Que mil moções de censura floresçam

Ao contrário dos meus amigos Rui Tavares, Daniel Oliveira e Renato Teixeira eu acho muito bem que o Bloco de Esquerda tenha apresentado uma moção de censura. Parece-me acertado que o BE sinalize que, apesar de ter tido um candidato presidencial comum a Sócrates, condena as políticas deste governo. Outra discussão é se os comentários dos dirigentes do BE, à hipotética moção do PCP quando a qualificavam de um ‘frete à direita’, não foram tiros no pé, para quem, passados uns dias, apresenta uma moção de censura. Outra reflexão, porventura mais importante, é o facto que a direcção do BE não consegue respeitar os formalismos necessários para um funcionamento democrático e a maior parte das decisões serem resultado do “viu-se” entre Louçã e Fazenda. O que demonstra que a promessa do BE de inventar novas formas, mais democráticas, de militância política à esquerda, não foi, para ser simpático, totalmente conseguida.
Mas isto não me impede de pensar que o BE fez bem em censurar este governo e a sua política.
Passemos à parte mais substancial da polémica, o Rui e o Daniel afirmam que demitir este governo é entregar o poder a um governo pior: o do PSD. É um argumento que é parcialmente verdadeiro: infelizmente, depois deste governo seguir-se-á, provavelmente, o do PSD com uma escolha política e económica no mesmo sentido do que este. Mas aceitar este tipo de argumento é aceitar a chantagem do “voto útil”. Esta lógica conduz ao apoio cego ao PS, independentemente da sua política. Ora, o partido proprietário da sede no Rato nunca fez uma política de esquerda no governo, e este executivo de Sócrates agravou esta tendência: privatizou empresas públicas lucrativas, diminuiu os salários de quem trabalha, aprovou um código laboral gravoso, deu o máximo de negócios aos amigos, preservou os lucros dos especuladores e não fez nada que o fizesse merecer o apoio da esquerda.
O Rui Tavares que na sua crónica, do Público de hoje, parece definir-se como ‘pragmático, institucional e engravatado’, em oposição aos ‘dogmáticos, populares e histriónicos’ (sublinhe-se a curiosa oposição que o autor faz entre ‘engravatados’ e ‘histriónicos’ desde a Queda de um Anjo que os deputados que colocam uma roupinha tendem a ter outras ideias) conclui da seguinte forma: o facto de não haver políticas de esquerda, apesar do BE ter a certeza do que elas devem ser, não é culpa do PS, mas do BE. Provavelmente, para o eurodeputado eleito pelo BE, o governo de Sócrates não é assim tão mau, e seria muito melhor se tivesse o apoio e a participação do partido de Louçã.
A minha conclusão é substancialmente diferente: Portugal precisa de uma esquerda que rompa com o socratismo, mas que se afirme como uma alternativa de poder. Isto só pode ser conseguido com uma nova força política e eleitoral que nasça da cooperação entre PCP e BE e se alargue a outros sectores de esquerda. Uma moção de censura redigida pelos dois partidos era um bom começo para esse caminho. É preciso criar uma alternativa eleitoral, política e governativa de toda a gente que se opõe às políticas dos PECs do PS, PSD e PP. Difícil? Praticamente impossível, devido ao sectarismo dos dois partidos, mas não vejo nenhuma alternativa no actual quadro democrático.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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40 respostas a Que mil moções de censura floresçam

  1. Rigorosamente de acordo, tal como escrevi há uns dias no vermelhos.net (BE e PCP, PCP e BE. Quo vadis?). E valendo o que valem as redes sociais, físicas e virtuais, estou em crer que uma substancial percentagem do eleitorado BE e PCP é receptiva a essa ideia de, no mínimo,s experimentar por uma vez essa hipótese de unidade na acção.
    Já o mesmo não posso dizer das respectivas militâncias, que são induzidas no sectarismo pelas suas direcções, se não em público (embora aconteça), sempre no privado vida interna partidária.
    E os humilhados desta terra não merecem que se recuse a prova de que é mesmo impossível uma convergência à esquerda que esqueça por completo o PS, não esquecendo quem por lá está, nomeadamente no voto, disponível para sair do carreiro.

