Que raio quer o Antropocoiso?

O Antropocoiso não é, não pretende ser e não será polícia da consciência de ninguém. Nem polícia das referências políticas, éticas, retóricas ou estéticas de quem quer que seja.

Por isso, não passa pela cabeça do Antropocoiso questionar o direito de todas as outras pessoas a escreverem como quiserem, acerca de quem quiserem – conforme ficou dito aqui. Por muito que essas pessoas o possam fazer de uma forma que lhe desagrade. Falar de um Index do Antropocoiso na sequência disto é um evidente acto de má-fé.

Quando acedeu ao convite de um amigo de há já mais de 30 anos para escrever no 5 Dias, o Antropocoiso sabia que iria partilhar um espaço de pessoas livres, com estilos e opiniões diferentes, que muitas vezes lhe agradam e outras não. O Antropocoiso (que, para quem ande mais distraído, sou eu) assumiu essa diversidade e (por vezes) polémica como uma virtude e potencialidade.

Mas, tal como reconhece aos outros o direito de escreverem como quiserem sobre quem quiserem, o Antropocoiso não abdica do seu direito de escrever e fazer saber do seu desconforto, quando alguém escreve de uma forma que lhe desagrada, acerca de pessoas de quem gosta. Os outros podem escrever o que quiserem sobre quem quiserem, mas não podem exigir-lhe que sempre se cale, solidarizando-se pelo seu silêncio com aquilo que lhe desagrada.

Ora o Antropocoiso não gosta de ver insultar os amigos e pessoas que respeita, e ninguém lhe tira o direito de o dizer. Picuinhices…

PONTO 2 (e deixemos a 3ª pessoa do singular):

Segundo uma rápida consulta, afixei no 5 Dias a capa de 12 livros.

Com 8 deles, não tenho nada a ver, a não ser recomendá-los: a História Geral de África (UNESCO) disponível on-line; os Labirintos da Crise Financeira Internacional (de José Manuel Rolo, Cosmos); o Comunismo e Nacionalismo em Portugal (do Zé Neves, Tinta da China); o Vou Lá Visitar Pastores (Ruy Duarte de Carvalho, Gryphus e Cotovia); o Memorial do Convento, o Ensaio Sobre a Cegueira, o Levantado do Chão e O Ano da Morte de Ricardo Reis (José Saramago, Caminho). Espero que o Carlos Vidal me autorize a escolha.

Em 2 outros livros (um deles até é revista), tenho um artigo lá no meio de muitos outros autores: o Profissão e Vocação – ensaios sobre grupos profissionais (de Ana Delicado, vera Borges e Steffen Dix, ICS voilà!); o número sobre “Estado das resistências a sul: África” da Altervatives Sud. Pensei então – e, na minha ingenuidade, continuo a pensar – que não se trata de temas que, no conjunto de leitores do 5 Dias, me interessem apenas a mim.

Afixei também a capa de 2 dos meus livros: o Um Amor Colonial (Cosmos), a propósito de a edição do livro (há mais de um ano atrás) ter levado ao reencontro dos seus protagonistas, 40 anos depois; o «Trabalhamos Sobre um Barril de Pólvora», homens e perigo na refinaria de Sines (ICS, re-voilà!), velhinho de alguns 6 anos, por a subordinação da segurança à produção, lá estudada, surgir em dois graves e conspícuos acidentes laborais noutros países. De novo, a minha ingenuidade levou-me a pensar que tal pudesse interessar a alguém. Mea culpa

Poder-se-ia juntar a isto, para me acusarem de ridículo narcisista e de indevida utilização do impoluto 5 Dias como montra pessoal, a disponibilição que fiz dos links para alguns dos meus artigos, que me haviam sido pedidos por colegas – e também eles, suponho, acerca de temas que não interessam nem ao menino jesus.

Acerca dessa disponibilização (e, já agora, de todas as outras), permitam-me transcrever a resposta ao comentário de um leitor que gostou tão pouco dela como o Carlos Vidal:

«Considero que a produção científica, por muito inovadora e criativa que nalguns casos possa ser, é sempre tributário não apenas dos antecessores do autor, mas também da sociedade em que ele se insere e que, na maior parte dos casos, lhe paga para produzir.
Deve por isso ser do domínio público, sendo também responsabilidade ética e social dos autores científicos contribuirem para que assim seja.

