Três notas breves sobre o Egipto

1. Saúdo a vitória histórica do povo egípcio e a sua lição ao mundo ocidental (em particular na resposta à hipocrisia da postura americana em todo este processo, como em outros aliás). Mostrou uma linha progressista do mundo magrebino e árabe contrária à imagem avançada por muito boa gente e que ultrpaassa bastante os estereótipos da mulher submissa de véu e do barbudo radical.

2. Faço votos para que a vitória do poder popular no Egipto não resulte na transformação de uma ditadura aliada do imperialismo americano noutra próxima de Teerão e do radicalismo islâmico. Que o exemplo do Irão não seja seguido.

3. Parabéns ao Público e ao seu repórter Paulo Mouro pela óptima cobertura jornalística que tem dado da revolução egípcia. Com rosto, com voz e com alma, ao contrário da visão simplista e distorcida, quase dos “bons e dos maus”, que muitas vezes é dada pelas agências noticiosas.

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20 respostas a Três notas breves sobre o Egipto

  1. Leo diz:

    “Faço votos para que a vitória do poder popular no Egipto não resulte na transformação de uma ditadura aliada do imperialismo americano noutra próxima de Teerão e do radicalismo islâmico. Que o exemplo do Irão não seja seguido.” ????

    Eu faço votos para que se cumpra o que acabou de ser anunciado: suspensão da Constituição e eleições dentro de 6 meses. E que ganhe quem os egípcios quiserem. O país é deles, a escolha deles tem que ser respeitada, seja ela qual for.

    • miguel serras pereira diz:

      Grande confusão, a que reina pelas suas bandas, Leo.
      Uma coisa é dizermos que não podemos nem devemos substituir-nos aos interessados na instauração de condições de liberdade política e no terreno das lutas sociais; outra – completamente diferente e completamente absurda -, dizer que aquilo que os “interessados” possam fazer, seja isto ou aquilo, se equivale ou nos deve ser triunfalmente indiferente (como se não estivéssemos, também nós, de diferentes modos, implicados no que se passa no Egipto).

      Você escreve:
      “Eu faço votos para que se cumpra o que acabou de ser anunciado: suspensão da Constituição e eleições dentro de 6 meses. E que ganhe quem os egípcios quiserem. O país é deles, a escolha deles tem que ser respeitada, seja ela qual for.”

      Muito bem. Se, após as eleições, se formar um governo que não permita senão sindicatos confessionais, que ilegalize partidos de esquerda, fuzile os seus militantes juntamente com os sindicalistas “infiéis”, introduza a lapidação dos culpados de adultério, o enforcamento dos blasfemos – se tudo isto, ao contrário dos votos de João Torgal e de todos os que entendem que não há resultados eleitorais que possam legitimar democraticamente um poder absoluto (que mais não seja porque a democracia e o poder absoluto se excluem) ou garantam de uma vez por todas as liberdades civis e as da “cidadania social”; se tudo isto, apesar dos sinais que nos permitem fazer esperar o contrário e devem fazer com que exijamos aos regimes que aqui nos governam que mudem de atitude perante o Egipto; se tudo isto, no pior dos casos acontecer, gostaria que me explicasse o que é que significam as suas palavras acima transcritas.

      msp

  2. miguel serras pereira diz:

    Cem por cento de acordo, caro João Torgal. Ou, enfim, quase: a reserva vem de que me parece que a hipocrisia, reforçada por uma boa dose de imbecilidade estratégica, não foi menos forte do lado da UE do que do lado americano. O episódio da moção do BE na AR rejeitada pelo bloco central foi elucidativo, sem dúvida. Mas também o governo espanhol se cobriu de vergonha. E as reacções tácticas de última hora da França, Alemanha, etc. foram fumo sem fogo que não chegou para ocultar o cinismo, o horror ao exercício político democraticamente participado ou sequer o vazio estratégico (ao serviço dos interesses imediatos do expansionismo do Estado alemão) que governam esta parte do mundo.