  2. Renato Teixeira diz:

    Nuno és um brincalhão e acabaste de ganhar três caneladas no Domingo. Eu também gostava de acreditar que o Sporting joga para ganhar, mas cada vez que se atira ao jogo, a cada passe, a cada recorte técnico, a cada transição, marcação e remate, percebe-se que joga para perder.

    O BE podia ter apresentado uma moção de censura, e qualquer moção de censura que queira derrubar o governo deve evidentemente ser aplaudida, agora o jogo jogado conta e o BE deixou claro que mais do que derrotar o adversário anda interessado em adiar a contenda para a segunda mão.
    Ao longo do texto esqueceste de explicar o facto de o BE não querer que os outros votem a sua moção, de questionar porque é que a moção se dirige à oposição e não ao governo e a relação que ela tem com o desejo de o BE precisar de tempo para ganhar oxigénio à esquerda depois do disparate do Alegre e em vésperas de congresso.

    http://5dias.net/2011/02/15/a-mocao-do-be-e-de-censura-ou-de-confianca/

    No meio de tanto wishful thinking gosto que chateies o Rui e o Daniel colocando-me no seu saco, mas já que o fazes podias largar um parágrafo com as questões que eu levanto e não com as dores de parto de um namoro que me é alheio.

  3. Nuno Ramos de Almeida diz:

    O BE tem uma moção de censura. Não vai derrubar o governo pq ao PSD não lhe convém. Só isso. Às vezes parece-me que o teu sectarismo te condiciona: estás mais interessado em censurar o BE do que em censurar o governo, não é?

    • Renato Teixeira diz:

      Nuno, o BE tem uma moção de censura que ataca a oposição tanto ou mais que o Governo. Claro que para que qualquer moção de censura ser aprovada é preciso os votos do PSD. Assim sendo, que sentido faz pedir para que vote contra, acusando-o que cairá no ridículo se a aprovar?

      • Maquiavel diz:

        A moçäo de censura do BE é contra as políticas de direita. O Governo fá-las, e a direita par(a)lamentar aprova-as. Vide PECs.

        Logo, há que esclarecer os eleitores que näo basta mudar de Governo, tem de se mudar de política.
        E isso o PS näo gosta. Pudera!

  4. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Acreditas mesmo nisso? Às vezes parece-me que és um pouco ingénuo. Qualquer moção de censura do PC ou do BE vai criticar a política de direita dos PECs e do orçamento. Caso o PSD quisesse derrubar o governo isso não seria um impedimento. Repara que se o PSD ligasse ao texto votaria contra a moção e vai simplesmente abster-se.

    • Renato Teixeira diz:

      Então qual é a ideia? Também souberam guardar as críticas ao PEC em nome da candidatura do Alegre. De resto, no caso e nas fundamentações podia largar o fel que entendesse. Desta forma conseguiu duas coisas: dar várias boas desculpas ao PSD para se abster (que não teria com outro texto) e dar-lhe a partir do dia 12 de Março o exclusivo dessa possibilidade. Sobram as razões de coutada. E essas sim são pouco, sectárias e estou certo que não te dizem nada.

