Tomar as ruas para romper o silêncio

Começou a trabalhar em 1995, no 2º ano de Faculdade. Com o fim da licenciatura, estágio e com uma vida de recibos verdes pela frente, decidiu emigrar para Roma. À sua espera estava o primeiro contrato da sua vida – tinha havido inspecções de trabalho e, à época, ninguém queria arriscar. Pelo meio uma entrevista em Roterdão com outro da estratosfera – havia contrato, mas a remuneração ficava a menos de metade. Pôde dizer que não.
De regresso a Portugal, mais recibos verdes e a sensação que, no mês seguinte, o trabalho podia acabar. Para ter um contrato teve de se empregar na sua empresa.

Esta podia ser a história de muitos da minha geração. Como aqui escrevi não me sinto enquadrado na geração sem remuneração, ainda que a precariedade que calámos tenha aberto espaço a um futuro bem pior. Mas esta não é uma guerra entre gerações, como a direita pretende fazer crer.
Esta é uma luta por uma das condições fundamentais que faz do Homem um animal racional, o desejo de viver melhor. A História faz-se de avanços e de recuos e depende sempre dos actores de cada tempo. Agora toca-nos a nós, de todas as idades, não deixarmos que vinguem os recuos.
Certamente que a descrição de uma manifestação “apartidária, laica e pacífica“, não será o que mais me entusiasma. Tal como o Ary penso que é cada vez mais necessário que se tome partido, não me chateia nada que todas as religiões se manifestem e estou farto de responder pacificamente à violência dos mercados, dos bancos e dos governos. Mas chegou a hora de tomar as ruas e romper o silêncio.
Até porque, como escreve o Bruno Dias, este mundo não tem que ser parvo.

P.S.: Já agora acrescento a minha profunda preocupação para com eventos deste tipo, de raiz populista e anti-democrática. Este acontecimento virtual intitulado “1 milhão na Avenida da Liberdade pela demissão de toda a classe política” foi muito potenciado pela imprensa tradicional, destacando-o como se tratasse de um enorme movimento de cidadãos indignados que ameaça o poder – ainda que apenas resulte da mera adição passional de umas quantas contas de facebook. A política de censura continuada das discussões e a alegada preponderância de grupos de extrema-direita na sua administração são um sinal que nos deve deixar muito atentos.

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27 respostas a Tomar as ruas para romper o silêncio

  1. Totalmente de acordo. Este protesto, parece diferente, como escrevi no meu blogue: “Através do Facebook cheguei ao anúncio deste protesto, que, como se comprova pelo texto abaixo, parece muito diferente do habitual neste tipo de movimentações internéticas, o “são todos iguais, andam todos a roubar o zé-povinho” – pelo contrário, a uma análise bastante lúcida da situação parece corresponder um programa reivindicativo certeiro”

  2. ana diz:

    Estou mais descansada! Afinal, não sou a única … muito preocupada com os gravíssimos indícios que detectei de imediato …

  3. Augusto diz:

    Mas afinal o Tiago apoia ou é contra esta manifestação da Geração á Rasca.

    Será que denoto nas suas palavras um sinal de sectarismo, porque a manifestação não é enquadrada pelo seu partido….

    Tambem não entendi onde foi buscar a ideia, da manifestação do dia 12 de Março, ser uma emanação de movimentos de extrema-direita.

    Se tem dados concretos que justifiquem a sua denúncia , faria um grande favor até aos organizadores da Manifestação, que os divulgasse.

    • Tiago Mota Saraiva diz:

      Augusto, mais uma vez noto a sua sagacidade controleira.
      Sobre a manifestação da geração à rasca, releia o que escrevi. Quanto ao outro acontecimento facebookiano sugiro-lhe que esteja mais atento a algumas denúncias já colocadas no respectivo mural e, entretanto, eliminadas. Um acontecimento exactamente com o mesmo nome, foi muito discutido em fóruns nazis e as propostas que fazem andam entre o ridículo e o populismo de extrema direita.

  4. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Augusto,
    O Tiago pode ter ido buscar a informação à entrevista em directo do membro da comissão política do BE, João Semedo, ao Esquerda.net. Ele disse textualmente que era uma manif organizada por reaccionários, extremistas de direita e neofascistas. Pelos vistos, essa confusão não é só do Tiago Mota Saraiva.

