Da cerveja ao bife, passando pelo filósofo, tudo se falsifica. Porque não políticos?!

O baronete Karl-Theodor zu Guttenberg (zu ou von em nome alemão lembra em português coisas como, digamos, de Vasconcellos ou Athaíde), ministro da defesa alemão, jovem, belo (!), nobre (literalmente), empreendedor, pró-activo – em suma, a corporização de tudo o que este tempo deseja para um político de futuro, e mais genericamente um jovem de futuro (gente do último Prós e Contras, atentai!) – demitiu-se ontem de todas as suas funções, após a descoberta de que plagiou partes da sua tese de doutoramento na Universidade de Bayreuth. (Bayreuth, a Sintra alemã, santuário da fina-flor da aristocracia, do mítico festival que ali a reúne para apreciar grandiosas encenações de Wagner, certamente excelentes tanto quanto exclusivas, mas isso são contas para outros especialistas da tasca, como Vidal).

GuttenbergDiz-se nos media alemães que se trata de uma vitória da decência, da honestidade, da ciência, face a um jovem arrivista que teve a soberba de se julgar superior, e tentar ofuscar com pompa e fotogenia bastantes, valores que tocam no núcleo mais sagrado da moralidade burguesa (o alemão tem a peculiar honestidade de equivaler “civil” e “burguês” na mesma palavra, bürgerlich).

Ocorre dizer: a burguesia alemã anda atrás do espírito do tempo! A nossa em particular há muito descobriu a arte de falsificação de títulos e – não menos importante – a arte da relativização que impõe a divisa “Havia escândalos, mas já não há”. Eis um préstimo que poderia prestar a estes anacrónicos alemães – que ainda fingem acreditar nessa coisa de honestidade na academia, ou seja onde for – a troco, quiçá, de umas concessões económicas bem urgentes nos dias que correm.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

12 respostas a Da cerveja ao bife, passando pelo filósofo, tudo se falsifica. Porque não políticos?!

  1. zé paço de arcos diz:

    Será que a ida à Alemanha tem a ver com os exames, ao Domingo e por fax?

  2. Morgada de V. diz:

    Bug informático deixa Guttenberg sem aspas
    Um bug informático provocou o desaparecimento de centenas de aspas e notas de rodapé da tese de doutoramento de Karl-Theodor zu Guttenberg, o ministro alemão acusado de plágio. “Também há um ou outro trema que desapareceu”, acrescentou Guttenberg. (…)

    (são uns meninos, têm muito que aprender)

  3. Na ja, alles klar aber… em alemão von ou zu é “de” Athaíde, “de” Vasconcellos. (ok, sim, é bem.)

  4. m diz:

    os políticos já estão falsificados há que tempos. coisas da sociedade de massas. é assim tipo como na “literatura” sec. XXI , depois de semanas a ler páginas ao calhas na livraria dos autores de agora , lá encontramos um assim assim , o resto é tudo porcaria promovida pelo marketing.

    • José Borges Reis diz:

      Tem razão qb, m. Dessa literatura do séc. XXI que fala, como da música e artes em geral, o nada que se retira é um gozo negativo, aquele limiar em que a coisa dá a volta, que de tão má se torna boa. A literatura do empreendedorismo não costuma falhar nisso. Eu, por exemplo, ando com uma vontade de ler o livro recente de António Carrapatoso que nem lhe digo.

      • m diz:

        bem , desde que não ande em pulgas para ler o josé rodrigues dos santos ou similar nacional ou estrangeiro , tudo bem :)). esse do António não sei o que dirá , deve falar de bancos e empresas xpto opus dei . mas é de senso comum que bancos só para guardar as poupanças , que os tipos são uns ladrões. recomendo-lhe antes ” economista acidental” de um tal Miguel Szymanski . Não sei quem é , mas ouvi-o na Antena 3 e fiquei fã. small is beautiful !

  5. Justiniano diz:

    Excelente, a fotografia!!
    A litrada e o azul de fundo! Verdadeiramente claro!!
    Gostei bastante da “a burguesia alemã anda atrás do espírito do tempo”. Mas poderia também dizer-se que a mesma “burguesia alemã” produz o espírito do tempo.
    É evidente que creem e não desesperam!!

  6. o da boa-fé diz:

    O menino Zé Reis anda muito debordiano… Os leitores agradecem.

    Mas permita-me discordar num ponto importante: ao contrário do bife, da cerveja ou da música (por ex. propagandeada pelo seu coleguinha de tasca), os ‘políticos’ não se falsificam; porque eles são já os falsos mediadores a que os habitantes da pólis recorrem para solucionar os seus problemas. Digo que são os ‘falsos mediadores’ na medida em que não colocam nenhuma das questões que permitiriam abordar e resolver esses problemas: a escravatura assalariada (trabalha-se de dia e na flor da vida; ‘vive-se’ à noite e depois dos 70; nota: a palavra ‘vida’ está hoje fora do discurso ‘político’; ela é monopólio do discurso publicitário; outra nota: estivemos 10000 anos a construir a civilização SEMPRE com a ilusão de que assim estaríamos a reduzir o tempo dedicado ao trabalho e hoje trabalhamos mais horas do que os caçadores recolectores do Paleolítico; e fodemos, cantamos e jogamos bem menos do que eles), a falsificação/poluição da comida (e do resto), a configuração milimétrica do quotidiano à medida dos bens (automóveis, telemóveis…) criados pela indústria, etc, etc.

    (Enfim, são todas as questões que este blog, no seu reaccionarismo tão característico deste tempo, tão pouco costuma colocar.)

Os comentários estão fechados.