    Cordiais saudações republicanas

    msp

  3. Carlos Carapeto diz:

    ««««««««Que o exemplo do Irão não seja seguido»»»»»»».

    Porque motivo tanta cagança sempre em volta do Irão?

    E a Arábia Saudita?

  4. M. Abrantes diz:

    <

    O moralismo fácil da esquerda seria risível se não fosse já um hábito. Pegue-se numa multidão a fazer barulho, junte-se-lhe um ditador em fuga e algumas mortes e destruição. Eis uma vitória histórica.

    A mim parece-me apenas uma multidão a fazer barulho, um ditador em fuga e algumas mortes e destruição. Para o João não é nada disto, é um filme já visto do princípio ao fim, de título A vitória histórica do povo egípcio e a sua lição ao mundo ocidental.

    Fod*-se, quanto lirismo!

  5. Carlos Carapeto diz:

    Com tanta pujança porque não foi convidar o dito ditador a abandonar o cargo?

    Evitavam-se essas mortes, não havia necessidade da mobilização de massas e a economia do país não tinha sofrido nada. Com a sua prestimosa ajuda tinha sido tudo bom.

    Você faz-me lembrar um dito da minha avózinha. ” é como os alfores do varrasco, andam sempre atrasados”.

    Deve dar uns amargos de boca a certa gente ver um povo mobilizado na rua a exigir os seus direitos.

  6. francisco caetano diz:

    mubarak saiu israel gostou os eua gostaram o exército tomou conta a constituição voou o eua formaram o exército. a gente de esquerda está como a hiena, ri de quê? o exército larga para o povo? o eua deixam? israel autoriza? estão contentes com o quê? mubarak era o homem dos eua! mudou assim tanto? a esquerda ri de quê?

  7. Leo, não me diga que ainda acredita que Ahmadinejad foi democraticamente eleito, em eleições livre e justas?. Ainda acredita na Carochinha?

    Francisco Caetano, percebo as suas reticências, mas é bom ter uma expectativa positiva.

    “Deve dar uns amargos de boca a certa gente ver um povo mobilizado na rua a exigir os seus direitos” De que vale responder a quem não deve ter lido o meu texto. Quanto à questão da Arábia, não faz sentido após a demissão de Mubarak que haja uma aproximação da Arábia. Seria um contrasenso, não?

    Miguel, de acordo com a hipocrisia da União Europeia. A começar pelo caso português, claro.

    • Leo diz:

      “Leo, não me diga que ainda acredita que Ahmadinejad foi democraticamente eleito, em eleições livre e justas?. Ainda acredita na Carochinha?”

      O João é que parece acreditar nas carochas e nas carochinhas. Pelo menos acredita nos resultados disparados quando as eleições ainda decorriam em todas as assembleias de voto do país e por quem depois nem se dignou contestar os resultados, junto das instituições responsáveis.

      Ou acha que isso do respeito pelas leis e pelas instituições só diz respeito a uns (aos “nossos”) e que outros têm o direito a auto-proclamações interesseiras?

  8. Z diz:

    O tema ainda nem sequer acabou e tu já proclamas vitória.
    Sê paciente.

    Miguel
    Expansionismo Alemão??

    Não percebo.

    • miguel serras pereira diz:

      Mas, ora essa agora, caríssimo Ezequiel,. Pois bem, o “expansionismo alemão” significa que a orientação do governo alemão se tem feito, cada vez mais, nos termos de uma política de potência, visando o alargamento e a consolidação de posições para o “espaço vital” de Leste e em detrimento de um federação inter pares na UE.
      Abrç

      msp

  9. Z diz:

    Hello Miguel.

    Não me apercebi que estava a responder a um comentário e não ao post do João q aborda a questão Egipcia.(q nada tem q ver com a Alemanha)

    Concordo consigo, até certo ponto. É verdade que a Alemanha tem vindo a assumir uma postura realpolitik. Resta saber porquê? (Irresponsabilidade orçamental dos seus confréres europeus? Manipulação dos dados orçamentais pelas autoridades Gregas ?? etc) Todavia, não me apressaria a interpretar esta realpolitik como um encore do conceito de “espaço vital.”