      • Nuno Ramos de Almeida diz:

        Vamos ser factualmente correctos: o BE sempre criticou o PEC, mesmo durante a campanha do Alegre. Até o Alegre criticou timidamente essas políticas. Tu criticaste o BE por não apresentar uma moção de censura. Agora criticas o BE por não a apresentar com um texto que agradasse ao PSD. Isso não tem nenhum sentido, sabendo tu que o PSD não a vota, apenas pq não lhe convém.
        A moção não serve para o BE apoiar a política do PSD, mas para criticar a política que PS e PSD subscreveram e aprovaram. Se assim não fosse, até tu estarias a criticar o BE por fazer um texto que agradasse ao PSD, um dos subscritores deste orçamento e política. É por isso que eu digo, que independentemente o que eles façam terão a tua crítica. Para ti, aqui como na África do Sul, como na Venezuela interessa-te mais criticar as forças anti-capitalistas do que combater a direita. Pq estás convencido que o combate passa sobretudo pelo combates às forças de esquerda que não são suficientemente puras em teu entender, para dessa crítica criares qualquer coisa que mais ninguém vê. O único campo em que tu fazes uma unidade extraordinariamente vasta é no muçulmano. Infelizmente, apesar da fácies do Fazenda poder indicar o contrário, o BE não se vai converter às teses da Irmandade Muçulmana e terá, naturalmente, a tua oposição decidida.
        Eu que não sou do BE, e não o odeio, apoio o que ele faz de correcto e combato o que me parece errado. Fui contra o apoio à candidatura do Alegre, estou de acordo com a moção de censura. Não com o procedimento, mas com a censura a este governo.

        • Renato Teixeira diz:

          Na política como na cama, o procedimento é importante. Confabulas. Eu que também não sou do BE aplaudo quando vejo que é de aplaudir. O recente discurso do Soeiro sobre a precariedade, a intervenção da Marisa no PE sobre o Egipto ou os desenhos da Gui têm sido alguns dos mais recentes elogios.

          Na Venezuela, na África do Sul ou aqui na tuga “anti-capitalismo” não pode ser uma palavra vazia ou comprometida de programa. A coisa tem outro nome.

          Eu estou interessado em ver o Sócrates pelas costas e lamento que a moção de censura tenha tido exactamente o efeito oposto. Reconhecerás que foi um problema de procedimento mas acima de tudo um problema político que muita gente conseguiu ver.

          • Nuno Ramos de Almeida diz:

            Renato,
            Não dás um ponto sem nó. Começas por falar das semelhanças entre a política e da cama e só quase consegues elogiar a Marisa e a Gui. Percebo a confusão entre BE e Marisa, ela é Eurodeputada do partido, mas a que propósito transformas a Felga em propriedade do partido? Achas que os desenhos foram feitos a mando do vasto colectivo partidário?
            Voltando aos motivos apenas da política, é positivo que um partido que apoiou mal o candidato do PS, faça uma moção de censura ao governo sócrates.

          • Renato Teixeira diz:

            É positivo que o Sporting passe a jogar ao ataque, mas tudo vai continuar na mesma se continuar a trocar o golo pelo ferro. Convictamente.

            Quanto aos pontos tu és indecente. Para não dizer um tudo nada sexista. A única relação amorosa que poderia ter tido com os militantes que citas foi o Zé Soeiro e ultimamente temos andado fora de rota.

            Devias ter ficado para as festas do gelo no fim das palestras da juventude. 😉

  5. Pedro Penilo diz:

    Eu cá nunca gostei de cartões amarelos “partilhados” para resolver questões difíceis. Todo o histórico de preparação da candidatura de Manuel Alegre, começando com os célebres encontros no Trindade e a conversa da “Grande Esquerda”, se fez marginalizando o PCP, sempre por iniciativa unilateral do Bloco e embrulhada em “falsos convites”.

    As críticas que ambos os partidos fazem entre si são consequência “natural” de serem forças ideologicamente distintas. Não são, em si, sinais de sectarismo.

    Para dar um exemplo, a crítica implacável que o PCP sempre fez do PS não o impediu de com este ter coligações autárquicas e partilhar candidatos presidenciais. Mas essa unidade pontual foi conseguida com seriedade, respeitando os termos de cada uma das forças. Se não foram mais longe foi porque o PS nunca abdicou, no essencial de, fazer a política de direita. Ora o PCP exige discutir políticas, não lugares no poder. E, naturalmente, exige que falem com ele, e não que finjam falar.

