Ilegalidade à solta na noite de Lisboa

A noite de Lisboa anda a ser varrida por operações das forças especiais, sem motivo aparente e sem cumprir nada do que diz o protocolo. Já tinha ouvido falar no assunto mas só esta madrugada, em plena festa pela revolução egípcia, testemunhei o episódio que se voltou a repetir. De cara tapada, dezenas de agentes fecharam toda a zona do Cais do Sodré proibindo o acesso e a saída das pessoas sem prévia identificação, algumas revistas e uma ou outra bastonada a quem oferecesse a mínima resistência. Dentro dos bares e quem exigisse a identificação do responsável pela operação conseguia, depois de alguma insistência, apenas um nome: Eduardo Manuel Nunes Carvalho, com o número de identificação 131446, sendo depois empurrado para fora do estabelecimento com ameaças vedadas em surdina pelos restantes agentes de cara tapada: “Tá a andar”; “Sai daqui antes que te arrependas”. A operação não se saldou em mais do que na apreensão de meia dúzia de gramas de haxixe ou cocaína e o fecho compulsivo, antes mesmo das três da madrugada, de toda esta zona da cidade. A prática promete continuar a acontecer sem razão aparente, às mãos da polícia e completamente fora da lei. Quem ordena este disparate com os nossos impostos? O que têm a dizer as autoridades políticas, nomeadamente a Câmara Municipal de Lisboa e o Ministério da Administração Interna?

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15 respostas a Ilegalidade à solta na noite de Lisboa

  1. a anarca diz:

    essa ilegalidade chama-se Rusga 🙂
    As ilegalidades tornadas legais por uma qualquer portaria passada pela assembleia incomodam mais !

  2. l c diz:

    Os seguranças do cais sodré há muito que estão associados a práticas nojentas, agridem gratuitamente os clientes sem mais nem porquê, as histórias que oiço são muitas e de variada índole. São também muitos os que se recusam a ir ao cais dado o nível a que chegou. É curioso que quanto a isso nem uma palavra.

    E acho muito engraçado o comentário que se ficou por umas gramas, como se isso fosse um argumento que não vale a pena a polícia ir ao cais, porque nada de ilegal se passa…Olhe se é cliente habitual daquelas paragens, como eu fui, dê graças por estas intervenções, protegem-no mais do que possa pensar. Acho muito bem que a polícia tenha intervido e finalmente começar a “comunicar” que está atenta ao cais sodré.

    The machine não é só a polícia quando prepotente, é também este pequeno crime nojento que pontifica pela cidade sem uma palavra sua.

    Não vi nada de ilegal no seu relato.

    • Renato Teixeira diz:

      Quem conta com a polícia de intervenção para o defender dos seguranças não podia ver nada de ilegal no fecho compulsivo do espaço público, no uso desnecessário da força ou na ameaça física e verbal.

      • l c diz:

        Ia contar com quem? consigo? com os mil que fogem quando se agride alguém sem mais? Quem é que me defende diga lá. Não fuja a perguntas concretas, sff. Há mais de um ano que ouço relatos de agressões, usos e abusos de violência desnecessária, e ainda não ouvi ninguém dizer que tinha sido defendido.Como é que o senhor propõe que se faça.

        Desnecessário diz você, pelo que me dá a entender, não houve violência nenhuma, pequenos desaguisados naturais quando se é obrigado a controlar uma multidão, para mais com muitos deles bebidos.

        E muitas conclusões tira você de poucos factos…

        • Renato Teixeira diz:

          Se os seguranças abusam da autoridade não é preciso uma rusga para os prender. Isso parece-me óbvio. De resto, falta profundidade ao seu raciocínio. Esquece que boa parte dos seguranças já foram polícias e boa parte deles se conhece; há cumplicidade entre ambos no exercício da violência e variadíssimos abusos de autoridade. As pessoas que se vão divertir não vão além, na pior das hipóteses, de delitos comuns, que à imagem da violência dos seguranças não precisa de ver uma zona da cidade evacuada.

          O tipo de operações que virou rotina na noite de Lisboa apenas teria cabimento, do ponto de vista legal, se fosse feita no marco de uma operação que vise o crime organizado em vários dos ramos dos seus negócios.

          Ao que se sabe, nenhuma destas rusgas teve esse objectivo ou produziu detenções importantes em matéria criminal.

