O regresso do zombie – adenda

Na caixa de comentários deste post foi-me dito (e parece-me que justificadamente) que, já que mandei a “boca”, devia desenvolver porque é que o fiz.

Aqui fica:

«O lançamento da pergunta surge-me por duas razões:
Por um lado, porque diversas pessoas me transmitiram isso nos últimos dias, em situações diferentes. O que me levanta o interesse de saber mais.
Por outro, devido ao facto de, na sequência do anúncio da moção (que, a julgar pelas imagens, pareceu ter apanhado de surpresa quem estava à volta do Francisco Louçã – pelo menos quanto ao seu timing), só terem aparecido a defender a moção dirigentes do BE de outras tendências, todos eles com o ar de preferirem estar a fazer outra coisa qualquer naquele momento. O que é coerente com um tipo de “ratice” táctica que corresponde à cultura organizacional daquilo que era a UDP, mas não àquilo que era prática do PSR ou da Política XXI.

Mas isto sou eu, a observar de fora e a dar atenção ao que vou ouvindo de pessoas normalmente bem mais informadas acerca daquele dentro do que eu.
Por isso a pergunta e não uma afirmação.
Na esperança de que alguém nos possa esclarecer este assunto.

Assunto que não é irrelevante porque, quando um partido que se assume como plural toma decisões polémicas que (como esta) terão ou é suposto virem a ter consequências importantes, se justifica saber quem as gerou e deu à luz, independentemente de quem depois aceitou “vestir a camisola” e dar a cara, contrariado ou não.
Não essencialmente por uma questão de abstracta e ingénua “transparência” – que é contudo desejável mas pouco acarinhada nas vidas partidárias, facto a que talvez não seja estranha a má imagem pública acerca “dos partidos”.
Antes por uma questão de accountability acerca das consequências das decisões (venham aquelas a ser positivas ou negativas), perante os membros ou votantes dos partidos que as tomam e perante os cidadãos em geral. Que me parecem, todos eles, ter esse direito.»

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11 respostas a O regresso do zombie – adenda

  1. LAM diz:

    É um caminho.
    Essa imagem de algum desconforto de pessoas que apareceram a dar a cara pela moção também me passou, embora eu não seja de todo o melhor tele-psicanalista que se possa arranjar… Daí a assinalar com uma precisa cruz o epicentro do terramoto, vai um passo muito grande. O mapa do R.T., por exemplo, lá nos comentários ao seu post de baixo, aponta para outra origem, o que quererá dizer pelo menos que a afirmação carece de dados mais substantivos.

    • paulogranjo diz:

      Sem dúvida que carece.
      Por isso e pelas razões invocadas é que peço confirmação ou refutação, por parte de quem efectivamente sabe.

  2. Do Além.... diz:

    Terão sido o Cansado Gonçalves e o Velez Grilo, que assopraram aos ouvidos do Jeronimo de Sousa, que o PCP deveria apoiar uma moção de censura apresentada pelo PSD….

    • Vítor Dias diz:

      Este «do além» está mesmo no além. Como só deve ler o que lhe convém, ainda continua na pura falsificação de que Jerónimo de Sousa explicitou qualquer disponibilidade para optar uma moção de censura do PSD. Como já repeti noutros lados, era tempo de alguns tontinhos perceberem que há matérias em que um dirigentes político tem o direito de dizer o que diz e mais não dizer. E tem também o dever de não oferecer antecipadamente seguros de vida a adversários.

  3. Do Além diz:

    Os tontinhos , não são militantes do PCP, e por isso não escrevem o que o PCP lhes impõe….

    Os tontinhos ouvem as declarações de Jeronimo de Sousa, e tiram as conclusões óbvias.

    Os tontinhos sabem que Jeronimo de Sousa disse na Antena 1 a Maria Flor Pedroso, que o PCP não excluia o apoio a uma moção de censura vinda do PSD.

    Os tontinhos estranham esta subita convergência politica, entre Jerónimo de Sousa e Passos Coelho.

    Os tontinhos acham, que as ideias do Velez Grilo e de Cansado Gonçalves ainda têm apoio em dirigentes como o Jerónimo de Sousa….

  4. Luís Fraga diz:

    Melhor que perguntar se está de volta a UDP é perguntar onde está o maoísmo. A história da UDP é uma história triste. O maoísmo parece que ainda existe lá para os lados do Nepal. Enfim, parlamentarismo a quanto obrigas.