  6. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Repara, fazer coligações eleitorais não significa juntar forças ideologicamente iguais (tirando o caso da CDU, em que o PCP se coliga com o PCP), significa em que há um entendimento comum para esta fase do processo político. PCP e BE apresentam na AR mais de 99% de propostas convergentes, opõem-se ao PEC, definem-se como anti-capitalistas. É uma boa base de entendimento. Sobre o sectarismo, ambas têm o seu historial. Em minha opinião vão continuar a degladiar-se, pq os dois partidos estão mais interessadas em concorrer entre si pelos pequenos lugares no parlamento, em vez de terem uma alternativa de governo e de poder.

    • Pedro Penilo diz:

      “Repara, fazer coligações eleitorais não significa juntar forças ideologicamente iguais…”, dizes.

      Estou de acordo. Não disse o contrário. Disse que a crítica não pressupõe sectarismo ou impossibilidade de entendimento.

      Mas é o Bloco que cresce “contra o PCP”. É esse criticismo em relação ao PCP que, sendo legítimo, parece por vezes constituir o essencial do seu ser – e que provoca indignação no meu partido. O meu querido irmão Daniel refere este “ajuste de contas”, na sua argumentação contra a moção do Bloco. Esquece-se entretanto que ele próprio construiu uma parte considerável do seu percurso político como “ex-PC”, contra o PCP.

      O recente episódio da moção de censura, sobretudo no seu acto primeiro “Resposta a uma eventual moção de censura do PCP”, é exemplar na ilustração disto que digo. E veja-se a posição muitíssimo mais responsável e aberta dos representantes do PCP face à moção do Bloco…

  7. AA diz:

    A moção elaborada em conjunto era um bom primeiro passo. Repescando uma ideia dos tempos em que o FMI aterrou na Irlanda http://viasfacto.blogspot.com/2010/11/o-programa-da-alianca-de-esquerda-unida.html: BE, PCP e outros sectores de esquerda – mais ou menos alinhados – devem unir-se com um programa mínimo que seja mais que um programa de governo, que deve ser debatido tanto para as próximas eleições com para criar algum movimento independentemente delas, quanto mais não seja para tentar politizar gente mais nova. Por vezes, trazer ideias antigas com roupagens novas funciona (pelo menos foi o meu caso com o BE…)

  8. Bom, e o que impede o PCP de tomar a iniciativa de falar com o BE? Tanto quanto sei nunca o fez, excepto no âmbito parlamentar para aprovação de leis ou outras iniciativas necessariamente conjuntas.
    Quando o PCP entendeu falar para fora – Zenha, PRD, Sampaio, UDP – fê-lo sem qualquer problema. Mas agora coloca-se na posição de virgem ofendida que não é convidada à boda?

    • Pedro Penilo diz:

      Pertinentes exemplos: “Zenha” e “Sampaio” foram assuntos tratados com a máxima responsabilidade e seriedade, tal como atrás enunciei.

      Primeiro combina-se o “casamento” e depois é que se fazem os “convites”. (É que se for “convidada à boda”, a “noiva” nem chega sê-lo, não é assim?)

      • Pedro Penilo diz:

        Atenções que o BE nunca teve, na sua cavalgada da “Grande Esquerda”.

        • Pois, mas isso não responde à minha questão.

          • Pedro Penilo diz:

            “Tanto quanto sei…” – Aí está uma equação em que nem eu nem o João podemos confiar muito. É que – e ainda bem – só vale a pena publicitar os contactos bem sucedidos: aqueles que respeitam minimamente as condições das partes envolvidas. Não fosse assim, e as chantagens e golpes de teatro minariam ainda mais as possibilidades de entendimentos.

