Nos bastidores, a verdade do conflito colombiano

Há cinco anos, chegava ao mundo, através das agências internacionais, a notícia de que 66 guerrilheiros das FARC abandonavam aquela organização comunista colombiana. No meio da parafernália mediática, os ex-combatentes farianos contavam “os horrores da insurgência”, explicando que já não havia ética política nas FARC e que estavam à beira do fim. Para gáudio do Estado, da oligarquia fascista e dos traficantes de droga, montou-se um espectáculo para a televisão. Os 66 guerrilheiros das FARC entregavam as armas à Comissão de Paz sob os disparos das máquinas fotográficas e mostravam-se dispostos a trabalhar pelo fim do conflito.

Como a maioria das notícias que nos chegam da Colômbia, era mentira. O Estado colombiano contratou 66 pessoas, entre desempregados e indigentes, e preparou-os durante um mês. Foi assim que se anunciou a deserção em bloco de 66 guerrilheiros da companhia ‘Cacica Gaitana’, inventada para o embuste. Toda uma vitória para a propaganda fascista do então presidente Alvaro Uribe Vélez.

Mas esta propaganda não foi muito diferente daquela que foi usada, anos depois, para ilustrar as derrotas militares da guerrilha colombiana. De forma estranha, nos bairros pobres de Bogotá começaram a desaparecer vários jovens, também desempregados e indigentes. Um deles havia sido contactado para uma entrevista de emprego e nunca mais apareceu, contou, na altura, a mãe em pranto.

Todos eles foram assassinados pelo exército colombiano e vestidos com os trajes das FARC. Foram apresentados como troféus e símbolo da vitória da democracia sobre o terrorismo. Mais tarde, descobriu-se a macabra montagem. Cerca de três mil colombianos foram mortos para fazer sorrir a oligarquia e criar no povo a ideia de que as FARC estavam a ser derrotadas.

Contudo, há poucos meses, o próprio Estado colombiano foi obrigado a reconhecer que a guerra na Colômbia mata mais gente que no Afeganistão. As FARC fazem mais vítimas entre os soldados colombianos que a resistência afegã entre os soldados da coligação imperialista. É o resultado de uma luta tão desconhecida como manipulada. Da criação de uma nova estratégia propagandista, com o apoio do Pentágono, em que se passou a tratar as FARC como narco-guerrilha, ao apoio militar dos Estados Unidos e Israel à Colômbia, esta guerra sempre teve dois protagonistas, o Estado e os trabalhadores.

Por muito que se tente fazer passar que é a democracia contra o terrorismo, é difícil acreditar que a Colômbia seja um Estado democrático. A violência da oligarquia contra os trabalhadores, nos anos 40, espoletou a resistência do povo colombiano. Depois do assassinato do candidato progressista Gaitán, os camponeses do sul criaram as FARC e abraçaram a causa do socialismo. Desde então, a oligarquia criou estruturas paramilitares para cometer atrocidades contra sindicalistas, indígenas, comunistas e guerrilheiros. Financiada pela droga, a oligarquia nunca aceitou a proposta das FARC de substituir o cultivo da coca pelo cultivo de produtos legais.

Os mesmos que acusaram o PCP de receber as FARC na Festa do «Avante!» abraçaram durante anos os ditadores do Egipto, da Tunísia e de Israel. E se para muitos Israel é a única democracia do Médio Oriente, podemos dizer que há uma democracia homóloga na América Latina. Uma democracia que prende, tortura e massacra. Felizmente, tanto em Israel como na Colômbia, há quem resista e enfrente o verdadeiro terrorismo. Esses são os imprescindíveis. Porque a verdade, essa, vive-se nos bastidores.

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26 respostas a Nos bastidores, a verdade do conflito colombiano

  1. cuba.si diz:

    LONGA VIDA ÀS FARC-EJERCITO DEL PUEBLO!!!!!

  2. koshba diz:

    Com a benção da toda ‘Democrática’ UE,não esqueçamos e com a verve estúpida dum ‘esquerdista’ Daniel Oliveira.Obrigado,DO,NUNCA MAIS VOTEI OU VOTAREI NO BE!!!

  3. Alfredo Campos diz:

    Muito bom texto. Contudo, sem por em causa as afirmações, seria útil incluir links para aprofundar e confirmar a informação.

    Abraço,
    Alfredo Campos

  4. Carlos Vidal diz:

    Excelente post.
    Também já escrevi aqui sobre as FARC, que chamei forças de defesa da comunidade colombiana, do povo colombiano. (Vai lá ver o post, tem a Bettencourt toda boazona a banhos em Miami um dia depois de ter sido “liberta” e estar às “portas da morte”.)

    E é preciso sublinhar outra coisa: a Colômbia (que um tal Vital Moreira %&88–=#& muito elogiou), Israel, a Tunísia de Ben Ali e o Egipto de Mubarak, são os estados e as personagens aliados do Partido Socialista.
    Do socialismo democrático, em resumo.

