Ver o que se quer e não o que se vê

Para Hardt e Negri a revolta árabe está a ser feita por jovens intelectuais que têm capacidade de usar o Facebook e as redes sociais, e têm muito em comum com os jovens de Londres ou Roma. Entusiasma-os a falta de direcção da multidão e caracterizam que este região do globo vai substituir a América Latina “como laboratório de experimentação política entre um poderoso movimento social e governos progressivos como os que têm lugar da Argentina à Venezuela, do Brasil à Bolívia”.

Incapazes de ver que na América Latina não faltaram organizações fortes para dar perspectiva de poder aos processos, independentemente do entendimento que tenhamos de “progressivo”, que acabaram no Planalto de Brasília ou no Palácio Rosado em Buenos Aires, e que o mais interessante nessa região foi a capacidade de organização da resistência, os intelectuais do radicalismo pós-moderno conseguem no entanto ver as consequências do voluntarismo autonomista: “Cada revolta, claro, pode falhar: tiranos podem esmagar com repressões sangrentas, juntas militares podem tentar ficar com o poder, os grupos tradicionais da oposição podem querer raptar os movimentos e a hierarquia religiosa jogar tudo no controlo do poder”. Ainda assim ficará tudo bem se “as exigências e os desejos políticos sobreviverem” pois é quanto basta para que “o ciclo da luta continue”.

Entender que as multidões são espectaculares principalmente porque não disputam o poder é entender que a tomada dos palácios de Inverno está fora de moda e que se muda a natureza do Estado sem a tomada do poder. De Tunes a Tripoli, do Cairo a Sanaa é precisamente esse o desafio. Se as estruturas dos velhos regimes não for completamente destruída e o movimento não for capaz de criar organismos de duplo poder, as multidões podem continuar sem o estorvo das direcções mas continuarão também mais sujeitas ao contra golpe. Isto, claro, dando de barato que as organizações de carácter islâmico foram ultrapassadas pela rebelião de laicos e intelectuais que só Hardt e Negri conseguem ver.

Um e outro adaptam a realidade às suas convicções cavalgando a multidão com as suas concepções. Confundem os seus desejos com os factos no terreno. Fica-se à espera que surja alguém capaz de adaptar as suas convicções à realidade e nos permita perceber um bocadinho mais sobre o assunto além do contorcionismo intelectual do ocidente.

Manifestante no Bahrein que por certo Hardt e Negri não terão visto

Este artigo foi publicado em cinco dias and tagged . Bookmark the permalink.

22 respostas a Ver o que se quer e não o que se vê

  1. José diz:

    Muitas vezes não estamos de acordo.
    Hoje tenho de lhe dar os meus parabéns pela análise lúcida do seu post.
    Excelente!

  2. «What they don’t understand is that the multitude is able to organise itself without a centre – that the imposition of a leader or being co-opted by a traditional organisation would undermine its power.»

    Tradução muito livre, grazie tante professore Antonio N. !

    O que eles não entendem é que a malta seja capaz de se organizar por si própria, sem um centro/núcleo dirigente, e que a imposição de um idiota qualquer como “dirigente”, ‘amandado’ lá p’ra cima pela «organização» teria efeitos corrosivos no movimento.

    • Niet diz:

      Oh, Major: A crítica ao marxismo-leninismo embrulhado em fardas, é coisa que não cessamos de difundir, proclamar e propor, há bué de tempo(s)…Eu acho que a dupla Negri/Hardt ficou mais radical com as revoltas no Médio Oriente. As coisas passam-se, com efeito, como também o assinalava Rosa Luxemburg, em relação à acção política directa: ” o movimento do proleariado não deve jamais ser concebido como um movimento de uma minora organizada “. Niet

  3. Me diz:

    muito bem. o meu sobrinho tem 10 anos , sabe usar o facebook e demais trapalhadas para falar , postar fotos , vídeos , jogar com os amigos e demais trapalhadas e não se pode dizer que seja um intelectual….

  4. Tiago Mota Saraiva diz:

    Bom post!

  5. Von diz:

    off topic: Uma ambulância do INEM em serviço de urgência a uma idosa com suspeitas de estar a sofrer um enfarte foi obrigada a abandonar a rua onde se encontrava para deixar passar o carro do ministro da Justiça.

  6. V. KALIMATANOS diz:

    Bom post, diplomáticamente crítico, with a soupçon a gosto do palato do animal político a quem lhe interessa saber a Verdade, que é a coisa mais linda deste mundo, mas muito pouco apreciada. Nem parece ter saído da mesma pena do homem que aqui há dois dias estava preparado para dar três anos a pão e laranja a quem ousasse citar o defunto Salazar em público.

  7. a anarca diz:

    Muitos parabéns 😉 excelente post Renato .
    Vejo um futuro risonho (o impossivel acontece)

  8. a anarca diz:

    “…Ou a destruição dos estados, e vida nova que começa outra vez nos milhares dos centros no princípio da iniciativa vívida do indivíduo e dos grupos e daquela do acordo livre. A escolha encontra-se com você!” – kropotkin

    • m diz:

      que lindo! não posso com o estado nação , só serve a quem “o governa”. e quanto mais complexa é a vida , “quanto mais há para comprar ” :)) , mais lhes serve , aos cromos que se atrevem a determinar as nossas vidas , mais coisas há onde podem sacar e nós não conseguimos controlar. e não percebo como acham que é impossível de desmantelar essa coisa que nasceu da vontade de domínio e poder de uns tarados chamados de reis , emperadores e mais não sei quê.

  9. LAM diz:

    É por aí, Renato, é por aí.

  10. o da boa-fé diz:

    Sr. Teixeira, a falta de direcção das multidões “revolucionárias” é, infelizmente para o seu post, (um)a grande constante da história. E talvez a mais bela.

    • Renato Teixeira diz:

      As multidões revolucionárias só mudaram a vida quando navegou com rumo e raramente foi muito bela, no sentido estético da coisa. O resto é narrativa contemplativa.

  11. a anarca diz:

    Bem tentei minar a cabeça do Renato a votar no Chico Lopes nas últimas eleições.
    Por mim
    o PS e PSD deviam ser suspensos das suas funções e irem para campos de reeducação social 🙂
    o CDS não existe
    posso viver precáriamente
    mas
    não consigo viver sem coca-cola

  12. francisco caetano diz:

    foi a argélia,a tunísia, o barein,a líbia, o egipto,a seguir marrocos?, os eua muito preocupados com a democracia, israel a esfregar as mãos de contente apesar dos barcos iranianos e os tolos úteis muito preocupados com a democracia a mesma dos eua pois então! a esquerda europeia e em particular a esquerda não folclórica portuguesa ri de quê?está excitada com o quê?anseia para estes países a MESMA democracia comoanossa?ou será uma democracia popular?acreditam nisso?não será mais do mesmo ou seja: o eua a baralharem para darem de novo?ri de quê a esquerda portuguesa?

  13. Pingback: A massa… no Oriente Médio « Fala Ferreira

Os comentários estão fechados.