      • Nuno Ramos de Almeida diz:

        Pedro,
        Apenas me parece que é mais importante a prática futura que o sempre antropofágico debate de quem foi mais sectário ou tem mais culpas no cartório.
        De resto, parece-me que estamos de acordo que se devia aumentar os entendimentos nos sectores da esquerda anti-capitalista.

        • Pedro Penilo diz:

          Sim. estamos de acordo. E estou de acordo em que nos concentremos no futuro. Mas para que não nos enganemos (por causa da conversa de “as esquerdas nunca se entendem”), convém lembrar alguns preceitos e procedimentos sérios que sempre conduziram à unidade.

          • LAM diz:

            Pedro, essa unidade desejada pelas massas de esquerda tem tido entraves de muita ordem, a maior parte das quais muito anteriores a sequer alguém sonhar com o Bloco de Esquerda. Não foi no encontros do Trindade que começaram. Se há algum “virús” sectário ele é muito anterior aos últimos 10 ou 15 anos e aí, o partido “responsável”, ou o que mais responsabilidade teria (hoje admito que já não será assim), em dar passos nessa aproximação, era outro e, que a história registe, tal nunca aconteceu. Pelo contrário, menos até do que tentativas de aproximação ou criação de plataformas mínimas de entendimento, o caminho foi sempre de sonegação e até de reconhecimento de vida das outras forças de esquerda de menor dimensão. Ao contrário de agora (porquê só agora?), nem no calor comicieiro era referido sequer o nome de outros partidos ou organizações políticas da esquerda.
            Mas, como diz o Nuno, se não podemos fazer nada em relação ao passado, já o futuro está aberto e está nas nossas mãos, como militantes ou meros apoiantes, exigir às direcções dos partidos da esquerda que criem condições sérias e palpáveis de responder a esses anseios de mudança.

  9. josé diogo diz:

    Acertaste na mouche Nuno: tanto o PC como o BE parece que estao mais interessados em
    rivalizar entre si por mais um mísero lugar na Assembleia do que defenderem todos
    aqueles e aquelas que estao a merce das politicas vorazes dos cabroes capitalistas…
    Avante por uma unidade de todas as forcas anticapitalistas, nao mais delongas: o inimigo
    é forte e velhaco.

    • Teixo diz:

      Na minha opinião, a moção de censura é contra as políticas de direita, praticadas peloPs e apoiadas pela direita, logo contra a direita.
      Correta a decisão.

  10. ghost diz:

    é uma questão de milhões de euros. nada de mais. partidos cujo funcionamento depende numa percentagem esmagadora (mais o BE, menos o PC) dos financiamentos parlamentares, estarão sempre muito mais interessados em garantir o seu nicho eleitoral – e parlamentar – e consequentemente garantir as generosas subvenções, do que em se unirem (nas ruas, nas diferentes assembleias e nas propostas políticas) e tentar mudar o destino do povo. vale mais ir fingindo que se vai tentando e na prática ir-se adaptando…

  11. Honestamente, eu acho que o Bloco e o PCP ainda não perceberam que muitos dos seus eleitores votam neles como forma de protesto e não pela mudança de regime. Votam neles porque estão fartos do centro, desse vazio ideológico. No entanto se dissessem a essas pessoas que votam Bloco ou PCP – eu incluído – que o seu voto não seria de protesto, mas sim para colocar estes dois partidos no Governo, haveria uma perda brutal de votos destes dois partidos, especialmente do Bloco! Porque eu e muitos, muitos mesmos, não nos revemos no corporativismo e nos vícios de poder do PS, mas também não nos revemos nos modelos económicos propostos por PCP e Bloco. Fica-se à espera de saber se o Bloco quer ser essa esquerda que não renuncia a economia de mercado, mas sim vê nela uma oportunidade para relançar o debate contra a pobreza. Ou seja, não me parece que a aceitação do capitalismo e sua instrumentalização para reforçar o papel do estado na economia apenas em áreas essenciais tais como a saúde, a educação e a protecção social, tenham dado maus resultados. Não me parece acima de tudo que os Nórdicos vivam pior do que nós. E não me parece também que as coligações governativas que sustentam a governabilidade nestes países tenham produzido maus resultados em áreas que a Esquerda considera fulcrais.

