À chacun sa madeleine

Depois do vivo entusiasmo que o meu post sobre La Pérouse suscitou (obrigada, Sérgio C, sejas tu quem fores) e de o Ouriquense também ter citado Barthes, em francês e tudo, decidi voltar à carga. O meu objectivo é dar a Proust o que é de Proust, porque apesar de o referir profusamente nessa obra de referência sobre a fenomenologia amorosa que é o Fragments d’un discours amoureux, Barthes, no capítulo que dedica a esta cena das alocuções secretas (“L’entretien”, pág. 87 na minha edição), não refere o diálogo que para mim é o mais eloquente testemunho literário desse comportamento observável na vasta percentagem da humanidade que conheço. Mas talvez seja melhor assim, e o episódio não sofra o mesmo destino da madeleine, por quem os leitores passam com a voracidade coleccionista dos japoneses, já tanta gente o conhece que perdeu a frescura e o poder evocativo, é parte da cultura popular, e está por isso condenado a ser citado por dá cá aquele Proust. La Pérouse, não: quem quer que desembarque na cena continua hoje a poder apreciar o diálogo entre Swann e o general como descoberta inteiramente nova, inteiramente sua, e rir-se com a réplica do “Il a sa rue”, como eu quando tinha 19 anos e a li pela primeira vez em Porto Santo, à sombra das falsas palmeiras que faziam de guarda-sol, sem saber que o Swann era eu, era a J., éramos todos nós, porque na comédia do amor só mudam os actores.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

5 respostas a À chacun sa madeleine

  1. António Figueira diz:

    À chacun son Rosebud! (speechless)

  2. Ana diz:

    Sendo eu fa incondicional do Fisk e nao querendo que perca por distraccao do seu colega que ele vai escrevendo, aqui lhe deixo o link para o seu artigo mais recente:
    http://www.independent.co.uk/news/world/middle-east/robert-fisk-in-manama-bahrain-ndash-an–uprising-on-the-verge-of-revolution-2220639.html

  3. Pedro Penilo diz:

    Estou a ler ao contrário. É mesmo um caso perdido… Morgada, está a dar-nos trabalho! Sabe as consequências que isto tem na minha já debilitada economia.

Os comentários estão fechados.