    • Bruno Carvalho diz:

      A Ingrid saiu melhor da prisão das FARC do que quando entrou. Aliás, foi a única que se queixou do tratamento dado pelos guerrilheiros. Até os gringos da CIA admitiram que as FARC lhes deram o melhor tratamento possivel dentro das circunstâncias. Nada como as prisões colombianas para atestar a democracia daquele Estado. A um guerrilheiro do ELN torturaram-no até ficar paraplégico e cego pelos olhos arrancados. E a Ingrid a mostrar a barriguinha firme na praia. Até na comparação entre prisões e tratamento dado aos presos, as FARC ganham.

      • Justiniano diz:

        “A Ingrid saiu melhor da prisão das FARC do que quando entrou. Aliás, foi a única que se queixou do tratamento dado pelos guerrilheiros.”O que é isto, verdadeiramente!!?? Que abominação é capaz de parir tão desalmado palavreado!!
        “Até os gringos da CIA admitiram que as FARC lhes deram o melhor tratamento possivel dentro das circunstâncias.” Isto é de uma imbecilidade insuperável, impossível de entender!!
        Muda aos dez e acaba aos vinte, não é!?

      • JDC diz:

        Quer dizer que o Bruno Carvalho é a favor do aprisionamento de uma pessoa contra a sua vontade, desde que seja tratada bem. Nessas situações é aceitável e não condenável. Curioso que certos donos de escravos diziam que tratavam muito bem os seus e que estariam melhor assim do que livres…

        • Bruno Carvalho diz:

          Nunca disse que era a favor da prisão deste ou daquele. Leia de novo o artigo, desta vez com óculos. Apenas disse que em comparação as prisões das FARC são melhores que as do Estado colombiano. Em relação à Ingrid, não tenho muito presente os motivos pela qual ficou presa mas não tenho qualquer dúvida da justeza da prisão dos norte-americanos.

    • Justiniano diz:

      Caro Vidal, este post é um ultraje inominável. Uma coisa moralmente tosca, escrivinhada à laia de grande revelação!! Mas que grande revelação!! Ficámos todos mais conhecedores da Colombia, daquelas gentes e das suas desventuras!!
      De que se queixa este escriba!!?? Que rectidão aponta ele!!??

      • Bruno Carvalho diz:

        De nada, Justiniano. Não me queixo de nada. Afinal de contas, de que raio havia de me queixar se os colombianos vivem numa democracia?

    • vitalino diz:

      Já era hora de o Vidal arranjar uma namorada (ou uma play station).

  5. José Jardim diz:

    Bela Posta.Infelizmente o imperialismo tem muitas “camaras de eco” ao seu serviço que intoxicam a opinião pública.
    Portugal não fica atrás;Tvs,rádios e jornais com algumas raras excepções são lacaios do capitalismo e imperialismo.
    Saudações Fraternas.

  6. Justiniano diz:

    Caro Bruno Carvalho,
    Este post é um verdadeiro ultraje!!
    Sendo sendeiro de verdade, de traição ou apenas puro devaneio!! Vcmcê pronuncia os outros como se daí resultasse alguma virtude para este!! E, tristemente, basta-se com isso!! De que se queixa, verdadeiramente!!?
    Mais lhe valia um berro prá bancada, meia bola e força assim à laia de grande revelação, porque para tanto não precisava de mais!!

  7. José diz:

    “os ditadores do (…) e de Israel”
    A sério?
    Quem?

    • Bruno Carvalho diz:

      Israel, aquele país criado artificialmente sobre o território de outro, através de crimes contra a humanidade.

    • Carlos Vidal diz:

      Este José só inventado, e nem sei o que vem aqui fazer.
      Quem? O quê?
      O que quer o senhor José (um reincidente)??

      Quem é ditador em Israel ou quem os abraçou?
      Quem os abraça é a Internacional Socialista (aos Trabalhistas, recordistas em crimes contra a humanidade).
      Ditadores em Israel são todos os seus presidentes e governantes, pois praticam o apartheid (são Bothas), crimes de guerra e deveriam todos, sem excepção, ser julgados no Tribunal Penal Internacional (se este tribunal fosse credível).

  8. Justiniano diz:

    Note, caro Bruno, que a compaixão que ofereço aos nossos irmãos da Colombia, de Caracas, de Kananga, de Lagos e de muitos outros lugares deste mundo, que se entregam à práctica da mais vil iniquidade é a que se pode e deve oferecer a um irmão que se perdeu e que perdeu o entendimento!! Perdeu o caminho!! Terão, talvez, que se encontrar e suportar e aturar. Ou então que se matem!! Que se poupem a esse martírio que tão bem descreve como verdade o caro Bruno!!
    Sim, que se matem todos, sem excepção, que desapareçam!! Que desocupem a terra!! Sem preferencia, todos!!

  9. joaovalenteaguiar diz:

    As FARC são a organização revolucionária da América Latina que nos merece mais respeito. No contexto actual, dadas as calúnias vergonhosas e criminosas e dado o grau fascista de repressão sobre as forças progressistas e revolucionárias colombianas por parte daquele Estado-traficante-amigo do imperialismo, as FARC merecem toda a nossa solidariedade. Elas não apenas lutam pelo povo colombiano mas tb ao entravarem a luta do imperialismo naquela região, lutam igualmente pelo futuro da humanidade.

    Um abraço camarada

  10. José diz:

    “Em relação à Ingrid, não tenho muito presente os motivos pela qual ficou presa”
    Isso é que é andar distraído…

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