    • Nuno Ramos de Almeida diz:

      Percebo o que escreves, mas essa lógica levou-nos à crise actual. Existe uma falsa democracia quando só há alternância de partidos sem alternativa de políticas. A constituição de um bloco eleitoral que defenda políticas de esquerda a sério, insere-se nesta necessidade. Se quiser, uma ruptura com as políticas económicas dos últimos 30 anos por via do crescimento dessas forças de esquerda , seria um facto novo, não comparável a acontecimentos passados e feito num quadro de sociedades completamente diferentes das do início do século XX.

  12. Rui F diz:

    “…Isto só pode ser conseguido com uma nova força política e eleitoral que nasça da cooperação entre PCP e BE e se alargue a outros sectores de esquerda…”
    Que sectores? MRPP? Há mais?
    É que os sectores à “direita” do Bloco e do PC já não confiam, especialmente no Bloco.
    Toda a opinião de esquerda não alinhada com Sócrates é unanime: Com o Bloco não se pode contar.
    A prova é que o BE, e como diz muito bem o Rui Tavares, acabou de se limpar do Alegre Vírus.

  13. Filipe Diniz diz:

    O 5Dias (ou o Nuno, pessoalmente) de vez em quando têm o seu momento Carmelinda Pereira. No caso presente, embora a conversa seja a “unidade da esquerda”, a questão é outra: é que tem sempre do sobrar para o PCP. O BE juntou os trapos com o PS no apoio a Alegre, mete os pés pelas mãos com a moção de censura e por aí fora. Criticar o BE pelo que faz? Não pode ser, o BE nunca pode ser criticado sozinho (versão soft da outra regra: o BE não pode ser criticado). Portanto, toca a malhar no PCP, de quem não se deve nunca falar sem mencionar o “sectarismo”. O Pedro Penilo já escreveu o essencial sobre processos recentes, nomeadamente sobre o encontro do Trindade, mero episódio de uma linha de conduta sistemática. Se os programas e as declarações fundadoras dos partidos são para levar a sério, há que constatar que o PCP é programaticamente pela unidade e o BE é programaticamente pelo ataque ao PCP (a “esquerda velha e cansada” ). Ou alguém se terá já esquecido (o Nuno esqueceu, quando caricatura a CDU como uma aliança do PCP com o PCP) de que a coligação eleitoral que o PCP dinamiza já incluiu a própria UDP e inclui, mesmo nos períodos de maior estreitamento, mais pessoas sem partido do que militantes partidários? Pode desconhecer-se que, no movimento sindical e nas comissões de trabalhadores, a prática de aliança BE/PS é muito anterior e muito mais consolidada do que o apoio a Alegre? Pode desconhecer-se que, em questões hoje centrais do ponto de vista político como a integração europeia, o BE é federalista, tal como o PS e o PSD também o são, e que daí decorrem posições como a do voto a favor da imposição da “austeridade” europeia ao povo grego? O que é que nisto tudo tem a ver com o “sectarismo” do PCP? Em linhas fundamentais o BE escolheu um caminho que o aproxima do PS, e o PCP não é para aí chamado.
    Não escrevo este rol para afirmar que existe uma barreira intransponível a qualquer convergência, até porque basta acompanhar o que se passa na AR para verificar que isso não corresponde à verdade. E mais: até tenho a firme convicção de que as circunstâncias imporão, mais cedo ou mais tarde, uma grande frente social de luta contra o “estado das coisas actual”. Agora vir exigir, repartindo responsabilidades por igual, soluções que, no quadro actual, não passam de “whisfull thinking” pode ser aceitável com desabafo de um blogger, mas não é das coisas mais sérias do ponto de vista político.