    • susana diz:

      não entendo a sua menção aos gramas encontrados e à relação estabelecida com crime. não só já não é crime consumir haxixe, como, presumindo que as pessoas também bebem alcool no cais do sodré, este, quanto muito, poderia estar na origem de desacatos ou violência. não se conhecem histórias de actos violentos motivados pelo consumo de canabinóides, ou mesmo cocaína, a outra substância referida.

  3. Estou em crer que de vez em quando akele ministro de qualquer coisa quer mostrar que ‘existe’, e então dá umas ordens destas, a ver se as forças não morrem de aborrecimento.
    Depois eles vão, o comando não deve ser grande coisa, e é a granel, disparate.
    🙁

  4. fernando almeida diz:

    Se fosse na Venezuela era repressão e brutalidade, aqui na “democracia moderna” é pela paz e segurança social
    È preciso ser muito paranoico e u grande saloio para se preocupar com uns gramas de haxixe e não ter medo com a presença e manuseamento de armas de guerra.

  5. l c diz:

    Isto é lindo. E só comprova a tese de que só se vê o que se quer. Nunca eu disse que consumo de haxixe era crime, o que disse é que não é por só se apanhar umas gramas de haxixe que não há crime. Coisa completamente diferente. E não sei em que realidade vivem mas na minha,malta com copos, com ou sem canabinóides, e com polícia à mistura dá quase sempre confusão.
    Quanto ao fernando almeida aplico o mesmo, cada um vê o quer. Venezuela? democracia moderna? nem sei do que fala, meu caro. Sou orgulhosamente saloio de calos das mãos; antes isso que urbano cosmopolita, com manias de pós-moderno, óculos de massa preto, designer gráfico e cheio de ideias sobre o que os outros são.

  6. Repressao Policial diz:

    Tenho de concordar com o LC neste assunto…

    Operacoes policiais na noite Lisboeta deviam ser bastante mais frequentes. O que nao se pode tolerar e’ que numa sociedade democratica e livre o comum dos mortais nao possa sair para a noite de Lisboa sem medo de ser assaltado ou espancado impunemente, seja por segurancas ou outros demais criminosos que abundam nessas zonas.

    As caras tapadas que aqui foram criticadas servem para proteger os agentes da autoridade de represalias de gangs e criminosos da noite. E’ o minimo que podem fazer dado que o Estado nao lhes garante subsidios de risco nem proteccao social em condicoes e quando sao abatidos a tiro nessa mesma noite de Lisboa para proteger os direitos e liberdades de todos nos sao as suas familias e filhos que ficam neste mundo ao abandono.

    E’ muito facil atirar uns bitaites para o ar e apelidar uma accao de vigilancia de repressao policial, o que se torna mais dificil e’ entender que a vida em sociedade nao se trata de opcoes claras de Sim ou Nao ou de Bem ou Mal, mas sim de um conjunto de compromissos inter-ligados com diferentes consequencias.

    Neste caso falamos em comprometer a liberdade de sair durante uma noite no Cais do Sodre ate depois das 3AM para fiscalizar bares, apreender substancias ilicitas (inclui garantir que aquilo que pedem nos bares nao esta adulterado), fiscalizar os ditos segurancas e deter eventuais criminosos.

    Nao me parece um mau compromisso quando se pesa a balanca dos pros e contras… E se realmente insitirem em nao ter fiscalizacao na noite de Lisboa, posso sempre dar-vos umas dicas de alguns bares onde a policia nunca vai e apenas vos posso desejar boa sorte nas vossas saidas…

    • subcarvalho diz:

      Se não estivesse ainda de ressaca de fim-de-semana (foi realmente duro), já me tinha mijado a rir de tanto disparate e populismo demagogo.
      LC, das duas uma, ou faz copy/paste do que escreve ou sofre de ilitracia aguda. Ora explique lá a pérola que aqui nos deixou…não é crime consumir haxixe mas não deixa de haver crime se for apreendida pouca quantidade de haxixe…mas então como é que eu posso fumar haxixe sem ter na minha posse haxixe? Gostava mesmo que me explicasse bem isso porque me daria imenso jeito consumir sem ter que comprar para ter!
      Mas como é que esta gente se sente segura quando são criminosos a fiscalizar outros criminosos?…para mais com as caras tapadas. Este sr. repressão policial é bófia de certeza absoluta. E deve ser daqueles que retira a chapa com o nome quando precisa de bater em alguém. E fá-lo não para evitar ser identificado pelas vítimas do seu abuso autoritário mas sim para se defender de represálias…e não será isso a mesma coisa? Não tenho eu, segundo a própria constituição da república, direito a defender-me, mesmo recorrendo a formas violentas, em caso de agressão, mesmo que seja da autoridade?
      Interessante que não há nenhuma revolução mundial em que a polícia esteja do lado dos revoltosos. E quando estas entram na fase de vitória são os primeiros a desparecerem de cena. A explicação é fácil, idependentemente do sistema implantado essa gente é simplesmente pau-mandado de quem detém o poder, político e financeiro, e jamais defensores da população civil.
      Porcos-nazis!

