Afinal, por que lutamos?


Para dia 12 de Março foram marcadas duas manifestações. O Tiago Mota Saraiva e o Youri Paiva já expressaram as preocupações que têm em relação a estas duas iniciativas. A primeira, 1 milhão na Avenida da Liberdade pela demissão de toda a classe política tem, como já aqui se disse, alguns contornos sinistros e, pelo próprio lema, não tem outro objectivo que o de disparar contra tudo o que cheire a partidos. Contudo, isto não é uma novidade. Há alguns anos que se tem lançado uma campanha, geralmente por gente que sai de partidos do sistema, para descredibilizar a acção política e a actividade partidária. É uma campanha perigosa e que serve, na minha opinião, os interesses da direita. Importa que estejamos adormecidos, revoltados contra não se sabe bem o quê (uma vez que são todos iguais) e não encontremos responsáveis pela actual situação política e económica.

Em concreto, não estou contra a mobilização do povo português contra o actual estado de coisas. Sobram motivos para combater nas ruas, mas contra os verdadeiros responsáveis. É isso que também não faz o protesto “Geração à Rasca”. E é também por isso que os meios de comunicação social estão a dar o destaque que nunca deram às acções da CGTP. Importa antes mobilizar para uma manifestação cujo manifesto afirma que “nós, que até agora compactuámos com esta condição, estamos aqui, hoje, para dar o nosso contributo no sentido de desencadear uma mudança qualitativa do país” e que “protestamos para que todos os responsáveis pela nossa actual situação de incerteza – políticos, empregadores e nós mesmos – actuem em conjunto para uma alteração rápida desta realidade, que se tornou insustentável”.

Com todo o respeito por quem vai participar em ambas as acções, e esperemos que também na de dia 19 de Março, da CGTP, eu não só nunca pactuei com o actual estado de coisas como não me considero responsável e não tolero que me metam no mesmo saco que o Belmiro de Azevedo, que o Ricardo Salgado, que o José Sócrates, Passos Coelho e Cavaco Silva. Num dos textos, um dos promotores da iniciativa revela que “não é um protesto contra o governo, nem contra os políticos e muito menos contra as outras gerações”. É já um importante passo que haja uma predisposição para a luta por parte de quem até agora não lutou. O passo seguinte só pode ser o de compreender quem são os seus inimigos. Porque se não há responsáveis, ou se todos somos responsáveis, afinal por que lutamos?

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14 respostas a Afinal, por que lutamos?

  1. Tiago Mota Saraiva diz:

    Bruno, importa mobilizar.

  2. Pisca diz:

    Depois do “taxista”, doutourado que é cada vez mais o contabilista Carreira, ter feito a descoberta do século, com grafico e tudo

    “Portugal quando não teve partidos, teve sempre as contas publicas equilibradas (leia-se o tempo do fascismo, e nem todo)”

    Ou seja em termos simples, se tiver mulher 2 filhos ainda me idade escolar, e ganhar 400 euros por mês, quando pagarem, posso sempre equilibrar o meu orçamento, a ver:

    – Morar na rua
    – Escola para os putos não há
    – Agua/electricidade/tv cabo/telefone e isso tudo nem pensar
    – Comida é à carta (um baralho em cima da mesa e uma carta a cada um, quem tirar o ás de ouros come, se sair 2 vezes ao mesmo muda a banca)
    – Transportes a pé
    – Roupa o que houver por aí nos restos
    – Medicamentos para quê ??

    e o orçamento está equilibrado, ainda posso fazer poupanças

    Satisfeito Sr. Carreira ?

    ps. desculpem-se os taxistas

  3. Lenine escreve, salvo erro em o Que fazer, que quando o proletariado está maduro se devem cortar as relações como movimentos que, sendo democráticos, não são revolucionários. O contrário será verdade? Quando o movimento ainda é pouco consistente não se devem formar alianças como movimentos que, não sendo revolucionários, são democráticos? Aí o protesto contra a classe política está nas antípodas do protesto da geração à rasca. O primeiro não é nada democrático e o segundo já se demarcou dele.
    Depois, como Marx, tenhamos alguma esperança nos movimentos de massas orientados por uma consciência teórica fraca. É o fracasso dessas iniciativas que obriga as pessoas a pensar e aguçar a consciência.
    É um facto que são movimentos que andam a uma boleia da comunicação social que a CGTP não tem. A pergunta é se são eles que devem pagar por isso.

