Diz que a história se repete…

Quando eu tinha uns 10 aninhos, Fernando Tordo e Ary dos Santos levaram à Europa-sem-ser-connosco uma violenta sátira, aparentemente kitsh e inócua, do fim de festa da ditadura.

(está aqui o video e não deu para importar, porque rebéubéu-pardais-ao-ninho…)

Os tempos (e as censuras bem mais subtis que as quadradonas da altura) já não exigem metáforas para acusar aquilo que é insustentável.
O que pode limitar a forma. Mas não limita o papel do humor, do sarcasmo e da auto-ironia.

Uma parelha humorística que goza com estilos revolucionários serôdios e com os baladeiros que conheciam dois acordes, para com isso gozarem com os importantes senhores que nos governam e, às vezes, com o “povo” ( que «quer é dinheiro para comprar um carro novo»), irá, por efeito do voto popular, levar à Europa-que-já-disseram-que-estava-connosco-e-agora-de-certeza-que-não-está-pelo-menos-na-Alemanha uma outra sátira kitsh do nosso imaginário, apelando a algo que voltou a ser sexy, por efeitos da margem sul do rio Mediterrânico.
A luta, a rua, a alegria.

(E desculpa lá, Pedro, meu irmão emocional, se a leitura que faço da coisa é um bom bocado diferente.)

Certamente, porque as coisas estão insustentáveis.
Talvez, por haver esperança (entre muito mais gente do que esperariam os aspirantes a ditadores eleitos) de que a luta e a rua, em alegria, sirvam de alguma coisa.

(E, aqui, podem ver o video no post do Paulo Jorge Vieira, com o seu título muito bem caçado.)

Não é um acaso, esta eleição de uma tal musiquinha.

Dizem que a história se repete, e cois’ital…
Mas, se da primeira vez já queria ser farsa, o que nos revelará agora?

(na imagem de abertura, o dia em que os seguranças do Sócrates não acharam piada aos “Homens da Luta”)

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7 respostas a Diz que a história se repete…

  1. Pedro Penilo diz:

    Caro Paulo:
    li a tua posta várias vezes, e não consigo perceber onde é que a leitura é diferente. Só se imaginasses que eu não sei o que é humor. Ou seja, que eu não percebo que aquele humor se faz com muitas leituras, que implicam gostar e/ou não gostar do objecto que se parodia.

    Creio que, quando parodiam Sócrates, os “Homens da Luta” mostram que não gostam dele. Creio, pelo contrário, que a paródia com os tiques, tipos e símbolos da geração do PREC (e não só os baladeiros estão representados) é um movimento duplo de riso (crítico) e afecto, como nos acontece a todos, hoje, quando olhamos para as figuras que fizemos (fazemos). Se fazes uma leitura “amputada” estás a tirar inteligência aos “Homens da Luta”.

    E repara que digo isto, sem sequer saber qual é o perfil ideológico dos “Homens da Luta”. Mas há – e é disso que falo na minha posta – uma realidade que liga o que eles querem, com o que o “povo da esquerda” quis deles.

    • paulogranjo diz:

      Ó Pedro: Se há coisa que eu sei, desde que éramos imberbes mocinhos, é que tens sentido de humor para dar e vender. E, como também o praticas (e bem), também sei que lhe conheces os mecanismos.
      Mas, de facto, essa redução da coisa a uma “expressão de afecto” parece conversa daqueles humoristas franceses luso-descendentes que gozam com as gerações dos pais e avós. O que, no caso deles, até pode colar.
      Agora “amputar” a leitura, como dizes, e fazer do gozo com os tiques linguísticos datados e com o discurso primário uma recuperação ternurenta de «símbolos de que a esquerda “moderna” se envergonha», tem lá paciência! Isso, já cheira a declaração de vitória na noite em que se levou uma cabazada da AD…
      É na ambivalência e ambiguidade (sobretudo, de se conseguirem dizer coisas que fazem sentido para as pessoas, sob uma forma ridícula e datada) que reside a força, sempre desconfortável, do registo de actuação deles. Ouve, por exemplo, o “E o povo, pá?”.

      • Pedro Penilo diz:

        Continuo sem perceber o que é procuras a discórdia. Eu não reduzi nada a “expressão de afecto”. Escrevi: “a paródia com os tiques, tipos e símbolos da geração do PREC (e não só os baladeiros estão representados) é um movimento duplo de riso (crítico) e afecto, como nos acontece a todos, hoje, quando olhamos para as figuras que fizemos (fazemos).”

        Eu nem sequer me debruço sobre o “identidade política” dos “Homens da Luta”, como respondi ao Carlos Vaz Marques. Trato de um movimento. Disse: “…uma realidade que liga o que eles querem, com o que o “povo da esquerda” quis deles.” Ou “…os afectos não são unívocos. Vão-se construindo em ambos os sentidos.”

        Quanto ao vídeo “E o povo, pá?”, não o vejo como um “desvio ideológico”… É-me penoso estar a explicar porquê, porque não acredito que penses isso (ou que sequer penses que eu penso isso). Um paralelo noutra estratosfera: “Feios, Porcos e Maus”.

        A verdade é esta: metade da plateia saiu; a esquerda festeja, enquanto a direita organiza petições no Facebook para censurar a canção. E já no ano passado, os “Homens da Luta” foram desclassificados por causa da letra.

  2. Peço perdão, ao lado, mas conheço o ‘bicho’ perfeitamente, e gosto (sempre gostei, que faria eu se não gostasse ? ) do dito, e parece que o Tordo e o Ary também.

  3. Leitor Costumeiro diz:

    “De facto, pode-se dizer que o homem nem sequer é superior ao seu venerável pai – o macaco; excepto em duas coisas temerosas – o sofrimento moral e o sofrimento social.”
    “A história é uma velhota que se repete sem cessar.”
    Eça de Queirós nas suas “CARTAS DE INGLATERRA”

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