  5. tric diz:

    os comunistas são cristãos?

    • Tiago Mota Saraiva diz:

      Não faço ideia. Luto para que todos sejam do Benfica, o resto não sei.

      • João Pimenta diz:

        Eu sou comunista e sportinguista com muito orgulho Tiago, e à rasca estamos todos, não são só os dos recibos verdes, também são os que não vêm aumentos nos vendimentos há 3 ou 4 anos, e os que agora veêm o patrão a inventar mais uma taxa para lhe baixar o rendimento.

        • Tiago Mota Saraiva diz:

          João essa do Sportinguista parece-me indesculpável. Quanto ao resto estamos de acordo. Lá nos encontraremos numa rua das, ainda, nossas cidades.

      • Joana Manuel diz:

        Jaajajaja!!! somos dois, Tiago. 🙂

        [mas é curioso que hoje quando estávamos a conversar, já não me lembro porquê, veio-me à cabeça uma frase do Mário Castrim, “um comunista é um cristão para uso quotidiano. 😉 ]

        belo post. 🙂

  6. Youri Paiva diz:

    Diz lá, nessa manifestação pela demissão de todos os políticos esta coisa: ‹‹Apenas queremos uma renovação inequívoca na gestão de Portugal, pela transparência, honestidade e competência.››
    Renovação da gestão é daquelas coisas que cheiram mal.

  7. Pingback: Mas se um dia os fascistas no poder se transformarem em balas perdidas na multidão, nós sairemos prá RUA! | cinco dias

  8. Luis Ferreira diz:

    Concordo mas deixo uma ressalva. Apartidário não significa não tomar partido. Não confundir partidos políticos com assumir posições e lutar por elas.

  9. Marota diz:

    Eu não pertenço à geração à rasca, nem à rasca e tampouco à desencascada, pirei-me daí para não fazer parte de nenhuma delas. Fui uma comodista cobarde. Se estivesse em Portugal também participava nesta manif e faria-o só por ser apartidária, laica e pacífica. Fartei-me de partidos que nada e a ninguém ajudam, a não ser aumentarem o número de funcionários que só alarvam e nada fazem. Eu sou aquela que frequentemente aparece no espaço facebook desta iniciativa a angariar assinaturas para uma petição. Já agora aproveito também para a divulgar aqui mais uma vez. Tem andado penra, poucos assinam. Leia, e se partilhar a mesma convicção assine!

    http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=ARTIGO47

    D I V U G U E – A por favor!!!!

  10. Daniel Nicola diz:

    ninguém mudará porra nenhuma através de um simples “gosto”. desengane-se quem pensa em revoluções sentado confortável no sofá ou diante do pc. manifestações espontâneas em Portugal???? quando? talvez apenas quando as pessoas chegarem ao hospital e lhe pedirem o cartão do seguro. e mesmo aí…
    de resto, o apelo não faz sentido nenhum como já foi por aí e bem referido. “outros valores”? quais? “outros políticos”? quem? aliás, por norma este tipo de discurso anti-política (excluindo anarquistas) vem logo de quem nunca fez nada de nada para mudar o que quer que seja.
    adiante.

    • José Lima diz:

      As palavras do “Nicola” sempre foram muito sábias 🙂 Subscrevo este pacotinho. Mas há outros que tb servem: “Muita parra e pouca uva.”, “Cão que ladra não morde.” …

  11. Raul diz:

    Já várias vezes referi que não vou muito nessa história das gerações. Já passei por muitos enrascanços e desenrascanços. Somos é filhos da geração do estado providência migrados directamente migrados para o capitalismo selvagem. há os jovens de 25 anos que se queixam muito dos empregos precários, há os nem nem e os que se esquecem de todos aqueles que ao trinta e cinco ou aos quarenta se vêm no pau da roupa e têm que iniciar uma nova vida. Para a maior parte deles abrir um negócio. Cada vez que vejo um tipo a dormir ao relento ali para as bandas da Almirante Reis, não posso deixar de pensar que esse senhor, em dias passados, já teve uma vida normal. Que, et in illo tempore, os empregados de escritório viviam em quartos alugados em pensões rascas da Morais Soares. Que a minha mãe era licenciada pela faculdade de letras e teve que começar a sua vida profissional como tradutora na Sorefame, num ambiente de fugir… Eu próprio, no secundário, já trabalhava nas férias para o Pocket Money.

