A propósito da recente polémica (ou troca de imbecis “mimos”) entre vários de nós sobre um “ente sagrado” da nossa academia, começo a pensar-me farto, fartíssimo e esgotado, da grandiosidade típica de certos currículos tuga

É aquela situação mais do usual e banalizada de eminentes bolseiros, e não me refiro agora a ninguém em particular, mas isto foi foi despoletado sabe-se bem por quê e por quem, ou pela reacção de quem, é aquele situação, repito, que faz com que alguns reservem três, quatro ou cinco linhas (ou mais) do seu Currículo para a menção da praxe com quem “estudaram” (às vezes por um dia, por umas horas, por um ano – e que seja, ou fosse, um ano – E DEPOIS??).

É aquela fatídica menção:

“…bolseiro de XXXX em XXXX, onde estudou com XXXXX” (supõe-se que alguém aparentado com Cristo na terra).

Às vezes surgem listas de três ou quatro vedetas, essas sim, com efeito, com obra (que mereça ser chamada “obra”). Por vezes, ainda com mais descaro, o tuga diz-se “discípulo de….”, Karajan (?!), por exemplo.

Isto é o retrato da nossa vileza apagada e mediocridade, digamos, pouco potentezinha.

UMA EXCEPÇÃO E UMA LIÇÃO

Mas há excepções: por exemplo, uma Paula Rego, a quem serão amanhã outorgadas as insígnias de Doutora Honoris Causa pela Universidade de Lisboa, numa proposta da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa (FBAUL), sendo a artista (que eu não preciso de apresentar, como não precisaria de o fazer nem em Madrid nem em Londres…) elogiada pelas minhas colegas de trabalho Isabel Sabino e Luísa Arruda (Aula Magna, amanhã, sexta, 14h). E da bio ou do currículo de Paula Rego (pense-se o que se pensar da pintora, prefira-se mais umas do que outras séries de obras, e eu tenho as minhas próprias leituras) não consta nela esta “tuguice” de “em XXXX, estudou com…, em YYYY estudou com…. ” – ora, sabe-se apenas que conheceu Dubuffet (que eu muito admiro também), o que a marcou muito – e chega!! Chega, OK?? (Está bem, está bem, estudou na Slade, tinha de estudar em algum lugar, não?? Mas esta não é a cereja em cima do bolo – a cereja é a obra.)

PAULA REGO. “Swallows the Poisoned Apple”. 1995.

É que para além de ter “estudado com….” em KKKKK, interessa-me saber quem é o indivíduo, o que faz e como faz. E intocável não é de certeza. Nem a Paula Rego o é. E, como ironizava em tempos Umberto Eco, nem o Dante!

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7 respostas a A propósito da recente polémica (ou troca de imbecis “mimos”) entre vários de nós sobre um “ente sagrado” da nossa academia, começo a pensar-me farto, fartíssimo e esgotado, da grandiosidade típica de certos currículos tuga

  1. Não sabia dessa piroseira dos currículos, é uma ridicularia…
    Adoro as coisas da Paula Rego, e não é por termos sido vagamente vizinhos (ela tinha casa no Estoril).
    Em Londres há um painel fabuloso dela creio que em azulejo azul-e-branco na cantina de um museu…

    • Carlos Vidal diz:

      Caro amigo James Cook, ou major,

      Esta piroseira dos currículos é de uma frequência intragável.
      Passam-me pelas mãos quase dia sim, dia sim.
      Poderíamos dizer: “somos nós, somos assim, somos portugueses”.
      MAS não é verdade. É verdade para um tipo como Miguel Vale de Almeida que há tempos fez um post sobre o elogio da mediocridade e da “decência”.
      Mas não é verdade para quem pensa ou trabalha a sério.

  2. Não te referes agora a ninguém em particular, mas afirmas que “isto foi foi despoletado sabe-se bem por quê e por quem, ou pela reacção de quem”. Um pouco à Octávio Machado, não?

    • Carlos Vidal diz:

      Um pouco à Octávio Machado, confesso.
      E não precisava de confessar, está lá o link.
      E não só o link, mas também o próprio título do post.
      E sobre o conteúdo do post, alargadamente (como eu gostaria que as coisas fossem vistas e lidas), nada a dizer?

  3. Mais um merecidíssimo reconhecimento, desta vez com o doutoramento Honoris Causa !

  4. Niet diz:

    Oh. Carlos Vidal, parece que tem medo das especulações maldosas sobre as nossas cumplicidades gastronómicas, ombre! Eu não tenho partido e, como Mattick ou Castoriadis me ensinaram, uma revolução a sério não precisa de carcans burocráticos hierarquizados… Além de termos dois amigos comuns, dos grandes e de coração, do meu lado com mais de 40 anos, sabemos honrar o diálogo, a diversidade e partilhar os esforços demiúrgicos para transformar a doxa portuguesa, cheia de duplicidades e aporias escatológicas inenarráveis. Mesmo onde menos se esperava: s provas estão em cima da Net. Bom, mas adiante. Encontrei um livro que, certamente lhe irá ser muito útil, sobre a arte e Georges Bataille: Aí vai: ” La Ressemblance informe ou le gai savoir visuel selon Georges Bataille, par Georges Didi-Huberman, Paris, Macula, 1995. Salut! Niet

    • Carlos Vidal diz:

      Tenho o livro, meu caro. Para mim, era obrigatório tê-lo:
      “L’esthétique qui s’y fait jour est paradoxale en ce qu’elle déplace les problèmes traditionnels do goût vers ceux du désir, de la beauté vers ceux de l’intensité, et de la forme vers ceux de l’informe. Mais l’informe n’est pas refus de la forme”.

      A frase-chava é a última.
      O informe bataileano não nega a forma, em nada se assemelha ao informalismo (Michel Tapié). Porque a ausência de forma reinstitui a forma (mesmo de modo clássico). O informe batailleano é uma forma estética que se autocorrói, mas que, como tal, se apresenta como FORMA.
      Veja a pintura do francês Fautrier, ou de Pollock. Ou a fase tardia (Piss Paintings e Oxidation Paintings) de Andy Warhol, certo?
      Está aqui tudo.
      Isto teve impacto nos EUA.
      Leia, de Rosalind Krauss (que casou com o batailleano Hollier), “The Optical Unconscious” (MIT Press). Está tão desenvolvido quanto o Didi, e avança mais na actualidade. E, mais importante, propõe-se uma revisão da arte do século XX (que a Krauss fez no Pompidou: “L’informe – mode d’emploi”).
      Fascinante história esta.

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