  4. AA diz:

    Muito bom o seu blog, José Ferreira

  5. O “manifesto do milhão” é pouco mais do que aquilo que pode ser lido todos os dias nas intervenções mais raivosas das caixas de comentários dos jornais diários, não raras vezes acabando no saudosismo da ordem e de pretensa moral da ditadura Salazarista. Se lermos o documento podemos encontrar de tudo, da exigência da criminalização do enriquecimento ilícito às tiradas vulgares anti-políticos que se podem ouvir num banco de trás de qualquer táxi.
    Em minha opinião, se este “movimento” reflecte o desespero de alguns sectores mais frágeis que estão a ser vítimas do apodrecimento da situação política e económica (reformados, algum funcionalismo, etc), também incluiu o que chamarei uma componente pequeno-burguesa que vive horrorizada a queda vertiginosa na proletarização. Não é nada de novo. O problema é que já vimos na História aonde acabaram muitos protestos populistas e anti-políticos: no discurso racista e xenófobo e, em último grau, servindo de terreno fértil aos fascismos. Por isso, não há que ignorar e deixar esta revolta à mercê de ser apropriada por rapaziada de pendor mais… “nacionalista”. Há que estar lá, convidando-os para a manifestação da CGTP: “Tu sozinho não és nada…” Lembram-se?

    A “Geração à Rasca” é diferente na sua natureza e propósito. Começa por ser um movimento como muitos que aproveitam o paradigma tecnológico-comunicacional dos nossos tempos: as pessoas mobilizam-se sem pedir autorização aos partidos e aos sindicatos instituídos. Quem reparou no que se passa no mundo nos últimos tempos não ficará admirado com a forma como foi convocado o protesto… O sujeito das preocupações desta tentativa de mobilização é concreto e constitui um desafio à Esquerda que não pode ser ignorado de forma sectária a partir da leitura sobre a pureza ideológica do discurso que lhe serve de ignição. O que é importante, nestes tempos de águas paradas é o movimento. O facto de terem contactado com outros precários já com história de participação nos movimentos dos restantes trabalhadores – lembremos a forma como os “Precários Inflexíveis” pretenderam mobilizar para a greve Geral – é um factor positivo. Tal como é positivo não se terem pendurado nos argumentos miseráveis de alguma Direita blogueira que afirma que são os pais que retiram os empregos aos filhos.
    Repito: a melhor forma de encarar estes movimentos não é através da sobranceria ideológica, é estando com eles e fazendo com eles a experiência da luta, semeando Solidariedade onde germina o salve-se quem puder; muito menos puxando dos galões por uma central sindical (que é a minha também) que viu demasiado tarde o que estava a ocorrer nas empresas desde que os primeiros contratos a prazo foram assinados depois da célebre lei de Mário Soares.

    Ainda não se tinha generalizado o precariado, estive cerca de três anos a contratos a prazo de três meses (um “luxo” nos dias de hoje…) numa metalúrgica. Recordo que o meu sindicato só se lembrava da existência dos 300 contratados a prazo, num universo de 900 trabalhadores, quando convocava uma greve por salários na empresa.
    Anos mais tarde, numa reunião sindical com jovens sindicalizados do sector eléctrico, alguns jovens defendem que se devia criar condições para se poder descontar para o sindicato por transferência bancária, sem que o patrão soubesse. Que não, que se devia exigir que o desconto fosse de acordo com a lei, respondiam quase indignados os dirigentes/funcionários da união sindical local – daqueles que há anos que não iam a empresas a não ser aquelas que os deixavam fazer plenários. Uma espécie de imolação sindical de jovens que se aproximaram do sindicato não por opção política mas pelo sentimento básico de que eram alvo de injustiça.
    Os erros pagam-se, estamos a pagá-los, mas o pior é não corrigir o raciocínio que nos levou até eles. Convém dizer que hoje a posição inflexível quanto aos descontos foi revista. Temo que mais por causa da debilidade financeira dos sindicatos que pela inteligência de trabalhar de acordo com os níveis de consciência dos trabalhadores.

  6. Como eu já testemunhei, já cá andamos há muito tempo, e inventámos a esquerda e a contestação muito antes de vcs. saírem do útero das vossas mãezinhas…

    http://www.youtube.com/watch?v=GI7-m919ynU&feature=related

    e

    http://img81.imageshack.us/img81/9033/redsbd7kg1.jpg

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  9. Miguel Botelho diz:

    Manifesto de taxista doutorado ou de agente da CIA, mal traduzido para português?

    Qual a intenção desta manifestação ou dos que a escreveram? Desordem e caos, para depois vir outro sistema político, pró-americano e sem partidos?

    Cuidado com esta provocação.

    Prefiro a manifestação de 19 de Março.

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