Todos os sábados, todos os dias, a mesma luta (II)

À esquerda, os mais puristas, incomodam-se com a participação da extrema-direita e pela presença de um ou outro cartaz de intenções mais cinzentas (*). Contudo, a ausência dos que “corajosamente” declaravam no facebook preparar-se para correr com comunistas e bloquistas à paulada ou a expressão residual de quem enunciava que o protesto seria contra todos os partidos foi absolutamente esmagada por um incrível manifestação de trabalhadores (com milhares de comunistas e bloquistas) da qual a luta de classes não esteve ausente.
Se é certo que a maioria dos que ontem se manifestaram não eram operários fabris ou camponeses mas sim quadros qualificados com licenciaturas, mestrados e doutoramentos, verifica-se que são explorados exactamente nos mesmos termos que os primeiros, com a agravante de ainda não terem um património de luta colectiva e consciência de classe – crentes que estavam que um diploma equivaleria a uma progressão social. Ainda que o capitalismo invente novos nomes e as praças de jorna se passem a chamar centros de emprego, estes quadros qualificados que se reuniram em torno da denominação “geração à rasca” não deixaram de ser proletários por poderem utilizar um título antes do nome próprio. A sua situação social e económica, as dinâmicas de relação laboral, a sua importância na actividade produtiva e a desvalorização do seu trabalho fazem parte da sua condição. Como já dizia o homem das barbas, quanto mais unido estiver o proletariado maior será a sua força.
A imprevisível expressão que o protesto de ontem tomou, colocando centenas de milhares de pessoas nas ruas, é mais do que um mero aviso a um governo. Por mais que Cavaco e o PSD se tentem colar ao movimento, o que soou bem alto foi o sentimento que quem se manifestava estava farto de ver o futuro adiado e quer tomar nas suas mãos o seu presente.
Os partidos que têm obrigação de representar quem quer uma mudança – leia-se PCP e BE, têm, neste momento, uma responsabilidade tremenda. Não se trata de controlar o movimento. Não se trata de ver plasmado nos protestos os termos que utilizam e a sua agenda. Não se trata de competir pela conquista do voto. Trata-se de conseguir representar quem protesta e quem é explorado. Trata-se de dar instrumentos à luta, à revolta e à radicalização do protesto.
Ao protesto não compete construir a alternativa. Ao protesto não compete substituir-se aos partidos. Ao protesto compete politizar-se, mostrando que não é a praia de novos e velhos fascismos. Ao protesto compete separar águas, não se deixando levar em jantares do PS ou eclipsar pelo abraços de urso do PSD.
Ao protesto compete tomar as ruas todos os dias.

(*) Se não me agrada que esta gente se cole à manifestação, também há que alertar os puristas que esse argumento trabalha na mesma esfera de quem está do outro lado da barricada, à sombra do poder e das suas benesses, como se pode ver num e noutro discurso falso de dois dos intelectuais do regime.

P.S. – Acrescento algumas linhas sobre algo que me parece importante destacar e que ainda não vi escrito. Apenas vi bandeiras de dois partidos: PNR e PAN (sobre o qual o Youri já escreveu aqui). Os “anti-partidos” do facebook não se indignaram.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

16 respostas a Todos os sábados, todos os dias, a mesma luta (II)

  1. fernando andré rosa diz:

    Tiago, não sejas mau, o Eduardo Pitta devia ser louvado. Não deve ter sido fácil ir cedissimo para a avenida para conseguir tirar aquelas fotos antes que a avenida enchesse. Isso é que se chama trabalhar para o regime incondicionalmente.

  2. Catarina Abel diz:

    Tiago,
    Como já dizia o Sérgio Godinho, “hoje é o primeiro dia do resto da tua vida”… E é assim que encaro o pós-protesto. Não me imiscuí de estar presente, a título individual, e pese embora o número absolutamente surpreendente de participantes (ontem de manhã, só tinham clicado no “vou” 67.000 pessoas), creio que a responsabilidade, a partir de hoje, é de todos aqueles que, por uma razão ou outra, saíram à rua e a tomaram nas suas mãos para denunciar a precariedade do trabalho em Portugal .
    Mais do que a responsabilidade que imputas ao PCP e ao BE, que terão muito que fazer nos próximos tempos, acredito na responsabilidade social de cada um, com partido ou sem ele.
    O silêncio que se vinha “ouvindo” há muitos anos foi quebrado por um conjunto de pessoas que, independentemente da cor política, não “aguentaram mais” porque “isto dura há tempo demais” e é a essas pessoas, onde me incluo, que vão ser também pedidas responsabilidades, i.e., urbanidade, civismo, verdade e uma visão muito clara (e menos demagógica) do que pretendem do seu futuro e do futuro do país.
    Não basta proferir palavras de ordem, com música de fundo a preceito, é preciso olhar para o presente e PENSAR no que se quer do futuro.

    • Tiago Mota Saraiva diz:

      Catarina, esta luta não começou ontem, nem acaba com a queda deste ou aquele governo. Concordo que a responsabilidade é de cada um, e quantos mais exercerem as suas responsabilidades, maior será a consciência cívica e política.

