Ou há democracia…

Para acabar de vez com a “conversa de merda” (Zé Neves dixit, leia-se aqui, aqui e aqui): se há erro que o Bernardino Soares tenha cometido, foi o de tentar dar uma resposta bona fide à pergunta que lhe foi feita e dar troco à conhecida questão da Coreia do Norte, porque cá para mim ele devia pura e simplesmente ter dito que só respondia a isso no dia em que os mesmos jornalistas, no acto de entrevistar Francisco Assis, lhe perguntassem também, a título de apresentação de credenciais, se a Tunísia, o Egipto ou a Costa do Marfim, dirigidos por partidos-irmãos da Internacional Socialista, deviam ser considerados democracias (bona fide de certeza, mas demasiado, infelizmente).

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SEXTA | António Figueira
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11 respostas a Ou há democracia…

  1. Miguel Lopes diz:

    Um pouco a despropósito do post, mas só para que se perceba a canalhice daquela gente, copio para aqui o que deixei numa caixa de comentários do vias de facto.

    É mentira que os partidos dos ditadores Mubarak e Ben Ali tenham sido expulsos da Internacional Socialista. De acordo com os estatutos da mesma, só o Congresso por maioria de dois terços pode votar a expulsão dos seus membros.
    Portanto o comunicado da Internacional Socialista é falso, viola os seus próprios estatutos e pretende apenas salvar a face!

    Estatutos:

    5.1.3 Expulsion of Parties

    Decisions to expel parties and organisations from membership may be taken ONLY by the Congress by a majority of two-thirds of parties voting.

    (http://www.socialistinternational.org/viewArticle.cfm?ArticleID=27)

    Comunicado da Internacional Socialista em relação ao RCD:

    “A decision has been taken by the President together with the Secretary General, in accordance with the statutes of the Socialist International, to cease the membership of the Constitutional Democratic Assembly (RCD) of Tunisia.”

    (http://www.socialistinternational.org/viewArticle.cfm?ArticleID=2085)

    Em desacordo com os estatutos melhor dito, porquanto estes são claríssimos quando dizem que SÓ o Congresso tem poder para isso e não o Presidente, nem o Secretário-Geral.

    Carta ao NDP assinada pelo Secretário-Geral Luis Ayala:

    “We are, as of today, ceasing the membership of the NDP”

    http://www.socialistinternational.org/images/dynamicImages/files/Letter%20NDP.pdf

    Também viola os estatutos como o outro comunicado

  2. rui david diz:

    A mim parece-me um bocadinho hipócrita tentar ignorar que as ligações dessa gente à IS são resquícios de uma época em que os partidos socialistas ainda eram “de esquerda”, ou pelo menos minimamente “de esquerda”, e esses regimes, alguns também se reclamando do “socialismo” e até namorados pelo “farol”, sem grandes escrúpulos dos que agora inflamam os corações puros dos seus nostálgicos, apareciam assim a modos que como mais “moderados”, o que não deixará, de certa forma, de ser verdade se os compararmos com a Coreia do Norte, ou um Cambodja polpotiano. O que falhou aqui, por razões umas mais venais, outras de puro oportunismo político, outras por puro e simples desleixo, foi determinar o momento certo para a ruptura. Qual foi o “momento certo” em que o Egipto passou a ser uma “ditadura”? Quando o Sadate fez a paz com Israel? E o que terão ou teriam os egípcios e as suas “liberdades” a ver com isto? Chegados aqui, o que dirá um PS, um Assis, por exemplo, bona fide? Que o Egipto é uma democracia?
    E o que poderia responder um socialista quando (ainda não refeito do ressentimento do choque da opinião pública por essa atroz resposta provocasse um pretextozito qualquer para um desforçozito que mesmo que deixando o essencial intocável permitisse um desagravo tipo adepto de um clube de futebol, aos seus simpatizantes) alguém insistisse na perguntinha? Que só responderia quando o Bernardino esclarecesse a questão da Coreia?
    Andamos assim às voltas… afinal, bona fide ou não, cumplicidades da Internacional Socialista ou não, birrinhas de crianças ou não, o que é que se faz com a Coreia do Norte? Só se condena quando for condenado preto no branco o Egipto e que nunca teria merecido ser condenado enquanto o status quo se mantivesse no Norte de África? Só se condena quando o Sócrates for condenado à morte? Ou não? Até lá, ou mesmo depois, há certeza ou há dúvidas de que não se trata de um regime democrático?
    É que a recíproca também é verdadeira: se é possível contestar a posição de alguém que classifica a Coreia como antidemocrática mas contemporiza com o Egipto, o que fazer com quem se indigna (justamente) com a ditadura egípcia (pelo menos desde que fez a paz com Israel) e a forma como esse regime ( e outros) é tolerado pela Internacional Socialista, mas tem dúvidas de que a Coreia do Norte seja um regime antidemocrático e nalguns casos chega a ignorar, ou pelo menos menorizar a importância do Gulag soviético?

