O problema da minha relação com o tempo

A doce recordação das tardes infanto-juvenis passadas sem qualquer preocupação de utilidade a ver jogos de rugby a preto-e-branco, com comentários de Cordeiro do Vale, leva-me a embirrar solenemente com essa invenção recente do Torneio das 6 Nações: 5 chegavam perfeitamente, e a Itália não está lá a fazer nada, digo eu. Não? Está, sim, e o problema é mais meu do que dos italianos: chamemos-lhe o problema da minha relação com o tempo, que ainda me impede de levar muito a sério esta história de estarmos no ano 2000 e tal (porque, até há pouco tempo, 2000 – e sobretudo 2001 – eram simples sinónimos de “futuro” em geral, horizonte por definição inalcançável) ou, pior ainda, de me referir ao século em que nasci como “o século passado” (o século XX era o dado, e devia durar para sempre, até o Criador se chatear e apagar o Sol). Eu sei bem que as tradições se inventam: e por estar a assistir à invenção de uma – o Torneio das 6 Nações – parece que me esqueço que o Torneio das 5 Nações era outra que tal (e que os tipos do séc. XIX também devem ter passado horrores para se habituarem ao novo século); mas no L’Équipe de ontem (sorry, artigo não disponível na net), fiquei ainda a saber que a participação da França, nos seus onze primeiros torneios, após 1910, conseguiu ser pior do que a italiana, desde 2000 – e hoje a participação da França é o dado. Tentativa não-psicologista de explicação parcial do fenómeno: a invenção do passado só funciona no futuro, e o presente é irrelevante. Reductio ad absurdum: se Portugal entrar em 2050, pode aspirar a ganhar o Torneio lá para 2100.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

14 respostas a O problema da minha relação com o tempo

  1. Duvido que o Tomás Aires viva tanto, e sem ele… (rugby é um jogo que eu joguei, e sorry, não é p’ra gajahs…)
    A Itália realmente ‘pôs-se a pau’ e deu umas sovas inesperadas aki e ali.

    Mas os tipos que me dão mais prazer ver jogar, ganhem ou não são Gales e a Inglaterra.
    O «leitmotiv» é esse que disse:
    “a invenção do passado só funciona no futuro”.

    🙂

    • JMJ diz:

      Como em tudo na vida, se é para fazer, faça-se com “panache”.

      A França de Serge Blanco de meados dos anos 80 era um deleite para os olhos. Mil vezes superior, tecnica e moralmente, ao jogo embrutecido dos packs de avançados ingleses.

    • José diz:

      Tomás Morais?…

  2. O tempo em que assistir a um Irlanda/Inglaterra era uma delícia de força/beleza/garra num desporto que só o conhecia-mos via RTP.

    Aos sábados de 15 em 15 dias à tarde.

  3. Pisca diz:

    Um francês que conheci algures no mundo dizia:

    “Quem quer praticar desporto, joga raguebi, o futebol é só ballet”

    e logo a mim que nunca tive habilidade nenhuma para nada dessas coisas, tirando o sofá é claro

  4. Pedro Penilo diz:

    Eu também via rugby a preto e branco…! E também era o Cordeiro do Vale… Será que isso era do microclima de Campo de Ourique?

  5. Caro António Figueira:

    Fui praticante de Rugby. Creio que não sabe do que fala. A Selecção Italiana, como é óbvio, ainda sofre de um enorme desfasamento em relação às outras selecções que participam nos 6 Nações, mas no entanto, já conseguiu bater a Escócia, algo que há 10 anos era completamente impensável. Veja o exemplo Escocês. A Escócia (uma das selecções intocáveis há 20 anos atrás no plano internacional) anda a apresentar más selecções atrás de más selecções e maus resultados em cima de maus resultados. A Escócia (uma das selecções intocáveis do rugby mundial) não só já perdeu com os Italianos como continua bastante longe do nível que nos é exemplificado pelos restantes 4, sendo, que já não vence qualquer uma dessas selecções há anos.

