Viva o PCP, nos seus 90 anos

Pode desagradar-me o vazio estratégico.

Ou a táctica errática e de balizas rígidas, em vez de firme e flexível.

Ou o agitar de identidades essencialistas (e, portanto, anti-marxistas), para esconjurar o medo de pensar o que é novo – quanto mais não seja, para perceber em que medida o é.

Ou as retóricas quase «pequeno-burguesas de fachada socialista», para acomodar um defensismo reactivo de “sindicato do povo em geral”.

Ou a limitação (pelo afastamento, ou pelo cansaço e o “para quê?”) da diversidade que é fonte de toda a riqueza. Ajudada por uma lógica oligárquica que deixou de fazer sentido num certo dia de 1974.

Ou a súbita defesa dos regimes e tiranetes de que a malta por lá se ria, já há uns 20 anos atrás.

Podem desagradar-me todas essas coisas que não discutirei em caixas de comentários, pois são demasiado grandes e importantes para tais espaços e para picardias de ocasião.

Mas a história e o património destes 90 anos de Partido Comunista Português são (tal como o respeito e orgulho pelo que de melhor eles têm) tão meus quanto dos seus actuais dirigentes.

E são também de todo um povo, queira-o ele ou não.

Por isso escrevo «Viva o PCP, nos seus 90 anos!»

E por isso vos convido a trautear aquela estrofe adorável e meio anarca do seu hino:

«Messias, deus, chefes supremos

Não precisamos de nenhum.

Sejamos nós quem conquistemos

A terra mãe, livre e comum.»

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28 respostas a Viva o PCP, nos seus 90 anos

  1. Objecção, pela «esquerda baixa», e todos nós estivémos no funeral:

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_Martins_Rodrigues

    • paulogranjo diz:

      E há mais. Com pessoas e com acontecimentos.
      O que, creio, não retira validade ao que escrevi – e que, na sua substância, não irei discutir.

  2. tric diz:

    Pelo seu eloquente texto, deduz-se facilmente que a primeira coisa que o Partido Comunista faria era iniciar uma perseguição aos cristãos portugueses…eu espero que pessoas como você não cheguem nunca aos centros de decisão do PCP!!!!!

    • paulogranjo diz:

      Oh homem (ou mulher, não sei): mas que raio é que os cristãos (ou os muçulmanos, ou os budistas, ou os judeus, ou os hindus, ou os taoistas, ou todos os outros que de momento não me ocorrem) têm a ver com o assunto? Ou o que é que têm a ver as preferências sexuais, ou as simpatias clubísticas, ou os gostos estéticos? Cada um na sua e todos com espaço e condições para intervirem e decidirem no que é de todos!
      Para além de que, se há alguma coisa fulcral que (em termos políticos) aprendi nos últimos 25 ou 30 anos é que, se o primeiro dever de um revolucionário é fazer a revolução, o seu segundo dever é, uma vez ela feita, assegurar-se de que existem todas as condições de oposição ao seu poder, interna e externamente ao seu grupo.
      Pelo que, conforme imagina, não há grande risco de que os seus receios se concretizassem, mesmo que eles correspondessem a uma expectativa ou desejo meus.

      • tric diz:

        “Oh homem (ou mulher, não sei): mas que raio é que os cristãos (ou os muçulmanos, ou os budistas, ou os judeus, ou os hindus, ou os taoistas, ou todos os outros que de momento não me ocorrem) têm a ver com o assunto?”

        deixe-se de historias…

        • paulogranjo diz:

          Custa-lhe assim tanto imaginar que uma grande parte dos ateus e agnósticos (para além de aceitarem pacificamente a liberdade religiosa) se estejam cagando para a religião que você tenha ou deixe de ter?
          Percebo que, para si, ela seja uma questão identitária muito importante, e que até gostasse de imaginar que ela é um assunto tão importante para toda a gente como é para si.
          Mas a verdade é que me estou cagando para isso, como me estou cagando para o tom da sua pele, ou para o sexo da pessoa com quem vai para a cama. Sorry.