Em segundo lugar, quem quer que escreva artigos científicos imagina (esteja nisso certo ou errado) que eles não são um completo lixo e que poderão ser úteis a quem os leia e se interesse pelos seus temas.
Ora um artigo publicado numa respeitada revista científica (supostamente bom, já que lá está) é normalmente lido, na melhor das hipóteses, por umas dezenas de pessoas, quase exclusivamente académicos da mesma área.
De um artigo disponibilizado on-line fora das torres de marfim académicas (mesmo que no meu quase sigiloso blog pessoal) são facilmente feitas várias centenas de downloads – que é plausível pensar serem em grande parte lidos, e lidos por pessoas que, interessando-se pelo tema, não os leriam de outra forma.

Pelas duas razões anteriores, disponibilizar e divulgar artigos on-line é, para mim, uma obrigação ética, social e política (independentemente de o seu conteúdo o ser ou não) que nada tem a ver com humildades ou caganças, e menos ainda com a antipatia que os meus posts e os argumentos que neles desenvolvo lhe possam suscitar a si.»

Posto isto, se quiserem compreender compreendam. Se quiserem amuar, amuem.

Por mim, o assunto pode morrer aqui.

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26 respostas a Que raio quer o Antropocoiso?

  1. a anarca diz:

    Muito bem Paulo 🙂
    Gosto de o ler , gosto da sua postura …
    Continue o seu trabalho que é excelente 🙂

  2. Leo diz:

    “Por mim, o assunto pode morrer aqui.”

    Se tivesse um mínimo de bom senso, tinha morrido lá em baixo. Mas já percebi que acha que tem o direito de andar à chuva e choraminga porque se molha.

  3. Ora um artigo publicado numa respeitada revista científica (ou supostamente científica)
    não é normalmente lido, mas serve de referência ou na melhor das hipóteses, por umas dezenas de pessoas, que farão trabalhos sobre o tema
    De um artigo disponibilizado on-line fora das torres de marfim académicas (mesmo que no meu quase sigiloso blog pessoal?) são facilmente feitas várias centenas de downloads – que é plausível pensar serem em grande parte lidos, e lidos por pessoas que, interessando-se pelo tema, não os leriam de outra forma.

    Ser paladino da divulgação às massas é uma perspectiva terrível

    • paulogranjo diz:

      Bem… formalmente (e por muito terrível que lhe pareça a perspectiva), é também uma obrigação profissional dos investigadores, constituindo até um dos seus itens de avaliação regular, embora com um peso ligeiro.

      Claro que não é por isso (nem tão pouco por uma crença ao estilo 1ª República no carácter emancipador da “Instrução Pública”) que a defendo e considero uma obrigação. Mas as razões, suponho, terão ficado claras.

      Mas justifica-se talvez acrescentar que os artigos que disponibilizo foram ou estão a ser editados nas tais respeitadas publicações científicas.
      E que, confesso, me sinto mais recompensado pela referência de um leigo que os mostra ter lido e compreendido (mesmo que eventualmente discorde de mim) do que por uma citação ISI que, quando se vai a ler, mostra ter sido feita por um especialista que provavelmente só leu o resumo e que possivelmente só a fez porque precisava de compor a lista bibliográfica ou porque alguém lhe disse que, acerca daquele assunto, era uma obrigação citar-nos.

      E ser entendido “pelas massas” letradas não implica, na maior parte dos casos e dentro das ciências sociais, “escrever divulgação”, ou simplificar. Implica escrever os próprios artigos científicos com a máxima clareza e o mínimo estritamente necessário de jargão.
      Claro que isso dá trabalho.
      E claro que já tenho lido muito texto complicado (que não complexo) em que a complicação, o arrevesamento linguístico quase críptico e o jargão parecem ter como únicas funções sugerirem a erudição do autor e mascararem, sob eles, a irrelevância e fragilidade daquilo que nos escreve.

      Mas isso é uma outra velha discussão, acerca da qual a minha opção está, também, há muito tomada.

      • joão viegas diz:

        Muito bem !!!
        Isso é que falta em Portugal, pais de doutores emproados de que o seu inenarravel colega de blogue Vidal é uma verdadeira caricatura. Ma

      • joão viegas diz:

        O meu comentario anterior foi “para o ar” antes de eu querer, ei-lo completo :

        Muito bem !!!

        Isso é que falta em Portugal, pais de doutores emproados de que o seu inenarravel colega de blogue Vidal é uma verdadeira caricatura. Mas o meu proposito não é meter-me na vossa conversa, apenas aplaudir ao que v. diz neste seu ultimo comentario, que é muitissimo mais importante do que a polémica na origem do post.