    No caso da Itália, se os colocar a jogar no Torneio Europeu das Nações, tal seria um retrocesso na evolução do Rugby Italiano. Porquê, talvez me pergunte o Sr.? Por experiência própria lhe digo que o rugby evoluirá a um nível tal quando as grandes selecções deixem que as pequenas selecções consigam jogar contra si, indiferentemente do resultado final. As pequenas selecções como Portugal, como a Roménia, como a Rússia, o Canadá, a Espanha, a Ucrânia, a Rep. Checa, a Geórgia (se bem que a Geórgia está um furinho acima de qualquer selecção do Torneio Europeu das Nações) só poderão evoluir a modalidade se jogarem contra Ingleses, Australianos, Neo-Zelandeses, Fijianos, Sul-Africanos, Argentinos, Franceses, Galeses. Ou seja, contra os melhores. A Itália (caso descesse novamente ao Grupo B Europeu) estaria (como está) a jogar novamente para cilindrar e isso (ao contrário do que possam pensar) não seria um bom estimulo para o rugby italiano. Seria por exemplo para nós Portugueses ou para os Romenos, selecções que tem condições para dar alguma luta à Itália. Assim como para nós e para os Romenos seria benéfica a construção de uma competição europeia por selecções e uma vaga para um clube portugues disputar uma das taças europeias – a EuroChallenge, como competição em que participam os piores classificados das melhores ligas – já seria uma boa forma de evoluir jogadores do campeão nacional.

    • António Figueira diz:

      João Branco,
      Obrigado pela sua contribuição informada – e pf não me trate por Sr.
      Eu não escrevi um post sobre rugby – eu escrevi um texto sobre o tempo.
      O L’Équipe de ontem tinha um texto sobre os prós e contras da presença italiana no Torneio das 6 Nações, que eu usei para ilustrar o problema mais vasto da tradição e da novidade.
      Para ser franco, eu, de futebol, gosto mesmo é de Association, o resto é-me mais ou menos indiferente.
      Cumps., AF

      • Understood, caro António Figueira.

        Como antigo praticante e amante da modalidade, apenas lhe fiz um reparo, mas agora com a sua explicação percebi o objectivo do seu post. Já não sou do tempo do Cordeiro do Vale, mas ultimamente tenho ouvido falar muito desse Sr – pelo que parece as gerações mais antigas levavam com o Torneio das 6 Nações comentado (e bem, dizem-me muitos) por esse senhor. Já sou do tempo em que o Torneio passava na RTP 2, comentado por António Aguilar – e tais transmissões, foram as razões pelas quais me decidi inscrever na modalidade em 1999.
        Movido pelo interesse, li o artigo do L´Equipe. Não vou tecer comentários à opinião do conjunto de jornalistas que a formularam. São Franceses. Deviam era estar atentos aos erros que o seu seleccionador comete jogo após jogo com a sua equipa. Isso sim, devia-os preocupar, visto que a selecção Francesa tem imenso talento. Talento demais, creio. Talento suficiente para vencer o mundial em Setembro.

  6. mdsol diz:

    [Parabéns pelo livro. Quando passar por ele quero trazê-lo, de forma exemplar, entenda-se. Okay, já sei que lançamentos catitas e tal não chegam à paisagem :))))]

  7. José diz:

    Curiosamente Cordeiro do Vale era pseudónimo e não o seu nome.
    Foi um grande fomentador do Rugby.

    • António Figueira diz:

      Cordeiro do Vale era um pseudónimo de requintada poesia.
      Chamava-se Serafim Marques na vida civil.

  8. Caro António Figueira

    E não é que hoje a Itália derrota a França por 22-21!

  9. José António diz:

    Bons comentários, melhores memórias . . . como o tempo passa !!!
    Traz-me à memória a minha redação do exame da 4ª classe ( 1972) foi exactamente sobre o Rugby e o fascinio que me induzia este torneio.
    E como devo escrever? Perguntei ao professor.
    Encolheu os ombros hesitante, a dúvida dele estava na palavra em portugues, porque em inglês nem ele sabia como se escrevia.
    Um jogo de cavalheiros, de muitos doutores e de muitas outras profissões liberais.
    Completamente amador, era o expoente do prazer do jogo pelo jogo, da saudação final em tunel aos vencedores por toda a equipa vencida.
    Recordo dois grandes senhores de Gales – Gareth Davis e JJ Wiliams

Os comentários estão fechados.