    • António Figueira diz:

      Rui David,
      Temo que as suas muitas linhas possam ser resumidas a três ou quatro: ou há democracia, ou comem todos (título do post), não pode haver dois pesos nem duas medidas, quem pactua com a imoralidade não pode armar-se em moralista nem muito menos dar lições de moral, a imprensa não pode exigir credenciais democráticas a uns e ignorá-las quanto a outros – e se exige, é mandá-la passear (dito isto, não fica certamente à espera que eu responda à sua pergunta final, pois não?)

  3. Estou completamente de acordo com o rui d., mas também para mim seria difícil não estar, até por razões que não são p’ra aqui chamadas.
    😉

    Contribuição musical que vos possa eventualmente ter passado despercebida:

    • António Figueira diz:

      Então, para não haver 2 pesos e 2 medidas, leva com a mesma resposta… 😉 (essa de invocar “as razões que não são p’ra aqui chamadas” é o expoente máximo da fine art of arguing, só ao alcance de um democrata com imenso pedigree)

  4. rui david diz:

    James estás à vontade para me dar na cabeça ao mais pequeno desvio da linha.
    Quanto à discussão, depois de eu ter considerado justas as críticas à internacional socialista pelas razões que foram feitas… não percebi a recusa da resposta (se bem que “comem todos” seja de algum modo a reacção de alguém que sente que “comeu”, naturalmente não gostou e agora não aceita ficar só nessas circunstâncias, sobretudo quando sente que outros fizeram “o mesmo”).
    A não ser que se parta do princípio de que eu apoio ou apoiei a ditadura egípcia. Ou que conheço alguém que apoiou. Ou que pensou apoiar. Qualquer um, com efeito, pode imaginar isso. Quanto mais não seja, pode imaginar que apoiei “objectivamente….” o que na realidade acontece a todos os europeus atrever-me-ia a dizer, independentemente da sua vontade. Ou outra coisa qualquer.
    Ou pelo facto de determinados interessados não responderem ou não aceitarem determinada crítica tudo se tornar um tabu.
    O que nos leva a uma interessante situação: eu só respondo ao que quer que seja se conhecer bem a vida de quem me faz uma pergunta e se confirmar que essa pessoa é moral e politicamente irrepreensível ou, no mínimo, que me estão a fazer uma pergunta mas existem outros a quem a pergunta pode ou deve ser feita e preferivelmente já respondeu.
    Dito de outro modo, só respondo a quem eu reconhecer seriedade moral e política ou se outros já responderam e eu achei a resposta satisfatória.
    E a quem é que eu reconheço seriedade moral e política? Bom… tal como o post, anda-se em círculos. Assim, a minha resposta à pergunta sobre a Coreia do Norte (ou o Egipto) não depende de mim. Depende dos outros. Se já responderam, o que é que responderam… É uma resposta meramente táctica. Quanto a responsabilidades políticas? É cada um “na sua”.
    Repare-se a propósito, que a resposta do Bernardino, pelo menos, teve o mérito de ter sido uma resposta politicamente séria, por mais que isso choque a opinião, sensibilidade, etc de diversas pessoas (eu por exemplo). Politicamente séria porque expõe ao debate a opinião dele sobre determinado assunto. O pressuposto e a consequência é que Bernardino tem uma justificação à luz dos seus princípios políticos e honestamente pretende defendê-los e ao defendê-los encara de frente o que ele acha que são ideias erradas que devem ser combatidas. Ao passo que isto…

  5. rui david diz:

    e quem dá o que tem…

  6. Leo diz:

    Qual foi o crime de Gbagbo? Ter sido vítima duma tentativa de golpe de estado em Setembro de 2002 e ser presidente democraticamente eleito da Costa do Marfim desde Outubro de 2000? Ter sido perseguido por Chirac e Sarkozy?

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