Mais uma pecinha no está tudo mais ou menos como está

Há uma canção que diz que vivemos num mundo parvo porque para se ser escravo é preciso estudar. Diz ainda que adiamos os maridos e filhos, que além disso há o carro para pagar. Diz que há pior na TV, que temos que viver na casa dos pais, que se é um parvo porque se aceita viver assim. Termina com um apelo: ‹‹Sou da geração “já não posso mais” / que esta situação já dura há tempo demais››, mas rapidamente termina com a grande constatação que para se ser escravo é preciso estudar.

Além da canção não dizer rigorosamente mais nada (para além do nada que diz), há aí vários problemas. Não é preciso estudar para se ser escravo, é-se escravo de qualquer forma, estudante ou não estudando, trabalhando ou não trabalhando. A defesa dos trabalhadores que estudaram, que têm uma licenciatura, um mestrado ou um doutoramento não pode ser isolada porque a questão não se esgota aí.

Custa-me um pouco compreender que esta canção, que ainda por cima é fraquinha à brava, entusiasme tanta gente na esquerda, como se fosse propriamente progressista sendo completamente reaccionária: geração, família, ficar a pensar, parva. Pum!

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15 respostas a Mais uma pecinha no está tudo mais ou menos como está

    • Youri Paiva diz:

      O que? O Jel?

      Mas já respondo a isso com a congregação e a mobilização que se vê.

    • Renato Teixeira diz:

      Uma canção que só tem esses dois méritos pode merecer merecer aplausos (e tantos que teve mesmo que quem quer tudo menos mobilização), mas não pode se calhar ser chamada de canção.

      • antónimo diz:

        A Cantiga é uma Arma terá sido desclassificada num festival de canção revolucionária, quando os jurados se aperceberam da letra: A Cantiga é uma arma/Eu não sabia “. Um verdadeiro revolucionário deveria saber que a cantiga é uma arma. Ana Bacalhau já admitiu que foi um acaso.

        Talvez Foder, motivou muita gente, contra Cavaco, a partir de 1993/1994. Assim saiba ser usada, pelo menos já motivou resposta em sátira dos Homens da Luta.

        • Youri Paiva diz:

          ‹‹Tudo depende da bala e da pontaria››. Não é assim tão inocente.

          Mas o problema não é só aquilo não dizer nada, é o pouco que dizer ser pouco interessante e mesmo perigoso, ser para andar para trás. Nem o ‹‹Talvez Foder›› do Abrunhosa era assim, pegava numas questões sem lhes dar grande sentido, deu-lhe um refrão que ninguém se esquece, e está feito.

          • Antónimo diz:

            continuo a achar que pode congregar e mobilizar certos sectores alienados. alias, note-se que ninguém aplaudiu a parte da letra onde se fala em casar. ver onde há aplausos não é irrelevante.

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  2. AA diz:

    Penso que a brincar a brincar, os Homens da Luta fizeram uma canção em que existe verdadeiramente ACÇÃO, por oposição à dos Deolinda que se fica pela CONSTATAÇÃO. Pode não ser propositado, mas adorei ver a canção-resposta.

  3. Pedro Lourenço diz:

    gosto mais desta versão com Tom Morello e Layne Staley

  4. Von diz:

    Post vazio, tão vazio… Ah, e estou à espera da sua canção, Youri.

  5. Justiniano diz:

    Sem dúvida, caro Paiva!! Apenas mais uma manifestação da plena apreensão e consagração das aspirações liberais burguesas, construenda de uma burguesia proletarizada!! Brotam com tanta naturalidade!!

  6. Von diz:

    E essa da família ser reaccionário. Depreendo que no seu caso tem agregado, não família. Às vezes, à força de criar anti-corpos por vocábulos, tudo se torna tão ridículo.

    • Youri Paiva diz:

      Não é ter familiares que é reaccionário. Mas a exaltação da família como objectivo primordial não me parece propriamente progressista.

      O meu problema é achar-se que esta canção é uma coisa que não é: progressista e interventiva. É preferível não a discutir, não discutir essas ideias, porque constata a existência de trabalho precário entre os que têm um curso e ficamos contentes com isso.

  7. Von diz:

    Ah bom. Estamos de acordo. Ter como objectivo algo que deve ser acima de tudo natural e até optativo, não deverá ser o objectivo colectivo. Mas apesar de tudo, neste país tão pobrezinho em matéria de intervenção, nomeadamente no mundo das artes, qualquer canção, e trata-se efectivamente de uma canção, que agite seja o que for é sempre bem-vinda.

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