          • V. KALIMATANOS diz:

            Que monumnetal cagada, ó Granjo!

            Sim? Sim, pois, de acordo consigo, na estercorária conversa, não é só você que caga bem, é “a grande parte” dos ateus e os agnósticos”. Quem serão esses gajos?

            E, de longe, este é o seu mais imponente cagalhão, pois que se caga para tudo menos para o PC:

            “Mas a verdade é que me estou cagando para isso, como me estou cagando para o tom da sua pele, ou para o sexo da pessoa com quem vai para a cama. Sorry”.

            Sorry? Eu digo: é merda a mais e mistura-a com outras merdas. Que bichinho arrogante você me saiu! E ignorante da História, mesmo daquela que foi expurgada (isto é, cagada) por primos afastados da gente homenageada.

          • paulogranjo diz:

            Depreendo que, não se estando você a cagar para essas características, crenças e opções pessoais dos outros, é porque achará que tem todo o direito a perorar acerca delas, policiá-las e reprimi-las.
            Bichinho arrogante que você é, hem? E perigoso.
            Pelos vistos, há quem se esteja a cagar para o que não lhe diz respeito, nos outros, e há quem tenha sido, ele próprio, excretado.

          • tric diz:

            Comunismo Cãncio lol

  3. João diz:

    Não gostaria de viver num Portugal governado pelo PCP, e muito menos num Portugal sem PCP. Vivam os 90 anos, melhorem nos próximos e deixem-se de pretensões a ser a vanguarda esclarecida e única.

  4. paulogranjo, o primeiro dever de um revolucionário é «revolucionar-se» a si próprio. Tornar-se melhor pessoa.
    Sem isso, ir tentar «revolucionar» os outros,costuma dar em tirania, ou em merda.
    Faça o contrário, ter-me-à pela frente, e eu posso ficar, mas vou levar comigo uns quantos dos seus. E a si se tiver a coragem de se pôr à frente.
    Isto é só conversa, espero bem que nada passe à pratica, estou apenas a dar determinação / sublinhar um ponto

    🙂

    • paulogranjo diz:

      Temo que seja ainda um bocadinho mais chato que isso, James.
      Suponho que a grande maioria dos que viraram tiranetes fossem, antes do poder, óptima gente, com as melhores intenções e que se tinham (ou julgavam) revolucionado a si próprios.
      O que, julgo, nos deixa perante duas hipóteses: ou aqueles que se assumem como revolucionários consideram que são melhores, mais “puros” e incorruptíveis nas suas boas intenções do que todos aqueles que os antecederam na história (o que, mais do que falta de modéstia, revela uma cretinice chapada e prova que nem um niquinho de poder eles devem ter), ou o controle sobre o poder, a diversidade e a oposição interna e externa ao grupo são essenciais e inegociáveis, sejam quais forem as circunstâncias.

      • V. KALIMATANOS diz:

        O que quer dizer, por outras palavras, que o amigo Granjo não tem a mínima ideia do que está a falar, né? É que a sua segunda hipótese está mesmo uma cagada, já reparou? Ou isso é da obstipação?

        • paulogranjo diz:

          Digamos, meu caro, que o seu comentário é elucidativo acerca da consistência do seu pensamento. E, eventualmente, da cor e cheiro.

  5. m diz:

    pois , só que anarquismo nada tem a ver com comunismo. e faz favor , não misture. pode não estar lembrado , mas eu estou , que estalinista ou outros istas ( são tantos..) comunistas mataram que se farta anarquistas , na estudada , vá se lá saber porque ( moi a consciência?) guera civil espanhola . a gente não grama estado , comunas vivem pró estado.
    verbalista pequeno burguesa chata que eu sou , né?.

