Se o Assange não estivesse tão obcecado com o imperialismo americano, estas coisas já se sabiam

Quando não estão a postar como uns desalmados, os camaradas discutem por email as grandes questões do nosso tempo: a revolução dos povos, a morada do melhor chinês da baixa, se o Nuno sou eu ou se eu sou o Nuno, tudo encriptado em código binário e altamente secreto. A razão por que hoje decidi quebrar a confidencialidade do nosso intenso epistolário é de força maior. Há duas horas, mais minuto menos minuto, o António Figueira enviou um email classificado “URGENTE” em que pergunta, com o desespero dos info-excluídos, “o que é que aconteceu aos fonts do nosso blog???” (sublinhado meu, pontos de interrogação dele). Parece que no backoffice estava tudo em itálico (o que, como se sabe, pode atrasar a marcha inexorável dos posts, quando não do proletariado). Eu não sei o que aconteceu, mas acho que o mundo tem de tomar posição sobre a moção de censura que conto apresentar já a seguir a este ponto final. Podemos adoptar a minha regra de nomear os vocábulos estrangeiros pelo género e artigo usados no equivalente português, excepto quando a mim me soar mal? Ficaríamos assim com “a cottage” (a cabana, a casa de campo, a vivenda, tudo feminino) e “o schedule” (as in “what’s the schedule?” – programa, horário, etc), mas continuaríamos a dizer impenitentemente “as fonts” (parece que se diz “fontes” em português, apesar de “tipos de letra” servir perfeitamente), e, sobretudo, “os SMSs”. Consta-me que em Portugal se diz “as SMSs”, o que bate certo com a minha rule de polegar, tratando-se como se trata de mensagens, mas soa horrivelmente ao meu ear – que, como se sabe, tem poder de veto sobre os meus éditos gramaticais, sem possibilidade de resolver a coisa em segunda votação na Assembleia da República. Não me oponho a que o Zé Nuno resolva esse minor glitch com AS fontes, se é que ainda não está resolvido, mas parece-me que não estamos a dar atenção suficiente a este problem. A questão é: vocês dizem “uma SMS”? São coisas como esta que impedem a minha normal convivência com a pátria.

Adenda: entretanto parece que o Carlos Vidal desitalicou o problema. Aguardamos que tome posição sobre os SMS.

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19 respostas a Se o Assange não estivesse tão obcecado com o imperialismo americano, estas coisas já se sabiam

  1. António Figueira diz:

    Uma vez eu ouvi, na RFI, um tipo dizer, com ar sério, que um dos grandes contributos do francês para a língua portuguesa tinha sido a expressão “cassar a crota”, e que não havia miúdo nem graúdo em Portugal que não a usasse pelo menos três vezes por dia. Eu acho que “as sms’s”, no feminino, são um pouco como “cassar a crota”: expressões do português fundamental que infelizmente os próprios portugueses desconhecem, e só se usam a norte do Loire. (um font = um tipo).

    • Morgada de V. diz:

      Essa história lembra-me uma conversa entre dois adolescentes nados e criados à l’étranger. No autocarro, regressados “a pena” das férias em Agosto, um dizia ao outro que os portugueses são muito ignorantes, porque desconheciam, até à sua intervenção civilizadora, a existência de pubelas.
      Mas regressemos às nossas ovelhas:
      regra número 1: um font = um tipo
      regra número 2: pergunte-me a mim (definitivamente, uma)

  2. Renato Teixeira diz:

    A camarada está é a modos que zangada por não poder vir ao almoço. SMS não tem género, nem artigo, não é verbo nem itálico. E só na pena da Morgada dá um texto do Caravaggio.

  3. “soa horrivelmente ao meu ear – que, como se sabe, tem poder de veto sobre os meus éditos gramaticais”

    Não existe melhor critério.

  4. susana diz:

    um sms, sem dúvida. mas uma schedule: as in ‘let me check my schedule’. agenda, não? sempre é mais uma a ganhar, mais uma para a causa feminina. car le masculin l’emporte toujours!

    • Morgada de V. diz:

      Acho que agenda é “diary”: o schedule é o plano, o horário, o programa de coisas para fazer (ou, no meu caso, para deixar por fazer). Claro que também podemos traduzi-lo por lista (de tarefas), que é feminino, mas assim lixa-me a regra número 1 (que, na verdade, vale o que vale: se por motivos de força maior me visse obrigada a falar em público na minha agenda, recorrendo ao termo “diary”, diria, apesar do que antecede, “o meu diary”, por razões auditivas que me dispenso de explicar). Enfim, é complexo, mas temos sempre a regra máxima para desempatar: antes de decidirem o género das coisas, perguntem-me a mim.

      • susana diz:

        sim, mas não recorria a traduções directas e sim contextuais: o equivalente a ‘let me check my schedule’ é ‘deixe-me confirmar a minha agenda’ (não é o livrinho – nem tenho, uso o telemóvel – mas esse sentido lato de plano, lista de tarefas/compromissos, álibis possíveis, etc.). já basta o tupperware e o pyrex, tratando-se afinal de taças ou travessas. mas esses, como velhos machos, já o são demais para haver mudança.

