O Feio, o feio, o feio é belo – é inteligência e maturidade

Lê-se em cima que a Faculdade de Belas-Artes e a Faculdade de Letras vão organizar um muito curioso Seminário Internacional de Estética e Teorias da Arte, nos dias 17 e 18 de Março, com comunicações provavelmente entusiasmantes entre um local e outro. O cartaz é esclarecedor. Deixo-vos com a apresentação do projecto e, depois, o resumo da minha comunicação:

Este colóquio visa reflectir sobre o feio, desvinculando-o da tradicional oposição ao belo, e sobre as circunstâncias através das quais as formas de transgressão do cânone artístico se emanciparam como formas artísticas em si, para lá da transgressão e do tipo de percepção estética que procuram suscitar.

Oferecendo-nos o seu rosto para a reflexão sobre o possível, como o céu azul sobre o horizonte, o feio na sociedade dos simulacros tornou-se mais credível do que o belo, uma vez que este último pactua, desde o início da propaganda e da difusão dos média, com o imoral. A fealdade de Sócrates é, em si, emblemática do movimento do ser que se ultrapassa a si mesmo através da dialéctica. Assim como o prazer positivo não é igual à ausência de dor ou ao sofrimento, também o desprazer, ou o prazer negativo não é, em si, igual à ausência de prazer. Existe quase uma impossibilidade de pensar o prazer negativo autonomamente, bem como o feio que se lhe associa. A teoria kantiana parece abrir-se à possibilidade do julgamento estético do feio enquanto juízo reflexivo, no entanto, o feio não é abordado em si, subsumindo-se ao desprazer e ao informe (Ungeformt) no contexto do sublime.
Segundo Duchamp, um dos requisitos para um objecto funcionar como ready-made seria a sua indiferença estética, porém, na realidade, a estratégia duchampiana possibilitou que objectos anteriormente não considerados estéticos pudessem ser apreciados de acordo com essa categorização. Assistiremos, desde então, ao assumido alargamento do campo estético a um domínio mais vasto que inclui o que tradicionalmente seria catalogado como inestético, ou ao espraiar da arte até ao domínio do inestético? Um olhar que não vise a percepção de alguma harmonia, interior ou exterior à obra, será ainda uma percepção estética? Como explicar a existência, no âmbito artístico, de elementos que minam a percepção estética tradicionalmente ligada ao prazer? Haverá formas de percepção estética para além do prazer? Será o prazer negativo algo em si? Como pensar, neste contexto, o sensível sem recorrer a universais?
Procuraremos, através do diálogo, criar um debate entre vários campos do mundo da arte, como a filosofia da arte, a curadoria e a produção artística, de forma a reflectir sobre alguns dos paradigmas que subjazem à arte e à teorização estética contemporâneas.

Na minha intervenção procurarei mostrar que o feio, como realidade e categoria estética é aquilo que está mais próximo de nós, aliás é aquilo que está SEMPRE mais próximo de nós (sendo disso e por isso mesmo que a arte se pretende dissociar): é a categoria estética (ou algo que deverá ser transformado em categoria estética) chamada Real. Desse modo, oscilarei na minha intervenção entre os séculos XVII (o século de Caravaggio) o século XIX (o século do realismo, das revoluções e de Courbet) e o século XX (o século do real esteticizado de Jeff Wall). Resumindo (a minha comunicação de 17 de Março, às 11.45):

«Jacob Burckhardt (1818-1897), Gustave Courbet (1819-1877) e Baudelaire (1821-1867) foram contemporâneos.

Aquilo que os fez, por vezes, cruzarem-se ou desencontrarem-se é um dos temas da intervenção, que pretende demonstrar como o edifício que chamamos arte e/ou estética tem no “real” ou no “realismo” aquilo por que mais sente horrores – aquilo que desvaloriza, secundariza, interdita mesmo. Daí o título da minha comunicação: “O terrível real ou o horror da arte”.

No Der Cicerone, Burckhardt disse o inimaginável sobre Caravaggio, e as suas palavras mais moderadas foram os classificativos de que o lombardo era “vulgar”, porque seguia o modelo e o natural, palavras que – porque tal terá sucedido com um homem da envergadura de Burckhardt? – imitam contemporâneos de Caravaggio como Baglione, Mancini ou o posterior Bellori. Também o contemporâneo do suíço, o francês Baudelaire chamava “fanático” a Courbet. Criticava acesamente Ingres por se vergar a Rafael, e de Courbet dizia o poeta que era um pintor positivista, dependente da natureza. O mau estar do naturalismo de Courbet, que triunfava, muito agastava Burckhardt, e por tudo isso pagou Caravaggio, que para o autor de A Civilização do Renascimento em Itália fora o primeiro culpado de tudo. De tudo, entenda-se, do “realismo” (que, contudo, não assenta na perfeição em Caravaggio – mas esse é outro tema). Até recentemente, na obra vídeo de Pipilotti Rist, o corpo e os seus elementos, os fluidos da vida e da morte (também como nos banquetes de vampiros de Jeff Wall), são sempre esteticizados. Porquê o medo do realismo e do real?»

Eis o programa completo, conferencistas e horários: http://ofeio.jimdo.com/programa/

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