    • Grumbler diz:

      Diria que pelo menos um certo senhor russo de pêra discordaria do que disse

    • Vergonhosas feridas, que nunca são de mais recordar, para que não se repitam. Quanto mais não seja, sob a forma de “cordões sanitários” nas manifestações de rua…

      Mas também convém não esquecer (incluindo para quem se queira chamar “comunista”) que o vôvô Marx só tinha três certezas acerca daquilo que o comunismo (enquanto modo de produção) deveria ser: meios de produção colectivizados e sem exploração do Homem pelo Homem; fim do Estado; liberdade e realização individual.
      O que separava o nosso barbudo dos seus camaradas anarquistas não era aquilo que se pretendia atingir, mas aquilo que era necessário revolucionar para que fosse atingido – e, com um grau de importância menor, as condições e meios necessários para que se pudesse revolucionar o que quer que fosse.

      Se a história dos partidos comunistas no poder (ou, por vezes, a caminho dele) dão razão ao que diz, enquanto olhar retrospectivo, estou convicto de que qualquer possibilidade e caminho prospectivo, em busca de algo semelhante aos sonhos do Marx e do Bakunine passa, pelo contrário, por comunismo e anarquismo terem “quase tudo a ver”. E não só eles.

    • Santiago diz:

      O Anarquismo de que pretende falar está muito próximo da cartilha anarco-capitalista, reparou?
      Ser anarquista só porque é “fixe” não é ser anarquista de todo.

      • paulogranjo diz:

        Não vejo em que é que o pobre marx mereça tal insulto.
        Quanto a mim, não me lembre de ter dito que me considerava anarquista, com “fixe” ou sem ele…

  6. Inteiramente de acordo.
    Não se esqueça, uma das primeiras coisas que os bolches fixeram na preterida União «Esgroviética» (under friggin’ Lenin) foi liquidar/matar/ex-patriar/ pôr em campos de concentração todos os socialistas-revolucionários, que mal é que lhe tinham feito ?
    Ah, já sei, não eram da côr…

    🙁

  7. “nada esperemos de nenhum”…

    E neste momento, acho que a mais importante é a estrofe seguinte:

    “Para não ir em protestos vãos,
    Para sair deste antro estreito,
    façamos nós por nossas mãos,
    tudo o que nós nos diz respeito!”

  8. Filipe Diniz diz:

    Era tão bom, não era, proclamar no blogue que o património e a história de 90 anos de luta do PCP é também seu e pronto? Ao mesmo tempo que o seu texto confirma que não percebe inteiramente nada do que o PCP foi e é? Na I República criou-se a figura dos “adesivos”, os aderentes instantâneos. Pelo visto, os 90 anos do PCP dão lugar ao autocolante dos dois lados: reclamar o “património” com o qual nada tem a ver e simultaneamente dar voz aos mais básicos preconceitos e caricaturas anti-PCP.

    • Caro Filipe:

      Não conheço a sua biografia política.
      Mas é muito provável que, pelo que fiz, eu tenha mais direito a reclamar esse património como meu do que você.
      Isto, já para não contabilizar o que faço.
      E isto, ainda, para além de algo que foi uma pedra de toque fundamental no discurso histórico do PCP: a sua reivindicação de que a sua história (com destaque, mas não só, durante a ditadura) é património de todo o povo.

      E se esta noção lhe parece estranha, vá lá perguntar ao camarada responsável. Talvez ele ainda se lembre.

      • Filipe Diniz diz:

        Paulo Granjo
        Como não o conheço de lado nenhum não vou debater a sua autoestima, nem o achar-se com mais direitos seja de quem for a atrelar-se a um património com o qual manifestamente nada tem a ver.
        Mas encerremos o assunto. Você tem respeito e orgulho “pelo melhor que eles têm”. Muito obrigado, em nome “deles”.

  9. Ora diacho Filipe Diniz, how ignoooorant can you be ?
    Vá, ‘poise-se’, e ler os [i]Subterrâneos[/b] do Jorge Amado.

    O arqº ali referido é o Oscar Niemeyer, »compagnon-de-route» e finankiador do PC do B.

    Depoix ‘ustedérrimo’ faça qualquer merda relevante, ou ao menos dê dinheiro a quem as faça.

    🙁

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