A intervenção de Luísa Costa Gomes sobre “O filho de Campo de Ourique” de António Figueira

Para quem não conseguiu lugar para o acontecimento da saison (como diria a Morgada), fica um belo texto:

Um dos efeitos adversos da publicação de novos autores na revista Ficções era o da sua relativa inconsequência. Um autor que publica um conto, seja ele genial – para usar um termo caro a António Figueira – é autor mas apenas de um conto. Não será propriamente o não-autor que supostamente foi o Filho de Campo de Ourique, mas é um autor que ainda não escreveu quase nada. Como o estudante que não estuda quase nada, só com muito boa vontade e empatia se poderá considerar um estudante. O trabalho consequente de escrita e a sua consequente publicação em forma de livro parece ser um objectivo legítimo e consensual. Digo isto porque não foram nem por sombras todos os autores que publicaram na revista que decidiram alcançar a forma do livro. Lembro-me de Cláudia Clemente e de Pedro Manuel Calvete, por exemplo. Não quero dizer com isto que o importante seja a “carreira”, absurda invenção da indústria, ou a inauguração dela. Mas um conjunto de contos dá obviamente a ver várias facetas de um espírito multifacetado e, neste caso, também razoavelmente faceto. E isso é de saudar nesta colecção de contos: é uma colecção composta de registos muito díspares, que inclui entrevistas e ensaios, artigos da wikipédia, rimas populares, exercícios de escrita à Queneau e outros constrangimentos oulipianos, uma história da net com o meu amigo Manuel Resende, um conto de edificação moral sobre transportes, contos circunstanciais (para depois do jantar), com número pré-determinado de palavras, etc. E em todos estes registos se reconhece a mesma voz de narrador irónico, mais perto ou mais longe da primeira pessoa, mais perto ou mais longe da omnisciência (bastante assumidamente subjectiva, diga-se de passagem, bem à la Campo de Ourique), mas sempre voz homogénea.
Uma preocupação literária atravessa todo o livro. Uma preocupação com o literário, por um lado, com o que ele é ou deixa de ser, com a sua simplicidade, a sua profundidade, a sua relação com o “real” entre aspas, as várias formas de sublimação criativa, etc.; e tudo isto através de paródias e auto-paródias sem fim, em textos de auto-referência em que não fica claro quem é o “auto” da auto-referência, em deslizamentos entre autor-narrador-personagem que se duplicam e de reflectem (somos tão maus assim? Ora, não somos tão maus assim…), etc. E sobretudo uma inquietação atravessa os contos sempre escritos com mão limpa e segura, mas a que de vez em quando escapa uma coisa mal escrita, uma coisa meio torta, uma repetição esquisita, um adjectivo drolático e inesperado, e aí se vê, desculpe-me o autor, o autor que o António Figueira será quando deixar de julgar o autor que ele não quer de forma nenhuma ser. E esta inquietação de que eu falo é a pergunta “que farei com isto?”, ou seja, o que é hoje um escritor, ou seja, quem sou eu como escritor. Serei o autor de coboiadas inovadoras ou o eremita dos planos complicados com histórias que se contam de trás para a frente ou do meio para sabe-se lá onde? Serei um original escritor de intrigas, o criador de personagens inesquecíveis, o prosador feérico à maneira de Camilo? Tudo isso? Nada disso?
É natural que esta preocupação com o literário se manifeste ainda como preocupação com a recepção do literário (“esta é uma história sobre a fama”, diz logo à cabeça o narrador de O Filho de Campo de Ourique). Fama? Em Portugal? Em Campo de Ourique? Mas é realmente uma preocupação com a maldade humana (dantes chamava-se “natureza humana”) maldade que não reconhece os génios (como se os houvesse, de facto e como se o destino de todo o génio não fosse ser ignorado, por uma forma de justiça irónica), sobre a crítica literária (figura do real que hoje só existe, em Campo de Ourique e fora de Campo de Ourique, na ressentida imaginação de poucos escritores), ou seja, e em geral, o maldito fantasma do leitor, do leitor compreensivo, do leitor incompreensivo, do leitor que rega com brandy reles a obra transpirada do escritor.
Este livro realiza o sonho de qualquer jornalista cultural: traz em si, já feita, a sua própria recensão crítica! Não precisa de ser lido, pois o autor, que o leu em primeira mão, escreveu também o manual de instruções, o modo de usar este livro. O Regresso do filho de Campo de Ourique, escrito no vazio da obra em tom devoto, parodia as liturgias dos espólios literários e desde logo apresenta um escritor transformado em ícone pela própria razão de ser seu objecto de estudo. Isso vê-se à vista desarmada no conto : é o estudioso que cria, para dignificar o seu estudo, um objecto digno de estudo. Esse é o princípio da missa literária, que logo perverte a possível autenticidade do valor do estudado.
Não sei se é legítimo perguntar pela credibilidade da renovação de algo que não existe. De facto, a nossa literatura criminal teve expoentes como Dennis McShade e Ross Pynn, mas esses tinham por cenários Quintas Avenidas que nunca tinham visto. Houve Pessoa, claro, que considerava a literatura policiaria como base da sua obra a publicar e escreveu de facto longos fragmentos que, a serem concluídos (o que por definição, no caso particular das novelas policiarias, me parece muito improvável sem alterações de fundo), seriam o pilar de uma verdadeira literatura policial. Mas Pessoa era um escritor, não era um escritor de coboiadas.
Campo de Ourique é o princípio desta realidade. É o reino da decepção (no sentido de deception e self-deception) e da desilusão, temas maiores da literatura universal – também presentes neste bairro tão castiço. Londres, Bruxelas e Paris são sítios onde se reencontra gente de Campo de Ourique doutras eras. Campo de Ourique está sempre lá. Esta gente não é portuguesa, não é europeia. É dum bairro. É dum detalhe do universo. É dum andar caótico onde se martela a Olivetti pela noite dentro, incomodando os vizinhos que perdoam, que dizem, coitadinho, deixa-o lá, aquilo é como se fosse a boneca dele. Não há mais do que isso. É uma boa definição de que é um escritor.