  3. Sílvia diz:

    Sim, protestar é o que fazem eles bem. Mas não me aprece que vá esperar nada do BE ou do PCP, partidos que mercê da reduzida probabilidade de chegada ao poder se permitem dar azo a comportamentos que têm sempre! uma única direcção – contra e contra algo, e ares de justiceiros sem plano de viagem. Não, não fui à manifestação. E sim, não estou de todo satisfeita. Mas não me revejo de todo nesta imagem comercial de geração “à rasca”. Porque não me parece que expresse o fenónemo que parece dar-lhe causa e porque na sua base se encontram argumentos que se traiem a si próprios: poderá o Estado criar empregos apenas e tão só porque há uma procura que não está a ser absorvida pelo mercado… duvidável, ainda mais nas circunstâncias actuais, mas bem… Mais do que isso o descontentamento é transversal a todas as gerações, e bem mais preocupante será a situação de pessoas que se vêm agora sem emprego e sem qualificações e com uma idade que não lhes permite grandes veleidades. Daí que “geração à rasca” é um tema sem grande substância e que se apropria de forma abusiva de sentimentos de desconforto que não pertencem a uma geração apenas, e mais que isso que se apropria sem “autorização” do rosto muitos jovens que sentem a vontade de não se subjugar aos empregos que lhes criam e que lutam, não por um emprego mais seguro, mas por um emprego simplesmente. Ademais, a politização da manifestação (como não podia deixar de ser…) por parte dos acima referidos partidos roça o ridículo para quem estiver medianamente atento e o cómico para quem se conseguir abstrair da seriedade das coisas que se colocam em cima da mesa. Pois, é que tanto um como o outro, contribuiram e contribuem para este estado de coisas sempre que implementam uma oposição que nada mais faz a não ser estar contra tudo e qualquer coisa que se mova do outro lado, sempre todos contra a maré. Ahh…e apresentar de quando em vez uns projectos de lei que toda a gente sabe que não têm pernas para caminhar. Ora, eu não espero mesmo ser representada no meu descontentamento por partidos políticos que se aproveitam agora do meu eventual descontentamento para tirar uma fotografia engraçada. Não vejo nisso nenhuma seriedade política, ou comprometimento ou autoresponsabilização. Vejo sim oportunismo.

    • Camarro diz:

      Que comentário mais reaccionário!

      Porque é que não diz logo que está bem instalada? Em vez de lançar expressões como “não estou de todo satisfeita”, “eventual descontentamento” podia ser honesta e dizer que a vida lhe corre bem!

      Depois refere a politização da manifestação? Sobre essa matéria o PCP e o BE tiveram um comportamento exemplar! Se houve tentativa de politização da manifestação não foi, de certeza, do PCP ou do BE. A não ser que os militantes e/ou simpatizantes destes dois partidos não possam participar nestas manifestações individualmente. Era só o que faltava!

      O PCP e o BE têm sido os partidos que, com coerência, têm combatido a precariedade que vai grassando pelo país. Por isso, só posso depreender que a sua azia relativamente a estes dois partidos passe pelo facto de estar bem instalada e de não ser precária!

      A sua tese é que o PCP e o BE são responsáveis pelo estado do país porque só sabem dizer não. Estava à espera que apoiassem as medidas governamentais que estão a destruir Portugal?

  4. o da boa-fé diz:

    Não tive tempo p/ ler o post até ao fim, mas não podia deixar de dizer que essa ditadura ecleseástica que são ‘os partidos’, nomeadamente BE e CCCP, deve ser altamente defendida, jamais questionada, se possível amada. Amén.

  5. a anarca diz:

    A manifestação foi um sucesso (as fotos do tal pita foram tiradas entre as 14.15 e as 14.30 )
    Passei pelos PAN (peace and love and animals ) achei um pouco deslocado o slogan
    e vi de tudo
    muito maluco também 🙂
    já no rossio,
    numa t-shirt li : não preciso de sexo, sou fo…. pelo governo todos os dias )
    achei curioso foi ver tanta gente a tirar fotos 🙂

  6. pecanot diz:

    Excelente texto Tiago. Também me revejo na tua concepção de proletariado. O homem de barbas não o teria feito melhor. Por muito que me custe dizer isto, acredito que não vejo fácil a aproximação dos partidos que, em outras circunstâncias, seriam insuspeitos na representação do movimento de protesto ( leia-se BE e PCP). O PCP há muito que deixou claro que não legitima nenhum movimento que não lhe seja politicamente vinculado. O BE também há muito que deixou claro que não passa das boas intenções. Também concordo que este protesto precisa destes partidos, mas será que eles precisam de nós? O que me leva a crer que este protesto deve seguir com todos os que se revêm na sua agenda política que sim é uma coisa que tem que ser clarificada, subscrita e legitimada. Se acho que a agenda deverá ser inequivocamente de esquerda e deverá incluir um diálogo político com os partidos supracitados, é evidente que sim. Temos que redigir um documento que defina as nossas reivindicações e aponte soluções. Dizer que estamos fartos de precariedade é dizer que recusamos liminarmente a existência de qualquer coisa como o recibo verde e, não dizer que o problema dos recibos consiste no aumento da comparticipação social, como já vi agora mesmo numa petição on-line. Redigi-lo e fazer passá-lo. Fazer músicas. Fazer videos. Desmascarar todos os que empregam precariamente ( lista negra on-line das sonaes, das ibertextil, do meu emprego do teu emprego). Temos que criar uma cultura em que a precariedade seja vista como lepra e não como cura. Fazer um calendário de luta. Esta manif devia repetir-se já daqui a um mês e de preferência a uma sexta-feira. Porque se há uma coisa com que podemos contar é o nosso direito em sair à rua e, de preferência a um dia em que os senhores dos bancos não possam passar com o seu carrinho.

