‘Tá mesmo tudo no Ivan Ilitch

A internet é como as cerejas, embora sem uma empregada que retire os caroços: já não sei como, fui parar ao De Rerum Natura, onde descobri um daqueles textos pseudo-pedagógicos (no caso, um diálogo apócrifo mal amanhado entre Camões e António Gedeão) com que as novas oportunidades dos liceus querem agora educar os meninos, a ver se contemporanizam a literatura, e assim, passando por cima do facto, óbvio, de que aprender – história, literatura, química, etc – exige essa coisa incómoda que é deixar o próprio umbigo, correndo o risco de, no processo, aprender alguma coisa.
Desconhecia a existência desses textos, e teria ficado devidamente chocada, não fosse há dias ter encontrado um exemplo insuperável desta corrente pedagógica que supõe que as crianças são umas bestas, e que há que lhes acenar com a cenoura da contemporaneidade e do que lhes é familiar para conseguir que levantem as estúpidas cabecinhas dos Game Boys. Foi − onde havia de ser? – num site americano. Claro que lá eles estão muito à frente: em vez de infantilizarem no liceu, infantilizam na universidade.
O caso é que aqui há dias, quando fiz um post sobre uma noite nas urgências em que incidentalmente referia A Morte de Ivan Ilitch, fiquei a saber, cortesia do Major, que há dois Ivan Ilitches: o juiz do Tolstói e um anarca austríaco que existiu mesmo e teve, curiosamente, a mesma sorte do outro – morreu. Achei curioso, e decidi googlar a coisa. Entre os vários resultados, apareceu-me um curso universitário nos EUA dedicado exclusivamente a esse petit chef-d’oeuvre russo. A cadeira chama-se “Big Read”, o que deixa logo uma pessoa em cuidado, porque o livro é, como sabem, mínimo; mas se o livro é pequeno e se lê em duas penadas, as exigências do curso, essas, são enormes. Pede-se que os alunos façam um trabalho de grupo sobre o livro, baseado nas indicações do professor, tendo sempre em conta que o projecto deve ser multimédia, “an important dimension of this project”. Entre as várias propostas de trabalho, há um projecto de decoração de interiores (porque foram as cortinas, como toda a gente sabe, que assassinaram o Ivan Ilitch), as alegadas opiniões do Tolstói sobre o aquecimento global (um capítulo que na minha edição foi estranhamente cortado), e ainda esta pérola:

The relation between husband and wife in The Death of Ivan Ilyich leaves room for improvement. What is the source of the gap between them? Research Tolstoy’s personal life and his writings having to do with marriage in the 1880s. Based on your research and your analysis of the novel, play Dr. Phil to Praskovya Fyodorovna and Ivan Ilyich. (aqui, em diferido)

Confirma-se que está tudo no Ivan Ilitch: a vida e a morte, o Tom Hanks e a Sida, a Susan Sontag, o terrorismo, e, o que é capaz de ser o mesmo, o inefável Dr Phil.

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3 respostas a ‘Tá mesmo tudo no Ivan Ilitch

  1. Se gosta da Sontag, talvex devesse dar uma espreitadela a isto aki:
    i>Annie Leibovitz: Life Through A Lens (2008)

    http://www.pbs.org/wnet/americanmasters/episodes/annie-leibovitz/life-through-a-lens/16

    This film traces the artistic self-realization of Annie Leibovitz, from childhood through the death of her beloved friend, Susan Sontag, and includes snippets of Leibovitz’s last visual memories of Sontag.
    The film traces the arc of her photographic life, her aspirations to artistry, and the trajectory of her career through phases that included the tumultuous sixties in Berkeley, CA., touring with the Rolling Stones, a mentorship by Hunter S. Thompson, and, later, capturing the last candid moments of John Lennon’s life with Yoko Ono.
    It closes with her reflections on life, children, and the the wake of her relationship with Sontag.
    The archival material presented here is invaluable for framing an understanding of this immeasurably influential visual artist.
    «Annie Leibovitz: Life Through a Lens» traces the arc of Annie’s photographic life, her aspirations to artistry and the trajectory of her career.
    The film depicts the various phases that shaped her life including childhood, the tumultuous sixties, her transition from Rolling Stone to Vanity Fair magazine and later her most significant personal relationships including motherhood.
    The documentary’s highlights center on interviews with her most famous subjects, mentors and colleagues, along with personal insight from Leibovitz herself, to reveal the evolution of inarguably one of today’s most influential visual artists.

    In her portraits for Rolling Stone and Vanity Fair, Annie Leibovitz has photographed a generation (and more) of rock stars, politicians, and supermodels.
    «Annie Leibovitz: Life Through a Lens», a documentary created by Leibovitz’s sister Barbara, suggests that she might be somewhat overqualified for the job.
    Not that Leibovitz reflects too much on the business of photographing movie stars for a living.
    Her nomadic life suits her just fine, and might have come from a childhood spent as an Army brat, moving around the world every few years.
    Home movies give some of the flavor of Leibovitz’s youth, and her arrival in San Francisco just as the Sixties counterculture (and Rolling Stone magazine) were getting underway is covered with old footage and new interviews with colleagues, including publisher Jann Wenner.
    It was a wild time (Wenner speaks of sending Leibovitz on tour with the Rolling Stones as though he were responsible for selling her into slavery), and it took its toll; the movie doesn’t go into great detail, but a substance abuse problem and subsequent rehab is acknowledged and quickly forgotten.

    Mick Jagger and Keith Richards remember her warmly, in any case. Leibovitz’s personal life is in the shadows, except for her relationship with writer Susan Sontag.

    The rest is a series of testimonials from admiring subjects (Arnold Schwarzenegger, Mikhail Baryshnikov, Whoopi Goldberg) and some on-location stuff for Vanity Fair, including a shoot with George Clooney and Julia Roberts.

    Her working methods show someone with very specific ideas about what she wants, and a disarmingly blunt way of getting them.
    Perhaps the most memorable section of this American Masters program is the account of Leibovitz’s photographs of John Lennon and Yoko Ono, including a celebrated Rolling Stone cover of a naked Lennon embracing his wife, taken a few hours before Lennon’s murder.

    That kind of work proves that in Leibovitz’s world of portraiture, intimacy is everything.

  2. António Figueira diz:

    É horrível dizê-lo, mas cá vai: o juiz do Tolstói e o anarca austríaco morreram ambos – mas eu também morrerei. (PS: O Dr. Phil não pode ser substituído por Dr. Feelgood?)

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