    Mas voltemos ao assunto do dia: o Bloco de Esquerda dá tiros no pé (moções que não o são, aprovadas não se sabe por quem) e depois diz que a culpa é do PCP.

    Realmente os dirigentes do Bloco ainda não perceberam que estão convidar a sair os seus melhores militantes, é o vale tudo da política parlamentar.

  5. Augusto diz:

    Meu caro Luis Fraga, quem ainda há poucos dias aqui no Cinco Dias, defendia o regime do Nepal, era o militante do PCP Bruno Carvalho.

    A UDP teve uma historia, que para muitos foi uma experiência inolvidável, mas para aqueles que por lá nunca militaram , se calhar só lhes ficou na memória, o que o PCP escrevia nas paredes, a propósito dessa organização UDP-cia.

    Até agora não li em nenhum lado nem vi nenhuma declaração de qualquer dirigente do Bloco de Esquerda, acusar o PCP ou culpar o PCP sobre a moção que o BE apresentou, e que permitiu até agora uma estranha unanimidade, que deveria fazer pensar todos aqueles que se reclamam de esquerda.

    Quando ás considerações sobre a saida dos melhores militantes do Bloco, de uma coisa estou certo,sair por desacordo, é uma situação normal em partidos democraticos, já a expulsão por delito de opinião só em partidos totalitários.

    • Luís Fraga diz:

      Pois é caro Augusto, e pode acrescentar o meu nome também aos simpatizantes do maoísmo nepalês. Ora deixa cá ver… entre a monarquia feudal que exista antes da chegada ao poder dos maoístas e a república democrática que eles fundaram, quem deveria merecer o meu apoio?

      Conclusão: até eu sou mais maoísta que os resquícios da UDP (e você já sabe que eu sou apenas um militante comunista). Por isso é que eu falava na história triste. Mais vale ter uns ideais meio confusos do que não ter ideais nenhuns. Deixe-me reformular: a história do Bloco de Esquerda é uma história triste.

      As pessoas realmente de esquerda que restam no Bloco devem estar a perguntar-se neste momento para que serve esse partido. Não há delito de opinião realmente, os aderentes e os próprios dirigentes são livres de discordar de decisões da sua cúpula parlamentar-dirigente, por muito que isso não tenha qualquer “utilidade prática”. Assim a esquizofrenia passa por democracia. Mas eu registo a sua auto-satisfação.

  6. mesquita alves diz:

    Paulo,
    Toda a gente, minimamente informada( com cultura política dos anos 70/80) e com mais de 50 anos, sabe que no final dos anos 70, os gaijos da udp, se portaram abaixo de cão, onde a traição, não foi só a nivel político como de ética. Os gaijos da udp, em nome da política de ocasião da udp, traíram amigos, e muitos, amigos de infância. Eu conheço, mais ou menos 10 casos, só em 4 freguesias da cidade do Porto. Não tenha, portanto, medo de falar.

    Abraço

    • Caro Mesquita:

      É possível que tenha razão, não sei.
      Eu ainda não tenho 50 anos e a relação mais próxima que tive com essa agremiação foi namorar com uma rapariga da UMAR de então. Mas, nessa idade, interessava-nos mais dar vazão às hormonas do que às eventuais divergências políticas.

      Mas deixe-me esclarecer que o post não é nem pretende ser um ataque à UDP ou aos que foram (são?) seus membros.
      Para quem ainda viveu o 25 de Abril e está abaixo da tal fronteira dos 50 (e suponho que, para os mais novos, mais ainda), as velhas animosidades e contas por acertar desde 1975 cheiram bastante a esturro. Embora compreenda que, para quem viveu esses tempos de outra maneira, seja difícil deixá-los de lado, ainda hoje em dia.

      Aliás, a minha pessoal (mas espero que transmissível) utupia politico-partidária é a colaboração do PCP e do BE, não apenas ao nível da convergência táctica, mas também do equacionamento de alternativas de sociedade. Fora desse quadro de diálogo e colaboração entre diferentes, não vejo como possam vir a ser contruídas alternativas efectivas de esquerda, para responder ao agora e ao futuro.
      E uma das muitas coisas necessárias para que tal possa acontecer é a superação dos traumas mútuos desse passado.

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