        E’ que com a discutivel figura poética do direito de propriedade intelectual, as pessoas esquecem o basico : os universitarios enchem a boca com as “liberdades” universitarias, como se isso apenas correspondesse a uma licença para praxar (sim, porque a discutivel praxe dos alunos aos caloiros não passa de mimetismo, mas não sou eu que vou explicar isto a um antropologo, pois não ?) e para pôr ao bolso uma pequena fatia do orçamento geral do Estado.

        Meninos, a vossa função (e a minha também, ja agora, uma vez que sou um profissional liberal) consiste em DAR.

        Isto é verdade economicamente. Isto é verdade moralmente. Isto é verdade policimente.

        Mas isto é verdade também, senão principalmente, de um ponto de vista intelectual. Um universitario “especialista” que apenas escreve em revistas reservadas, para distribuir palmadinhas nas costas aos seus colegas, não é univeristario senão por fraude, ou por logro. Esse sim, e não o desgraçado do comerciante que enfrentou os perigos do mar, é que pode ser acusado de pôr ao bolso um lucro indevido e de roubar a colectividade.

        Ao que se deve acrescentar, acima de tudo, que ele pode e deve ser acusado de ser um asno – o tal sorbonagro genialmente caracterizado por Rabelais !!!

        Quando leio o comentario a que v. responde, fico abismado. Quanta ignorância (ignorância no sentido profundo, ou seja asco ao saber, medo do conhecimento, vontade determinada e inalteravel de não saber, de não querer saber, de ter raiva a quem sabe) é preciso ter para proferir esse tipo de afirmações ? E’ que nem sei por que ponta se ha de lhe pegar.

        Vamos no entanto tentar :

        Diz o comentador que acha desprestigiante ser um divulgador. Vamos la ver : o que é que ele entende por “divulgar” e porque é que ele acha que é facil ? Pensara ele que é tudo uma questão de reclame ? Que quem vai frequentar a universidade (ou ler um artigo numa revista universitaria) vai la para entrar em contacto com uma fonte misteriosa que lhe vai indicar onde (ou seja, nas mãos de quem) se encontram as coisas importantes como, sei la, a saude ? E’ isso ?

        Foda-se, isso deixa-me completamente fora de mim.

        Foram séculos de provincianismo coimbrão. A camada de estupidez é demasiada. Companheiros, vejo-vos condenados aos tristes vidais deste pais por muitos anos ainda !

        Muito bom o seu comentario.

        • Carlos Vidal diz:

          Colegas são as putas, ó imbecil Viegas que aqui já o conheço de gingeira, mai-las suas fixações pázinho.
          E veja se deixa de aparecer perto de onde estou. Mas aqui, neste post, podem vir muitos Viegas, noutros lados já é pior.
          Num entram mesmo.

          • joão viegas diz:

            E’ sempre um prazer.

            Repare que o que eu estou a dizer é que, em principio, deviam precisamente distinguir-se das putas (os colegas universitarios, digo, mas isso também se aplica aos colegas de blogue, sobretudo quando são os dois).

            Mas não me supreende nada que v. conteste…

          • Carlos Vidal diz:

            Ora bem, ora bem, mas eu não sou colega do sr. doutor Granjo.

            Mas nem por sombras.
            Não sou invetigador como o sr. doutor, e tenho muito poucos amigos. (Mais logo publicarei a minha lista dos “gajos que gosto”, apesar de gostar mais de gajas – mas ninguém é perfeito.)
            Sou aquilo a que se chama pintor, por vezes com a boca e por vezes com os pés.

          • joão viegas diz:

            Deixe la a lista dos gajos e gajas de que gosta, não os va desgraçar. Pensei que v. fosse universitario… Se não é, o erro é todo meu. E’ que quando o leio custa-me imaginar que possa existir um defeito que v. não tenha.

            Mas fiquei curioso e prometo, quando tiver tempo, procurar ver como é que v. pinta com os pés. Não que tenha duvidas que o resultado seja melhor do que quando v. pinta com a boca. Curiosidade, apenas. Perversa claro…

          • Carlos Vidal diz:

            Eu não disse que não era universitário. Disse que não era colega do sr. Granjo, sobretudo aqui nesta tasca. E colegas são as putas.
            Quanto ao que pinto com os pés ou com a boca, não queira saber, alce o rabo para outro sítio. E depressa.

