A MÚSICA DO REITOR SEABRA SANTOS – Carta Aberta ao Camané, à Cristina Branco, à Filipa Pais, ao Luís Represas, ao Manuel Freire, ao Martinho da Vila, à Paula Oliveira, ao Sérgio Godinho, ao Vitorino e a todos os seus ouvintes. [Numa semana foi subscrita por mais de uma centena de pessoas]

Queridos artistas de variedades,

a primeira razão porque vos escrevemos esta carta é porque de alguma maneira também dela somos destinatário. Uns mais do que outros, é verdade, as vossas letras e as vossas músicas ilustraram os estados de espírito de várias gerações. Fazemos humildemente parte de uma delas e é dela que vos queremos falar em poucas palavras, sem ter por garantido que tal desabafo vos venha a chegar aos ouvidos ou que neles faça algum efeito.

Nos últimos anos o Reitor da Universidade de Coimbra, Seabra Santos, com quem por estes dias decidiram fazer um trabalho musical colectivo, tem feito uma campanha de limpeza da sua imagem que ficou marcada pela aplicação das propinas na Universidade de Coimbra com o consequente abandono de centenas de estudantes sem possibilidades financeiras e pelo regresso, não mais grave mas não menos simbólico, da polícia ao interior da Universidade, algo que já não acontecia desde a crise académica contra o fascismo em 1969.

O processo de limpeza contou com silêncios de todo o espectro político: o do PCP (partido que entretanto abandonou), o simpático, oportunista ou ignorante das novas gerações de dirigentes associativos da Associação Académica de Coimbra (ligados sobretudo ao PS e ao PSD), e o dos restantes reitores das Universidades que o promoveram a presidente do CRUP.

Por se tratarem de organismos que, nos anos seguintes, se remeteram ao vazio, à falta de fantasia e à ausência de barulho, muitos dos que vos ouviam do lado oposto à barricada do Reitor Seabra Santos e do governo de Pedro Santana Lopes, foram também eles lambendo as suas feridas sem grande espalhafato.

Desta feita, e porque é de música que se trata e com a vossa presença será provavelmente muito boa, não podíamos deixar de vos dizer que muitas dessas pessoas vão passar a ouvir-vos de outra maneira. Alguns terão aceite o convite por amor à música ou por carinho à amizade, são nobres motivos, claro. Tão nobres como o facto de cada um de vós ter músicas que vos associam à esquerda e ao combate que o Sérgio Godinho sintetiza na paz, no pão, na habitação, na saúde e na educação. Ora tudo isso são valores pelos quais lutámos e lutamos, e, imagine-se, também em tempos o Reitor Seabra Santos lutou quando cantava na Brigada Victor Jara e combatia o antigo regime. Mas o passado militante ou musical de alguém nunca foi salvo conduto para o resto da história e a vida democrática do vosso parceiro de sonata foi o coveiro de muitos dos ideais que a vossa música trauteia.

Da nossa parte não podíamos deixar de escrever que aquele com quem agora se afinam será conhecido por outro tipo de diapasão e vai ser lembrado pelo exercício de um cargo que nada teve de Magnífico e que tudo permitiu aos que estão a transformar a universidade numa fábrica à qual só alguns têm bolsa para chegar, poucos têm carteiras para ficar e de onde praticamente todos saem precários.

Deixamos-vos com o vídeo dos acordes mais desafinados do único Reitor da história da Universidade de Coimbra ao qual os estudantes, em Assembleia Magna, retiraram o título. O motivo de tão nobre conquista, já merecido por ter sido o segundo reitor a ser impedido de realizar a abertura solene das aulas, aconteceu no dia 20 de Outubro de 2004.

Cordialmente nos despedimos mas não sem antes dizer que ficamos à espera de ensembles mais bem conseguidos,  pedindo igualmente as mais sinceras desculpas por prescindirmos deste vosso mais recente trabalho, no qual por mais que acertem no tom maior estarão momentaneamente condenados ao falsete.

Vossos eternos ouvintes,

Aitor Rivas, Ana Margarida, Ana Oliveira, Andre Benjamin Birken, Andreia Carvalho, Anna Galeb, Afonso Pereira Francisco, Alexandre Fonseca, Alexandre Valinho, Ana Beatriz Rodrigues, Ana Filipa Lopes, Ana Perovskaia, André Marça Teixeira, Angela Costa, Anninka Raja, Antonio Mira, Bébé Silva, Bea Perez, Bruno Julião, César Rosa, Caecilia Fonseca, Carolina Viana da Fonseca, Cristiana Lopes Lavos, Daniel Melim, David Rocha, Eduardo Alves, ELa Gazi, Elsa Pissarro, Emília Salta, Esquerda Nova, Eloisa Valdes, Emilio Cambeiro, Filipa Alves, Filipe Tome, Frederica Jordão, Frederico Brandao, Filipe Canha, Inês Gonçalves Reis, Inka Lanho, Isabel Peixinhos Caia, Ivo Silva, Jú Matias, João Antunes, João Baía, João Torgal, Joana Nunes, Hugo Confraria, Hugo Ferreira, Jaqueline Ferreira, Joana Salgado, Joana Tiago, Jose Sousa, Katja Melo, Laura Dias, Leandro Vichi, Luís Neves, Lia Nunes, Luís Costa, Lu Santos, Márcia Rocha, Mafalda Moreira, Marcelo de Lavor, Mariana Sacadura Franco, Mariana Santos, Mumia MadbutcherTattoo, Mário André Carvalhal, Marta Teixeira, Milene Cunha, Nayr Dias, Nuno Paz, O Papa Sou Eu, Pan Dæmon, Paula Barros, Pedro Baía, Pedro Bandeira Simões, Renato Guedes, República Das Marias, Ricardo Vieira, Olivier Kalemba, Pedro Marques, Pedro Ribeiro, Rafa Cardoso, Sérgio Costa, Súfia Raj, Sa’adiq Habib, Sandrine Rafael, Sofia Gomes, Susana Melo, Teresa Mingacho, Tiago Alves, Vanessa Correia, Vera Silva, Youri Paiva, Ze Eduardo, Renato Teixeira, Rui Miguel Nunes, Downers Grove North, Sónia Queiroz, Tatiana Ribeiro, Vânia Daniela Gonçalves.
Este artigo foi publicado em cinco dias and tagged , , , . Bookmark the permalink.