  5. JMJ diz:

    Nada como investigar até ao fim (leia-se: wikipedia):

    SMS – Short Message Service;

    Ou seja, nunca fará sentido “vou-te enviar um serviço de mensagens curtas”. Já “os jovens comunicam através do serviço de mensagens curtas” faz algum sentido ou “falei com ela por um serviço de mensagens curtas”.

    Quanto aos “tipos-que-são-fontes-ou-fonts”, mas que não do Wikileaks, não tenho nada a dizer, por agora. Aguardo instruções de quem de direito…

  6. Pedro Penilo diz:

    Nunca mais um post dará oportunidade tão oportuna de deslindar (sem desprimor) a dúvida que anda na boca pequena do povo:

    é a Morgada ou o Morgada

    Recentes debates intestinos do 5Dias têm abalado as minhas firmes e cândidas convicções. Ora eu sou desgraçadamente um homem que nasceu num tempo em que estas coisas tinham a sua importância.

    Ficaria muito triste se a Morgada fosse o António Figueira. Também ficaria muito triste se a Morgada fosse o Nuno. De igual modo ficaria se o Nuno fosse o Morgada. É que o Nuno foi o primeiro homem de 11 anos que eu vi levantar-se de punho erguido a gritar um acrónimo que agora não vem ao caso.

    • Morgada de V. diz:

      Pedro, nunca foi tão fácil fazer alguém feliz (o que muito me apraz tratando-se de uma pessoa que me é cara, como usted): eu não sou o António Figueira nem o Nuno, nem nunca andei por aí a gritar acrónimos começados por P (que me lembre, nem esse nem acrónimo nenhum: pauto-me pela mais escrupulosa não intervenção, com a notável excepção da luta anti-propinas, mas por extenso, frente à AR, in illo tempore – mas isso foi porque o comboio era fretado pela AAC e eu namorava com um moço que vivia em Lisboa, juntando-se o protesto inútil ao activismo agradável). É simpático que pensem que eu sou o AF ou o NRA, porque ambos escrevem belissimamente, mas não sei se a eles lhes agrada que pensem que somos uma e as mesmas três pessoas. Só me chateia que achem que eu sou gajo, sem desprimor – gajo porquê, senhores? A ser alguém que não eu, quero ser a Diana.

      • António Figueira diz:

        Pedro,
        Por que razão não queres tu que a Morgada seja eu – ou que eu seja a Morgada? Porque é evidente que sou – e ela também é: aguentei esta esquizofrenia até hoje, mas trop c’est trop – e o teu comentário, que se pretendia inocente, teve o condão de me fazer sair do armário. O Nuno estava por dentro do meu pequeno segredo – também ele poderá hoje assumir e gritar a verdade a plenos pulmões (pois o V. da Morgada não é mais que a inicial de verdade).

        • António, pare de confundir o povo: não lhe fica bem tentar apropriar-se da minha vasta obra publicada (30 posts, unabridged).
          Gosto muito de vocês todos (excepto do Renato), mas às vezes cansam-me.

          • JMJ diz:

            Se alguém me fizer ficar sem posts da(“o”?)(“@”?) (perco-me e a culpa é vossa!!) Morgada durante mais de 2 semanas, prometo que quando voltarem a ler sobre o Gulag, vão achar tudo aquilo mais simpático que as viagens do MST na América do Sul!!!

          • Morgada de V. diz:

            You’re a sweetheart.

          • António Figueira diz:

            Mas o V. de verdade é muito bom, não é? Que tal um cinto com uma fivela em V., para a mocidade portuguesa do séc. XXI? Um destes dias, vou escrever a biografia da Morgada de V., numa nova série de “Vidas Imaginadas” à la Schwob (a primeira será sobre um predicador flagelante do século XV, Pacheco Pereira de seu nome).

          • Morgada de V. diz:

            Coisa curta: “Nasceu em 1973 e em 2011 ainda está viva. Tudo o que se passou entre estas duas datas atesta a sua extraordinária resistência, nunca suficientemente elogiada, à chuva, ao vento e ao tédio”. (Isso dos cintos não é má ideia: vê-se que trabalha na área de vender ao povo aquilo de que o povo não precisa. We’ll be rich!)

      • Pedro Penilo diz:

        Deus é grande e Alá também! Está reposta a ordem das coisas boas.

        Que os blasfemos internos ardam no Campo Pequeno.

  7. LI diz:

    Esta discussão de identidades recordou-me a Maria Filoménica Mónica e o seu BI (não confundir com pretensas sugestões da sua bi, que não as são). E isso, minhas caras – ou meus caros, porque vossas caras não as vejo, ou não fosse isto um problema de identidade-, não é nada bom.

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