          • joão viegas diz:

            Bem me parecia que era. E também um troca-tintas, por sinal, que não sabe o que é um colega, nem o que é uma puta…

            Se não se importa, e mesmo que se importe, vou para onde me apetecer e quando me apetecer… O que me causa uma sensação que é melhor não sugerir que v. tente provar, porque esta visto que v. não pode.

  4. miguel dias diz:

    ora aqui está um post colorido.

  5. Carlos Vidal diz:

    Muito colorido, arquitecto.
    Vamos ao problema:

    «(…) o Antropocoiso não abdica do seu direito de escrever e fazer saber do seu desconforto, quando alguém escreve de uma forma que lhe desagrada, acerca de pessoas de quem gosta. Os outros podem escrever o que quiserem sobre quem quiserem, mas não podem exigir-lhe que sempre se cale, solidarizando-se pelo seu silêncio com aquilo que lhe desagrada.

    Ora o Antropocoiso não gosta de ver insultar os amigos e pessoas que respeita, e ninguém lhe tira o direito de o dizer.»

    Eu também tenho amigos. Ora aqui está um problema de difícil resolução…..
    Pode-se “insultar” um texto “insultuoso”, mas não se pode dizer “insultos, não, porque esse sr. é meu amigo”.
    Percebe a diferença?

    • LM r diz:

      A diferença é que há quem não entenda muito bem o que é isto dos blogues.

    • miguel serras pereira diz:

      Mais um tiro em cheio no pé.
      Tudo depende da arma e da pontaria, é bem verdade.
      O Leo desfaz-se em aplausos disciplinares empolgados.
      Quanto a mim, permita-me o mais sincero chapeau, Professor.
      Quantos já são, com este, ao todo os tiros?
      E os pés?

      msp

    • Caro Carlos:

      Conforme me pareceu estar claro da primeira vez, mas certamente não oferece quaisquer dúvidas na segunda, reconheço-lhe a si ou a qualquer outro o direito de, se assim o entenderem, insultarem os meus amigos, ou quem quer que seja.

      E reservo para mim próprio o direito de me demarcar de insultos ou de posições (sobre pessoas que conheça, ou não conheça, ou acerca de assuntos que nem sequer tenham um carácter pessoal) que sejam expressos num espaço que partilho, e dos quais me seja importante demarcar-me.

      Só.
      Sem dramas nem questões pessoais, para com pessoas que nem sequer tive ainda a oportunidade de conhecer.

      • Carlos Vidal diz:

        Defeito meu, camarada.

        Já aqui foram insultados amigos meus (ou amigos de todos os colaboradores do blogue, suponho, e por todos os colaboradores idem), e, de tal, nunca foi “importante demarcar-me”.
        Defeito meu, que não sou amigo dos amigos.

        Uma demarcação pode ser um texto interessante.
        Um mero “gosto deste gajo”, ou “sou sobrinho deste”, ou “vou trabalhar com aqueloutro, por isso parem de insultar” é de mais para o meu gosto.
        É obra camarada.

        Se todos por aqui fizessem o mesmo, esta prática multiplicada por 20 ou 30 dava uma contabilidade bizarra.
        Os afectos, camarada, são obra.
        Acho muito bem. Só lhe fica bem.

        Mas olhe que há merdas no mundo mais interessantes do que os afectos: as cores, por exemplo (o Goethe sabia disso umas coisas, apesar de não ter percebido aquela coisa do prisma). Mas as cores são só para alguns – não se meta nisso, fique-se pelo Cutileiro. Para si, já não é mau (apesar de ser muito mau).

        • paulogranjo diz:

          Digamos, caro, que o Cutileiro é uma metáfora com um nível de subtileza semelhante ao daquela com que me brindou.
          Isto, claro, ao modesto nível de alguém a quem você não autorize que se meta com cores ou com o romantismo alemão.
          E, com esta substituição verbal da foto em cabeçalho, aqui vos deixo para me dedicar a algumas coisas mais importantes e urgentes para mim. E (perdoe-me a imperdoável ousadia) mais coloridas.

  6. xatoo diz:

    e de repente, com mais cinco anos de cavaco pela frente
    a blogosfera ficou sem objecto de insulto
    e assim a entretenga passa a ser o ping pong entre uns e outros

    • paulogranjo diz:

      Obrigado pelo link. Conhecia, mas é sempre agradável de rever.
      Imagino que o use com fins terapêuticos; mas talvez o devesse partilhar com maior frequência com os amigos.

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