Um mau pressentimento

Ouvindo Mubarak, fiquei na dúvida sobre se se tratava de uma fuga em frente, ou se ele tinha recebido um balão de oxigénio dos militares. O que em nenhum dos casos seriam boas notícias.

O discurso de Suleiman, mesmo que ainda mais eivado de tiques de PIDE do que o do presidente, parece indicar a segunda hipótese.

Tudo isto me inquieta, apesar do comunicado das Forças Armadas.
Mas se até aquelas duas alminhas falam da concretização das “exigências da juventude” (como se estas e os protestos não fossem contra eles) como ler o comunicado que, antes destes discursos, parecia tão claro, apesar das suas veladas ambiguidades?

Como nada disto parece aceitável para quem protesta (os únicos que interessam, pois nunca tive vocação para treinador de bancada de revoluções alheias), cheira-me desagradavelmente a sangue nas ruas.
E é uma daquelas alturas em que desejo ardentemente estar enganado.

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5 respostas a Um mau pressentimento

  1. Renato Teixeira diz:

    O que quer precisamente dizer “revoluções alheias”?

    • paulogranjo diz:

      Touché!

      Mas alego em minha defesa que, apesar das simpatias, solidariedades, internacionalismos, empenhos emotivos e interdependências globais e glocais, as revoltas e revoluções que os outros fazem (com as suas motivações e objectivos, com as suas avaliações do que se justifica arriscar, do que deve ser feito e como deve ser feito), seja lá longe ou mesmo estando eu presente, são deles – a menos que tenha a vontade, oportunidade e aceitação da sua parte para me envolver directamente e também eu arriscar.

      Um pouco como, num paralelo a uma escala completamente diferente, um jogo de futebol de uma equipa da minha simpatia é jogado e decidido por quem o joga, independentemente da minha simpatia e identificação com uma das partes. Durante e no fim, não sou eu quem ganha ou perde; sou apenas alguém que se alegra ou entristece com o resultado e com a forma como ele foi obtido.

      E a minha opinião sobre como as coisas podiam e deveriam ser, embora legítima, é tão irrelevante para o que realmente interessa (a revolta ou revolução, ou o jogo de bola – que os outros fazem) num caso como no outro.

      • Renato Teixeira diz:

        Quem faz a história é quem a faz, evidentemente. Mas ela a todos pertence e todos temos com ela responsabilidades. O que lhe damos e o que demos colhemos faz do processo histórico um processo colectivo. Herdamos tanto da libertação dos escravos, como dos ventos de 1917 ou do 25 do quatro. Receio que tenhamos noções diferentes de internacionalismo.

  2. iskra diz:

    Hello? O Mubarak Obama é quem ordena! Hello?

    • paulogranjo diz:

      Creio que, felizmente para todos nós que queiramos um mundo diferente, as coisas são um pouco mais complexas do que isso.
      Num duplo “felizmente”. Também porque, se fosse como diz, mais valia estarmos quietos.

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