    • Tiago Mota Saraiva diz:

      pecanot, três coisas das quais divirjo:
      – Não entendo que o PCP deva “legitimar” movimentos como este. Se o fizer está a retirar-lhe força. Aliás acho que a posição do PCP quanto a esta manifestação foi muito inteligente.
      – O centro não deve ser a precariedade, mas a exploração.
      – Não me parece que tenha de ser este movimento a apresentar soluções.

      • pecanot diz:

        1- De acordo, o PCP legitima as razões do protesto e não o movimento em si. De acordo, também, que a posição do partido revelou uma certa aquidade com o movimento. Mas também te digo que gostava que o partido assumisse um discurso de reivindicação que fosse mais ao encontro daquilo que escreveste neste texto, e que criasse esse espaço de aproximação partidário ao “novo operariado sem organização de classes”.
        2- Percebo as nuances epistemológicas da coisa. Mas não é a precariedade em si a face económica da exploração? E não somos todos nós a face social da exploração, sem estabilidade, sem perspectivas de futuro? Também concordo que mais importante que o recibo verde é combater ,em si,a ideia de recibo verde . Mas creio que isto já estava implícito naquilo que escrevi. De resto só entendo a tua divergência como questão de forma e não de conteúdo.
        3- Não me parece que este movimento deva fazer o papel dos partidos ou do governo. Também entendo que o verdadeiro capital deste protesto é o de consciencialização política dos seus proponentes, mas deve ganhar também o capital de consciencialização ideológica, porque e parafraseando-te, o centro deve ser a exploração. Achas tu então então que o protesto se deve ficar pela rua?

  7. Bandeiras do PNR?! Os tipos demarcaram-se da manifestação em comunicado no site oficial…

  8. Carlos Alberto diz:

    Para resolver estes problemas há que começae e já.
    Primeiro vamos invadir a Alemanha, mas como temos que passar peça França, anexamos a França, e depois como a Espanha também está aqui ao lado a atrapalhar, vamos a eles também e anexamos os tipos. Já ficamos com uma parte do problema resolvido, poi obrigamos os tipos a empregarem o pessoal todo, o pouco que restará, pois com esta tropa toda a andar…ficarão muito poucos desempregados.
    O maior problema será a invasão dos EUA, por um problema meramente logistico…mas havemos de encontrar solução.
    Nos entretantos podemos passar pela Albânia, para ver se ainda há por lá algumas das ninfas do camarada Enver—

  9. Desculpa Tiago, mas eu que participei activamente neste movimento e continuarei a participar no que aí vem, não quero ser representado por nenhum partido, seja ele qual for. E era bom que os partidos respeitassem isso pois está bem patente no manifesto: Apartidário!

    • Tiago Mota Saraiva diz:

      Queres portanto, que o movimento se transforme num partido? Ou rejeitas a existência de partidos na tua democracia?
      Na manifestação ficou claro que apartidário é bem diferente de anti-partidos.

  10. Tiago,

    – Não, este movimento não se irá transformar num partido. Se o fizer serei o primeiro a bater com a porta;
    – Não sou anti-partidos, nem sei com que filtro leste isso! Não querer ser representado por um partido, faz de mim anti-partidos!? Talvez para ti, não para mim;
    – Eu acredito num sistema político que junte partidos e todos aqueles que queiram participar activamente na política mas que não se sentem representados por partidos – ou melhor dizendo por ideologias. Onde é que encaixas pessoas que como eu se identificam com quase todas as causas da esquerda, mas não me revêm no modelo económico proposto? Não seria melhor um sistema político em que independentes pudessem REALMENTE ter as mesmas condições de acesso ao Parlamento que os candidatos apoiados por partidos? Não haveria muita mais pluralidade? Vê o caso da Finlândia! google it!
    – E caro Tiago, a minha visão e as minhas razões são muito diferentes das de muitos dos que se manifestaram e que fazem parte do movimento. E fico contente por isso, e espero que o fórum das gerações e muitas outras iniciativas que irão aparecer contribuam para alargar ainda mais o debate a todos aqueles que se sentem orfaõs de uma participação politica mais activa;
    – Por último queria-te convidar em nome do Núcleo que organizou o Protesto em Bruxelas, que te juntes a nós numa das futuras tertúlias que passaremos a organizar e que incidirá sobre a reflexão acerca do nosso sistema político.

Os comentários estão fechados.