    • Vamos ater-nos à verdade na argumentação. A UDP nunca integrou a CDU, Mário Tomé foi eleito nas listas da CDU. Quando a UDP reclamou uma coligação formal, como o seu símbolo, o PCP recusou. O PCP está coligado com um partido criado pelo PCP, Os Verdes. Sei do que falo porque fui, infelizmente, conivente com isso, ou seja, fui um destacados pelo partido para ir tomar conta dos ecologistas, não fossem eles ter ideias.

    • Nuno Ramos de Almeida diz:

      Filipe,
      Gosto do momento Carmelinda Pereira, eu próprio às vezes temo isso.
      Atalhando, a UDP nunca fez parte da CDU como UDP, aliás saiu dela pq o PC não aceitou que constasse da coligação apenas aceitou que se integrassem elementos seus como independentes. O caso até pode não ter sido totalmente por más razões, o PCP estava escaldado de mudar de coligações por saída de partidos, salvo erro, a FSP, no caso da FEPU e o MDP/CDE, no caso da APU.
      Agora, o fundamental do meu post são três afirmações e um temor:
      1. Ainda bem que o BE censura o governo.
      2. Deve-se recusar a lógica da chantagem do voto útil que é a ideia que não se pode ser contra o PS, pq o governo seguinte é do PSD.
      3. A único caminho nesta fase do processo democrático é, em meu entender, uma convergência, com implicações eleitorais, entre PCP e BE.
      O temor é o seguinte: devido ao sectarismo dos dois partidos e das suas lógicas de concorrência entre eles, temo que não seja conseguido esse entendimento que acho necessário.

      • Filipe Diniz diz:

        Nuno
        Essa história das “lógicas de concorrência” entre BE e PCP é uma treta completa. O facto de o BE se mexer em função do PCP (como nestes dias ficou bem patente) não significa que o PCP siga a mesma linha. O PCP – e tu deves saber isso – é um corredor de fundo, não disputa posições ao sprint. Tem mais que fazer.

        • Nuno Ramos de Almeida diz:

          Meu caro,
          Há uma lógica de concorrência e de sectarismo. Já estive dos dois lados e sei. Há uma desconfiança instintiva. A minha opinião é que nessa corrida de fundo que é o combate ao capitalismo há uma parte que se chama política de unidade e de alianças.

