Tudo o que é solido se dissolve no ar

Uma pessoa de quem gosto fica triste quando ouve os Deolinda cantar: “E fico a pensar, que mundo tão parvo onde para ser escravo é preciso estudar”. A mim arrepia-me a salva de palmas final de quem não esperava a canção, mas vê-se inscrito na letra. Reconhecer que esta existência não é normal é o primeiro passo para romper com uma lógica e uma política que nos amarra a vida. Há uma contradição insanável neste tempo: há cada vez mais gente com conhecimentos a quem nada deixam fazer. Tiraram-lhes o direito a trabalhar, adiam-lhes a vida até nunca mais. Essas pessoas têm o conhecimento e a vontade, mas apenas as deixam sobreviver. Até agora só se viam como gente sozinha que tinha um futuro escrito num livro de recibos. Descobriram que são muitos, muito mais do que aqueles que os escravizam. Começaram a perceber que podem ser fortes.
Há muitos anos, dois jovens de 28 anos escreveram que “os proletários nada têm a perder a não ser as suas cadeias. Têm um mundo a ganhar”.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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