    Inter pares?? Teria sido muito mais fácil invocar este nobre e utópico conceito em Berlim, Bruxelas e Estrasburgo se os nossos governantes tivessem sabido investir e administrar os fundos europeus, a maior parte dos quais provém da Alemanha. (os fundos alemães das ultimas décadas não demonstram que Berlim considerou os seus partners Europeus como (inter) pares? Perdoe-me a sinceridade. Mas é isto mesmo que eu penso.(com a notável excepção das energias renováveis)

    cumprimentos
    ezequiel

    • miguel serras pereira diz:

      Bom, Ezequiel,
      o “expansionismo” e o “espaço vital” a que me refiro podem ser visados por meios que não reeditam a política do III Reich e o “método” nacional-socialista.
      Mas a política de consolidação a Leste – até como base para a afirmação da hegemonia na “frente ocidental” -, as tentativas de constitucionalização de critérios monetários, a solidariedade destes aspectos com uma política social disciplinar, etc., etc., terão de ser tema de outra discussão.

      Abrç

      msp

  10. Z diz:

    Teria sido muito mais fácil invocar este nobre e utópico conceito em Berlim, Bruxelas e Estrasburgo se os nossos governantes tivessem sabido investir e administrar os fundos europeus….com a notável excepção das renováveis…o único domínio em que este governo tem sido de facto exemplar. o resto é só asneira.


    escrevi o comentário à pressa.
    as minhas desculpas

  11. Z diz:

    um abraço para si também, caro Miguel.

  12. paulo pereira diz:

    …que se prove que estou errado, mas daqui a uns tempos vamos ter mais um partido fundamentalista a ganhar as eleições e lá se vai a democracia! E depois teremos mais um problema para resolver, porque os fundamentalistas não pensam que nós cá podemos andar, pois somos infieis…Que não possa dizer que maisvale um ditador controlado que uma nação muçulmana com vontade de nos tratar a todos como tratam os israelitas…
    …se me colocarem a questão esquerda/direita, sou de esquerda!!
    NOTA:gostaria de ver alguns que escrevem neste blog a viverem num país muçulmano fundamentalista…só para sentirem na pele…

  13. Z diz:

    Miguel,

    a falta de pachorra e de tempo impediram-me de reflectir devidamente sobre a sua alusão ao suposto lebensraum (a leste e a oeste) by other means

    a alemanha é uma potência global. o seu principal importador nem sequer é um país europeu. o lebensraum vital alemão é global. o lebensraum mudou. e já nem sequer é determinado fundamentalmente pelo espaço (vital), tal como era conceptualizado na anterior formulação

    get with the programme. acha, sinceramente, que os Alemães estão mais interessados nos slovaks ou nos hungaros ou nos polacos do que nos…say..chinese!??! tenha santa paciência

    boa noite.
    a sua interpretação não é apenas anacrónica
    é miope.

  14. João Torgal diz:

    “mais vale um ditador controlado que uma nação muçulmana com vontade de nos tratar a todos como tratam os israelitas”. Quem é que trata quem? Quem é que, de base e historicamente, discrimina, ocupa e chacina? Naturalmente os israelitas (e sabemos isto de forma clara, mesmo tendo em atenção as informações pró-ocidentais que maioritariamente nos chegam).

    Quanto ao resto, colocar a questão da preferência entre uma ditadura e outra, é algo que não se deveria pôr. Aí concordo contigo, culpa de uma certa esquerda, que deveria separar águas edeixar mais claro a sua oposição ao fundamentalismo islâmico de extrema-direita, em vez de o ainda defender em certas circunstâncias.

  15. João Torgal diz:

    Leo, seja então coerente: defenda que a democracia portuguesa é um mar de rosas, um verdadeiro paraíso político. Ou vai-me dizer que a situação no Irão é muito mais justa e saudável do que em Portugal?

    Estranho ver um tipo do PCP a defender um regime de extrema-direita…

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