Daniel Oliveira, o cínico da esquerda democrática

Ainda ninguém descobriu com grande clareza o que vão dar as revoluções em curso no Norte de África e no Médio Oriente. Apesar disso, o cínico da esquerda democrática avassala e garante “estarmos perante revoltas laicas”. Quando já todos perceberam que o que se passa no Bahrein e na Líbia tem mais diferenças que paralelos, e o mesmo vale para o que se passa em Marrocos ou no Iémen, eis que o defensor do Plano Marshall nos tranquiliza: “A ideia de que a democracia e a liberdade não podem vingar fora da Europa e dos EUA tem barbas.” Mas qual democracia? Aquelas que garantiram que dezenas de ditaduras militares e civis perdurassem durante décadas na América Latina, em África, na Ásia ou no Médio Oriente? Aquelas que negociavam os planos do FMI e do BM para o Egipto? Aquelas que estão a transformar novamente a Europa na masmorra da xenofobia agora na versão islamofóbica? Aquelas que depois de cem anos a fazer a guerra por todo o lado onde os seus interesses eram postos em causa ainda reincidiu no Iraque, no Afeganistão e não há meios de tirar as patas da Palestina? Estamos de acordo quanto à hipocrisia dos que até ontem garantiam a soberba dos tiranos a troco de negócios milionários, Sócrates e Amado inclusivé, entre outros alegristas mais discretos. Agora que essa conclusão não sirva para cair na arrogância de se garantir saber o que quer o povo árabe antes de este se expressar sem ser com o peito exposto às balas e sem a assumpção de que democracia à maneira é com base na nosso Estado de Direito Democrático, ou nos sonhos mais molhados de uma eventual República Laica e Socialista. É que se a democracia é isto que temos bem podemos pôr os olhos na revolução árabe e encontrar rapidamente uma praça Tahrir que nos liberte dos grilhões da ditadura e envie os nossos Khadafis, Hosnis e Alis que se alternam no turno do regime para bem longe de São Bento, de Belém ou mesmo do Cabo da Roca.

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3 respostas a Daniel Oliveira, o cínico da esquerda democrática

  1. Caro Renato:

    As revoluções que ocorrem no mundo árabe, são de cariz popular, fartos de andar nas mãos de extremistas religiosos, ditadores ou políticos “marioneta”, exigem uma sociedade que lhes garanta qualidade de vida e não uma democracia ocidental, ou liberdades manhosas, disfarçadas com subterfúgios legislativos “à la ocidente”…
    Nós, ditos ocidentais civilizados, não estamos menos agrilhoados do que o mundo árabe… Agrilhoados a impostos, bancos, taxas, multas, desemprego, precariedade, austeridade, fmi, crise, partidos, etc…
    Onde tudo é regulamentado por decreto, mas só aplicável ao comum cidadão…
    Existe uma bolsa cancerígena de gente que levita acima de justiça, crises, austeridades e outras regulamentações mais, esquecendo-se de que o País é dos Portugueses e o interesse público está longe de ser a realidade que vemos.
    Facilmente alastrará a revolta do mundo árabe ao outro lado do Mediterrâneo, os sistemas políticos e os protagonistas postos em causa, por não estarem a fazer o que é suposto um governo fazer…zelar pelos melhores interesses de um povo e de um País!!!
    A Revolta está aí… mesmo ao virar da esquina!

    • Renato Teixeira diz:

      Andemos então para a esquina que é o que se anda a fazer há muito tempo no Norte de África e no Médio Oriente. Afinal, as medievais mulheres de véu e os bárbaros homens do obscurantismo árabe estão a dar grandes lições de história ao mundo. Esperemos, claro, que a emancipação seja laica e socialista e já agora operária, mas não querer ver que hoje por hoje não é nada disso que se passa não nos ajuda a ir além da espuma do sound-byte. Por outras palavras, acho que Washington está bastante mais nervoso do que quem está no terreno há demasiadas décadas a ver o ocidente fazer xadrez com os seus tiranos. As correntes islâmicas no eixo Beirute-Bahrein, mas também Tunísia e Egipto estão profundamente prestigiadas mesmo que saibamos que foram as primeiras a querer negociar uma solução de consenso.

  2. Alexandre Carvalho da Silveira diz:

    Afinal as utupias há tanto perseguidas, vão finalmente tornar-se realidade. Aonde? No Norte de Africa, às portas do deserto do Sahara. Aquelas milhões de mulheres que só podem fazer o que os homens querem, e ainda por cima têm de andar de cara tapada, e aqueles milhões de homens, que interrompem o que estão a fazer, ou a não fazer 5 vezes por dia para se porem de cu pró ar a rezar, são essas pessoas que vão dar corpo à grande revolução, que até ao momento como sabemos, falhou em todo o lado: desde a União Sovietica a Cuba, do Vietname à Juguslavia, e mesmo na China onde metade da população já aderiu ao capitalismo.
    Afinal os amanhãs que cantam, existem mesmo, e estão aqui mesmo ao lado. Muito mais perto de nós do que Paris!
    Os regimes que vão sobrar destas revoluções podem ser laicos e socialistas, embora eu duvide, mas tenho a certeza que não serão operarios. Não há classe operaria naquelas paragens.

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