  14. Pedro Rodrigues diz:

    Nuno,
    chego tarde ao debate, mas aqui vai.
    Também eu acho que a apresentação da moção de censura é justa e, coerente com as posições do Bloco. Quanto a isso nada a dizer.
    O único problema grave que esta moção de censura demonstrou é se o Bloco é consequente aos olhos das pessoas na sua prática politica.
    Vejamos:
    1. As declarações do Francisco e do Pureza a desvalorizar a eventual apresentação da moção de censura do PC por causa da sua “utilidade prática”.
    2. A mesa nacional não ter sido tida nem achada não para uma decisão mas, pelo menos para uma discussão sobre a possibilidade da moção de censura do PC e como ganhar a iniciativa politica ou apenas como o Bloco se posicionaria caso esta acontecesse ou não.
    3. Após a apresentação de censura o Pureza diz que “esta é uma moção contra o Governo e o PSD e que este cairia no ridículo em votar esta moção” o que concordo mas vem deitar por terra a questão da “utilidade prática” pois se a “utilidade prática” está assente no seu agendamento pressupõe-se que tenha consequências para além da mera discussão da moção na assembleia da república.
    O que eu quero dizer com tudo isto, é que quem pôs toda a gente a falar do acessório ao invés do conteúdo e substância da moção de censura foi o próprio Bloco, pela forma, o timing e o contexto politico que a apresentou.
    Perguntar-me-ás se esta avalanche anti Bloco durante todos estes dias seria diferente, provavelmente não, mas não seria tão fácil se não fôssemos nós a dar os argumentos para cavalgarem o discurso quanto à forma.
    Há uns dias escrevia aqui numa caixa de comentários que “A única viabilidade para um projecto alternativo à esquerda terá que passar sempre por um compromisso entre o PC, Bloco e até com alguns sectores do PS no estabelecimento de um programa mínimo, em que as pessoas possam realmente se rever e percepcionar.” O Miguel Serras Pereira chamou-lhe uma “Plataforma necessária e suficiente”.
    Sem dúvida que talvez tivesse sido essa a melhor forma de ganhar a iniciativa politica, era publicamente desafiar o PC para a apresentação de uma moção conjunta em que fosse claro para as pessoas não só a critica à politica económica e social do Governo e dos sectores políticos que a sustentam (PSD) como os pontos de intersecção que permitiriam um texto conjunto (surgiria um embrião de alguma coisa? Não sei, mas começávamos a falar.)
    Com esta ultrapassagem ao PC presumo que se terá inviabilizado qualquer tipo de agendamento neste sentido.
    Agora o que está feito está feito, já passou a semana negra, pelo menos para já, é hora de recentrar a discussão no essencial, o que me questiono é se aquilo que foi percepcionado será ainda desconstruído. A realidade está a nosso favor, deveria ser suficiente, mas o que é verdade é que o não tem sido.
    Ainda é cedo para fazer uma avaliação, mas teremos contribuído para a credibilização do Bloco como alternativa, ou sairemos fragilizados pela percepção induzida de que afinal também nós pertencemos a esta classe politica bardina onde o calculismo e tacticismo vão cada vez mais substituindo a politica.

    • Nuno Ramos de Almeida diz:

      Pedro,
      Concordo com o que escreves, mas a intenção do meu post era discutir dois caminhos: o apoio ao PS versus uma convergência entre PCP e BE. E defender o segundo caminho.

      • Pedro Rodrigues diz:

        Nuno,

        Desviei-me um pouco do assunto, sim.
        Mas penso ter deixado claro que é essa também a minha opinião.
        Quanto à resolução para este problema, também subscrevo aquilo que dizes.
        É das poucas coisas que mesmo no campo teórico é difícil ver alguma viabilidade.
        A realidade, a esperança está na medonha realidade.
        Triste é que a possibilidade de vir acontecer, pode não resultar de uma reflexão e de um entendimento mais profundo, mas sim por uma necessidade conjuntural.
        Havia uma possibilidade se os sindicatos não estivessem aprisionados, que era exigir à esquerda parlamentar um entendimento, assim resta-nos que a luta social possa ser esse percursor e exigir convergência,unidade, e uma real alternativa.

        • Leo diz:

          “Havia uma possibilidade se os sindicatos não estivessem aprisionados”.

          Sim, os sindicatos estão presos à obrigação de corresponderem aos desejos da maioria dos seus associados. Felizmente que a maioria são autónomos e independentes.

  15. escorpião vermelho diz:

    «devido ao sectarismo dos dois partidos e das suas lógicas de concorrência entre eles»

    nuno, acho que o que diz se refere ao BE e não ao PCP. o BE é que disse que não faria sentido apresentar moção e depois apresentou-a. o BE é que não consegue ter uma experiência de poder. o BE é que está mais preocupado com causas fracturantes do que com a vida dos trabalhadores. o BE é que apoiou o candidato socrático. o BE é que tem o colo dos média. o BE é que tem «líderes» que combate pelo ego e não pelos interesses dos trabalhadores. o BE é que tem quase tantas tendências quanto militantes. custa-me citar antónio costa, mas até este senhor anti-comunista, concedeu, num rasgo de seriedade:

    «com o BE não é possível fazer acordos porque não têm palavra. o PCP quando faz acordos cumpre-os escrupulosamente e defende-os com unhas e dentes.»

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