Pérouser, verbo intransitivo

Os almoços de domingo ocorrem porque quem convida e quem é convidado não tem a noção do que ali vem, um bocado como aquelas pessoas que prometem a alma ao diabo e depois ficam muito admiradas quando ele lhes bate à porta. Eu protestei vivamente quando cheguei à minha própria casa às 11 da manhã, com três horas para cozinhar para seis pessoas, pôr a mesa e eliminar tant bien que mal os vestígios da noite anterior, e por isso não me surpreendeu ver a J. com cara de quem preferia continuar enterrada, quando ela me chegou mais cedo para ajudar. “Quem diabo teve esta ideia do almoço de domingo?!”, pergunto eu a ver se a faço rir; mas a ressaca não perdoa, e não há meio de a fazer sair do monossilabismo que me estraga a mesa. Subitamente anima-se. “Estudaste na Alemanha? Não sabia que tinhas estudado lá!”. O C., que até aí debitara as histórias que todos lhe conhecemos com a mesma displicência com que a J. muda lascas de bacalhau de sítio, anima-se também. “Sim! O ambiente era porreiro, muito internacional, havia imensos espanhóis”. “Sim!, sim!, há muitos espanhóis na Alemanha, e muita gente que fala espanhol, não é curioso?”.

Curiosíssimo: a J. passa de morta-viva a alegria da festa sem guronsar nem tocar no vinho (e muito menos no bacalhau), e eu sei porquê. A minha amiga anda embrulhada com um alemanito vagamente revolucionário, e o gajo, entre outras prendas, fala um castelhano castiço que aprendeu em Cuba. É quanto baste para que o assunto da diáspora espanhola lhe interesse, por metonímia, embora forçada. “Ouve lá, não penses que não te topei hoje, a ‘pérouser’ descaradamente”, dir-lhe-ei depois. “A quê?”.

Esta juventude não lê, ou saberia que La Pérouse é simultaneamente o nome de um navegador francês naufragado em Vanikoro (Júlio Verne conta a história nas Vinte Mil Léguas Submarinas) e a rua onde vive a Odette de Swann, a mesma que ele pronuncia gulosamente durante uma soirée chez Madame de Saint-Euverte, pouco antes de ouvir  a “petite phrase” musical de Vinteuil que tanto o faz sofrer. O general de Froberville diz que preferia casar com Mme de Cambremer a ser massacrado pelos selvagens, Swann bolina para o assunto que lhe interessa:

– Ah ! lui dit-il, il y a eu de bien belles vies qui ont fini de cette façon… Ainsi vous savez… ce navigateur dont Dumont d’Urville ramena les cendres, La Pérouse…(et Swann était déjà heureux comme s’il avait parlé d’Odette). C’est un beau caractère et qui m’intéresse beaucoup que celui de La Pérouse, ajouta-t-il d’un air mélancolique.
– Ah ! parfaitement,
La Pérouse, dit le général. C’est un nom connu. Il a sa rue.
– Vous connaissez quelqu’un rue
La Pérouse ? demanda Swann d’un air agité.
– Je ne connais que Mme de Chanlivault, la sœur de ce brave Chaussepierre. Elle nous a donné une jolie soirée de comédie l’autre jour. C’est un salon qui sera un jour très élégant, vous verrez !
– Ah ! elle demeure rue
La Pérouse. C’est sympathique, c’est une jolie rue, si triste.

A rua pode ser triste mas a cena é cómica, à força da repetição: atente-se (sublinhados meus) na quantidade de vezes que Swann diz o nome do almirante francês, à l’insu do general, como quem esfrega as palavras na cara do interlocutor. Barthes dizia que a linguagem é uma pele: “je frotte mon langage contre l’autre”. E o outro, na ausência do ser amado, pode ser qualquer pessoa, um confidente que não está dentro do segredo, que não sabe, pois, que Odette vive na rue La Pérouse ou que a Alemanha castelhanófona alberga o alemão anónimo “qui est là, au bout de mes maximes”. Este recurso a “alocuções secretas”, como lhe chama Barthes, faz de tal forma parte do comportamento amoroso que é estranho que os antropólogos não o tenham ainda baptizado com um termo que identifique universalmente o fenómeno.

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2 respostas a Pérouser, verbo intransitivo

  1. Sérgio C diz:

    Delicioso de ler (e aprender).

  2. António Figueira diz:

    V. exige muito aos seus convidados.

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