bastou.

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  14. Crixus diz:

    Concordo, no essencial com a opinião do Renato e é indesmentível que o povo que esteve na rua ontem era de esquerda (com o muito ou pouco que isso signifique). Enquanto conceito meramente operativo é óbvio que a divisão esquerda-direita é redutora, mas desde o tempo da Assembleia Constituinte de 1789 que ser ou estar “à esquerda” significa estar do lado do povo, dos trabalhadores, dos deserdados, dos progressistas, dos optimistas e da paz e direita significa estar do lado do clero e da nobreza, do patronato, dos proprietários, dos reaccionários, dos misantropos e da guerra.
    É um facto que quem esteve ontem na rua, assim como quem resistiu ao fascismo, quem fez o 25 de Abril, quem resistiu à traição aos ideais de Abril, quem lutou sempre pelos direitos dos trabalhadores, quem actua na sua escola, local de trabalho, sindicato ou coletividade, quem participou em todas ou em muitas pequenas e grandes lutas ou quem simplesmente se limita a votar à esquerda, está a defender os interesses do povo e não dos Ricardos Salgados, Belmiros, Balsemãos e etc. Aliás, uma das criticas que faço à manifestação de ontem e ao movimento que se gerou é o facto de não deixarem isto bem claro. É esse passo que falta. Eventualmente poder-se-ia perder o apoio de alguns (e da comunicação social, concerteza) mas a revolução e a evolução não se fazem só com números, mas também com activismo e consciência.
    Em relação ao PCP, queria apenas esclarecer que “tem como objectivos supremos a construção em Portugal do socialismo e do comunismo que permitirão pôr fim à exploração do homem pelo homem e assegurar ao povo português o efectivo poder político, o bem estar, a cultura, a igualdade de direitos dos cidadãos e o respeito pela pessoa humana, a liberdade e a paz. ” e que “a luta em defesa das conquistas da revolução de Abril, pela concretização dos seus valores e pela democracia avançada, é parte constitutiva da luta pelo socialismo.” Por isto é óbvio que o PCP tem de estar ao lado de todos os que lutam (independentemente de serem mais ou menos conscientes ou coerentes) contra a precariedade, contra os falsos recibos verdes, contra a subserviência ao grande capital, por soluções progressistas para o país. O PCP não esteve na organização nem mobilizou para a manifestação de ontem, mas tendo sido institucionalmente convidado fez-se representar e muitas centenas ou milhares de militantes comunistas estiveram presentes, porque apesar da banda (demasiado) larga do protesto as causas e razões do mesmo são justas e em muitos pontos coincidem com aquilo pelo que há muito luta o PCP. E é por isso que a luta continua hoje na net, amanhã no local de trabalho e dia 19 de Março, 1 de Abril, 25 de Abril, 1 de Maio e por ai fora, na rua.

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  16. Axo que essa discussão sobre se foi ‘de esquerda’ ou não uma bizantinice bestial.
    O que interessa foi o que aconteceu. As consequências serão… o que serão.
    Agora é ver o que se pode / consegue fazer depois, com as pessoas que lá estiveram.
    O resto é conversa jogada fora.
    :/

  17. a anarca diz:

    Foi uma tarde fabulosa !
    Foi uma Maxi manifestação.
    O que importa é a unidade na busca do bem comum …
    ser decente é um bom propósito 🙂
    precisamos de novos projectos

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  19. Santiago diz:

    A manifestação foi de esquerda mas as forças pidescas também lá estiveram. No Porto um policia á paisana empoleirado num semáforo filmou descaradamente os participantes. Quando a manif desmobilizou encontrei o dito cujo filmando os organizadores junto do destacamento da PSP.
    Pelos vistos a PIDE ou o sentir pidesco ainda pulsa por aí…

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