    Houve tempos em que entrou muito dinheiro neste país e foi mal gasto. Mas as pessoas criaram hábitos de consumo que agora não comportam.

    E isto, não é a defesa do “status quo”. De facto, muita coisa tem que mudar. Mas mudar as mentalidades, já não era mau.

    As pessoas delegam tudo nos políticos, queixam-se e não votam, e existe hoje em dia muito menino dessa geração à rasca que sai da faculdade, têm alguns (note-se, alguns) uma excelente preparação cientifica mas da vida nãoi sabem nada. Coisas que até a rapariga que é caixa no Mini Preço, ganha 600€ por mês e ainda tem filhos para sustentar está farta de saber.

    Isto não é fazer pura demagogia. Mas porque é que as pessoas em vez de meramente protestar (também é preciso) não ajem?

  12. Raul diz:

    É é claro, eu sou menino, oriundo de uma certa média burguesia. Mas esses meninos que que se queixam tanto, também são bergueses, à rasca porque estão a perder o estatuto. Porque os outros amoucham e ficam com que lhes aparece. Acho que é preciso pensar em justiça e direitos (também deveres), mas para todos.

  13. Raul diz:

    E há aquela coisa dos Deolinda, que reza mais ou menos assim: que parva eu ter que estudar para ser escrava: As pessoas não percenbem que poder estudar é um previlégio que se merece. Que neste pais, infelizmente, nem toda a gente que merece pode estudar.

    Se depois aceitam ser escravos, então é porque são mesmo parvos.

  14. Raul diz:

    Por exemplo: porque é que não estouram com as ordens de uma vez por todas? até o Mariano Gago pôs os pontos nos “is”.

  15. Raul diz:

    Já agora, este relambório, faz-me lembrar o verso do O’neill:

    Ó doutor, se és, diz que que és, porque senão fazem de ti cão do pé para a mão.

    e eu não sou doutor, estou-me borrifando em doutorices.

  16. Raul diz:

    Já agora, acrescento o seguinte.: Sou profissional independente e gosto de sê-lo. Não me apetece trocar a minha vida por uma “linha de montagem”, já passei por muitas, fez sentido enquanto isso representava uma aprendisagem. Porque, concedo, nem tudo se aprende nas escolas. Nem em lado nenhum, somos nós que sabemos aprender ou não. Não me interessava ser funcicionário público, quando, hoje em dia passa tudo pelas empresas de capitais públicos (as parque Expos, a Parque escolar). Se me espetassem numa câmara a ver se cabiam as cadeiras de rodas, se as casas de banho estavam no sítio e eram suficientes, etc, acho que me tornava alcoolico crónico.

    O preço a pagar é que sou pobre, só tenho obras pequenas, mas vai-se andando aos poucos. Compreendo ewssa luta pelo emprego, pela estabilidade, etc, mas também acho que hoje em dia, uma grande parte das pessoas, procuram os cursos superiores (e há-os aos montes, para todos os gostos e feitios) não por uma verdadeira aspiração a fazer, mas por um real desejo de ser o sal da terrra – não ficar “fodido” como os outros.

    Depois, espantam-se….

  17. Raul diz:

    No entanto, quando passo em frente de uma escola de Arquitectura e vejo aqueles miúdos carregados de maquetes e desenhos, algumas maquetes são mesmo más, oputras nem por isso, tenho uma espécie de tremor: pelo seu futuro. Será que eles sabem, que foram enganados? – o futuro dirá. Contráriamente ao que eu possa parecer até sou uma pessoa solidária e compassiva com os outros. Afinal de contas eu não sou o sal da terrra mas lá vou fazendo e aprendendo….

  18. Pingback: Afinal, por que lutamos? | cinco dias

  19. Luís Fraga diz:

    O cinismo da burguesia… e de alguma pequena ou média burguesia também.

  20. Raul diz:

    Já agora que falamos de burguesias e pequenas burguesias também, porque não cria uma sociedade verdadeiramente sem classes – É que a minha progressiva politização, o que me tem levado é a ser anarquista.

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