“A-t-on des nouvelles de Monsieur de La Pérouse?”

Só mais este, e prometo que a seguir deixo o La Pérouse em paz lá no fundo do mar onde ele repousa, porque já excedi a quota de posts mensal e o Nuno ainda se lembra de pedir controlo anti-doping. Googlando, cheguei a dois artigos (aqui em inglês, ali em francês, cada um com os seus encantos) sobre uma expedição para esclarecer o mistério do desaparecimento do almirante francês, duzentos anos depois do naufrágio da Bússola e do Astrolábio, os navios comandados pelo navegador. Na tripulação seguia um linguista, Alexandre François (que aliás tem o blogue onde encontrei os tais artigos). Entre outras coisas, descobriu que os indígenas de Vanikoro chamam a uma espécie local de feijão “cassoulet”, indício de que a tripulação francesa passou por lá. Achei graça à ideia da linguística ao serviço da arqueologia, e mais ainda tratando-se do mesmo La Pérouse da conversa entre Swann e o general, o mesmo que eu queria converter em verbo, com muita propriedade. Proponho a seguinte definição: pérouser (verbo intransitivo): discursar sobre a pessoa amada substituindo o seu nome por qualquer referência a ela associada, desconhecida do interlocutor.

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4 respostas a “A-t-on des nouvelles de Monsieur de La Pérouse?”

  1. Engraçado M. de V., os ingleses usam «to peruse» (que vem óbviamente do francês, junto com mais um milhar ou mais de palavras na língua anglo) num sentido completamente diferente, tipo esgravatar/ler qualquer coisa a ver se se encontra o que se está à procura…
    🙂

  2. Pedro Penilo diz:

    Morgada, este artigo tem um tom “sério”, diria quase académico. Não é motivo para alarme, pois não?!

  3. miguel serras pereira diz:

    Soberba leitura, Morgada de V. , da exigência maior com que a Recherche nos confronta: a de a aplicarmos – tornando-a leitura, criação e crítica da vida quotidiana por si própria – por nossa conta e risco, como “atenta invenção do que foi dado”, se me posso servir a este propósito das palavras de Sophia.
    “Eu vinha para a vida e dão-me dias”, escrevia outro poeta que há semanas a Morgada citava noutro post. Mas a Recherche existe e a sua existência é como a da Sonata de Vinteuil, intuição e busca (recherche) de um “universo das diferenças: “Peut-être est-ce le néant qui est le vrai et tout notre rêve est-il inexistant, mais alors nous sentons qu’il faudra que ces phrases musicales, ces notions qui existent par rapport à lui, ne soient rien non plus. Nous périrons mais nous avons pour otages ces captives divines qui suivront notre chance. Et la mort avec elles a quelque chose de moins amer, de moins inglorieux, peut-être de moins probable”.

    Merci et chapeau bas, Morgada.

    msp

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