Luísa Costa Gomes, Lisboa, 10 de Março 2011

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10 respostas a A intervenção de Luísa Costa Gomes sobre “O filho de Campo de Ourique” de António Figueira

  1. Morgada de V. diz:

    Muito bom, como eu diria.

  2. Vou dixer uma coisa muito políticamente incorrecta:
    diga ela o que dixer, cite ela quem citar, nunca por nunca gostei da (isso).

    Entre o pretensioso e e o não-percebi-muito-p’ra-donde-é que isso-vai, venha o diabo e escolha, não eu.

    Mas iria apostar que é defeito meu, não devo ser «intelectual suficiente ou bastante», e por favor não digam a ninguém, senão ainda ateiam uma fogueira e me queimam ali mesmo.

    😉

  3. maradona diz:

    que coisinha tão bem feita

  4. Pedro Penilo diz:

    Não li o livro, mas parece-me cá que o António Figueira andou a dizer mal de Campo de Ourique…

    • Justiniano diz:

      Ora essa, caro Penilo!! Lá diria ele mal de seu Pai!!
      E, ao que parece, a crer no testemunho da Luísa Costa Gomes, um Pai sempre presente!!

      • Pedro Penilo diz:

        Como disse, não li o livro… Estou só a esconjurar traições inadmissíveis que uma leitura apressada do texto da Luísa Costa Gomes parecem denunciar.

        • Justiniano diz:

          Mas a Luísa não é da família!! Conhece talvez o Pai, mas não era pessoa lá de casa!!
          Também não li! Aguardo pela sequela, por indicação da caríssima Morgada! E depois vai tudo a eito!!

  5. xatoo diz:

    o pobre campo de ourique das vilas operárias… não merecia ser conspurcado por um ross pyne reciclado (o original era um gajo da Amadora que escrevia cowboyadas à moda de downtown e vendia pra caralho)

  6. rui david diz:

    não sei se vou lá comprar o livro. mas que sou fã da apresentadora, é um facto.

  7. rui david diz:

    se o gajo escrever como o ross pynn… até eu compro para as férias….

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