Da instrumentalização à negação.

A propósito da moção de solidariedade do BE com a luta pela democracia no Egito, o deputado João Galamba terá escrito um post, a que já só com muito esforço se pode arrancar o prémio de cara-de-pau do ano, e a que o Zé Neves já deu resposta adequada. A Irene Pimentel, com um bocadinho menos de lata e de arrogância, resolveu também censurar a moção do BE, com o argumento de que mais não era do que uma instrumentalização da luta do povo egípcio. Vale a pena ler e discutir o post da Irene, porque condensa uma série de ideias, más ideias, que povoam os discursos e as representações sobre as actuais revoltas nos países do Norte de África, e as suas eventuais (não)-relações com outras lutas, noutros lados.

Para começar, fica-se sem compreender porque raio é que a expressão pública de solidariedade com a luta dos egípcios é uma instrumentalização. Do post da Irene depreende-se que a única relação não-instrumentalizante para alguém que está longe das ruas do Egito é fazer como ela e ficar em casa a ver os acontecimentos pela televisão. É verdade, a Irene também fala da manifestação que houve ontem, mas essa, embora pública, parece que não é instrumentalizadora. E porque é que a moção parlamentar é? Porque é avançada por um partido? Porque o BE aproveitou para lembrar, e bem, a cumplicidade da Internacional Socialista com os regimes que só se lembraram de condenar na hora da sua desonra pública? Isto sim, é que é uma atitude instrumentalizadora, a que a Internacional Socialista e os partidos que a compõem teve com os plutocratas da Tunísia e do Egipto. Enquanto serviram, deixa-os estar cá ao pé, agora que estão prestes a levar um pontapé, saiam da foto de família que nos deixam ficar mal!

Mais concretamente, pode ser instrumento de quê, uma tomada de posição pública como a do BE, e de tantas outras, dentro e fora das forças partidárias, na solidariedade com estas e outras lutas? A ideia de instrumentalização arrasta consigo a suspeita de que se está a mobilizar aquilo que se instrumentaliza para fins próprios, ou melhor, e a julgar pelo tom de censura de Irene Pimentel, para fins impróprios. Ora, esta ideia de instrumentalização pressupõe uma posição pura, não instrumentalizante, face aos acontecimentos que nos rodeiam, que só pode ser a posição do espectador (eu sei, a posição do espectador tem muito mais que se lhe diga, mas vamos deixar agora o Rancière entre parêntesis, onde aliás o estou a pôr), e daquele que emite a sua opinião pessoal, mais ou menos informada sobre o assunto. E é justamente isso que a Irene faz, ao deixar-nos as suas nota pessoais, emocionais e impressionistas sobre o que se passa na rua árabe (parece-lhe o 25 de Abril, está preocupada com os fundamentalistas, etc., etc.).

O que me parece, é que a Irene condena a apropriação para fins políticos do que se passa na rua árabe. O problema da instrumentalização é sempre o dos fins para os quais aquilo que se instrumentaliza serve de instrumento. E neste caso, temos de distinguir as boas das más instrumentalizações, o que depende, é claro, do nosso ponto de partida político que, no meu caso, é bem diferente do de Irene. Sendo assim, não me repugna que as revoltas do Egito e da Tunísia sirvam para denunciar a hipocrisia da política de alianças internacionais do Partido Socialista. O exemplo de uma instrumentalização absolutamente condenável é o que se tem feito do défice das contas públicas para destruir o pouco que resta do Estado Social, e para procurar um novo reequilíbrio das forças de classe, mais uma vez a favor do capital.

Mas há aqui uma outra questão, porventura menos visível, e que percorre o texto da Irene, como percorre tantas outras análises sobre as revoltas recentes no Egito e na Tunísia, e que tem a ver com a sua agenda política, portanto, e de certa forma, com a tentativa de imposição de um quadro de leitura destas e doutras lutas. Este quadro de leitura é determinante dos usos políticos que se podem ou não podem fazer do que se passa no Norte de África, e portanto das instrumentalizações possíveis desses acontecimentos. E esse quadro de leitura pode, simplificadamente, resumir-se assim: as revoltas do Norte de África são lutas contra a ditadura e pela democracia, entendendo-se aqui democracia como a escolha, em eleições livres e directas, dos representantes que vão governar os representados. São portanto lutas com o objectivo de mudar a natureza do regime de governo, e portanto devem ser lidas e entendidas no contexto que é o de um regime de governo: no contexto de um espaço nacional. Nesta narrativa, a ameaça que se apresenta é a da hipótese da tomada do governo pelos fundamentalistas, e da possível instauração de um regime teocrático (vale a pena ler este artigo do Zizek, a propósito da invocação recorrente dessa ameaça). Por isso a frequente referência ao binómio regime-oposição como chave de leitura do que se está a passar.

O que este quadro de leitura escamoteia é aquilo que a rua árabe pode ter em comum com outras lutas recentes, em Moçambique, na Grécia ou em França, e que têm a ver com um descontentamento e uma vontade de transformar que ultrapassa em muito a questão do regime de governo, e que tem menos a ver com derrubar governos e mais a ver com derrubar a própria governabilidade (um agradecimento ao André Dias por esta formulação). Num momento em que se assiste à egiptização dos países da Europa, porque raio é que os egípcios haveriam de querer uma europeização do Egito? Porque é menos mau? Poupem-nos a condescendência. Na verdade, o que este entendimento hegemónico procura ocultar é a possibilidade, sempre em aberto, de que aconteça aqui, em Portugal e noutros pontos do chamado ocidente, aquilo que se passa na rua árabe. E já conseguem disfarçar mal a preocupação.

Por estes dias é difícil ver, nestas bandas, quem apoie o regime de Mubarak e que não diga que anseia pela democracia no Egipto. A linha importante traça-se entre aqueles que vêm nas revoltas da Tunísia e do Egipto um movimento de luta igualitária, cujo exemplo de justiça nos deve inspirar, e aqueles que repetem insistentemente a ideia de uma transição estável para uma democracia para-lamentar. Parece-me que quem não vê isto está em estado de negação.

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14 Responses to Da instrumentalização à negação.

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