  7. José diz:

    “O tipo de operações que virou rotina na noite de Lisboa apenas teria cabimento, do ponto de vista legal, se fosse feita no marco de uma operação que vise o crime organizado em vários dos ramos dos seus negócios.”

    Isso é um tremendo disparate!
    Seja por ignorância, seja por simples má-fé, são afirmações que um jornalista, mesmo num blog, não deveria fazer. Mancham a sua credibilidade.

    Não me parece que o problema seja a rusga em si, antes a(s) forma(s) como foi feita, as pequenas prepotências individuais, as ameaças veladas, os insultos sussurados.
    Isso resolve-se com a assunção da cidadania, ou, por outra forma, queixando-se formalmente. Fê-lo?

  8. Repressao Policial diz:

    Caro subcarvalho,

    A bem da honestidade intelectual aqui fica o que o LC inicialmente disse:
    “E acho muito engraçado o comentário que se ficou por umas gramas, como se isso fosse um argumento que não vale a pena a polícia ir ao cais, porque nada de ilegal se passa…”

    Ao que o Sr. comenta:
    “Ora explique lá a pérola que aqui nos deixou…não é crime consumir haxixe mas não deixa de haver crime se for apreendida pouca quantidade de haxixe…mas então como é que eu posso fumar haxixe sem ter na minha posse haxixe? ”

    Sugiro entao que passe a fumar menos ja que nao consegue perceber a construcao logica de uma frase bastante elementar…

    O sentido estrito da frase e’ o seguinte: Apesar de a policia apenas ter apanhado umas gramas de uma substancia legal neste pais, isso nao implica que se deixem de fazer as ditas rusgas, dado que outras actividades, desta vez ilegais, se practicam na mesma zona.

    Quanto ao seu desprezo pela policia, espero que nunca se veja numa sociedade em que a policia esteja ausente… As velhas teorias de Mikhail Bakunin sao absurdas e utopicas e as revolucoes mundiais muitas vezes deram origem a estados policiais brutais. Veja-se o caso da revolucao bolchevique de 1917, o caso da revolucao Cubana de 1959, o caso da revolucao Chinesa de 1949, o caso da revolucao islamica de 1979, etc. etc. etc.

    Por isso, contrapondo ao que diz, nas maiores revolucoes mundiais, foi precisamente a policia que apareceu em cena apos a vitoria dos revoltosos, prendendo, torturando e espiando o povo que se revoltou em prol da ditadura que se instalou…

    • subcarvalho diz:

      Mais uma vez explique lá porque razão o LC, e você agora, já que defende a forma com ele escreveu, junta as gramas de uma substância legal com prováveis crimes? Parece-lhe bem que eu diga: “após uma rusga policial a uma bairro, foram detectados vários indivíduos com idade inferior a 6 anos, todos juntos a chutar violentamente contra um objecto esférico e berrando compulsivamente
      à medida que desferiam golpes sucessivos no referido objecto. Além disso foram detidos várias pessoas na posse de armas proibidas.” Tem a bola que ver com a perdigota! Não tem. Quanto a honestidade intelectual, estamos conversados.
      Quanto a fumar, confesso que já me deixei disso. A ganza que por ai anda é de muita fraca qualidade. Agora só para o próximo verão é que rebentarão as belas sementes de liamba.
      Quanto a revoluções, os exemplos que dá inserem-se, quanto a mim e da forma como concebo o que é revolucionário, numa lógica de contra-revolução. No período concreto da revolta a merda da bófia é a primeira a desaparecer de cena. Viu-se isso por cá, em 74, e vê-se isso agora nos países árabes.
      Só concordamos numa coisa, nos processos contra-revolucionários, são os primeiros a aparecerem…é como as ervas daninhas, não servem para nada mas crescem que nem cogumelos.
      Quanto à utopia ser um absurdo, segundo as suas palavras, respondo-lhe com as palavras sábias de Eduardo Galeano: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”

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