Tudo o que é solido se dissolve no ar

Uma pessoa de quem gosto fica triste quando ouve os Deolinda cantar: “E fico a pensar, que mundo tão parvo onde para ser escravo é preciso estudar”. A mim arrepia-me a salva de palmas final de quem não esperava a canção, mas vê-se inscrito na letra. Reconhecer que esta existência não é normal é o primeiro passo para romper com uma lógica e uma política que nos amarra a vida. Há uma contradição insanável neste tempo: há cada vez mais gente com conhecimentos a quem nada deixam fazer. Tiraram-lhes o direito a trabalhar, adiam-lhes a vida até nunca mais. Essas pessoas têm o conhecimento e a vontade, mas apenas as deixam sobreviver. Até agora só se viam como gente sozinha que tinha um futuro escrito num livro de recibos. Descobriram que são muitos, muito mais do que aqueles que os escravizam. Começaram a perceber que podem ser fortes.
Há muitos anos, dois jovens de 28 anos escreveram que “os proletários nada têm a perder a não ser as suas cadeias. Têm um mundo a ganhar”.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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15 respostas a Tudo o que é solido se dissolve no ar

  1. susana diz:

    por acaso não entendo o furor em torno da letra dos deolinda. não é só por a achar fraquinha (não é o mero rótulo de ‘de intervenção’ o qualificativo, basta pensarmos em zeca afonso ou sérgio godinho), é também por me parecer o retrato de uma passividade absurda e pouco recomendável. estamos a falar de quem? daqueles que acabaram de eleger cavaco silva e que têm elegido o ps? o fado pode ser uma bela música mas a mensagem da passiva vítima do destino é deplorável.

  2. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Susana, não estou de acordo. Se ouvir até ao fim, a mensagem é tudo menos passiva. Vai em crescendo de indignação até ao basta. Além disso, de uma forma irónica demonstra a anormalidade a que as pessoas estão sujeitas.

  3. Inês diz:

    Passiva a letra dos Deolinda? Isso é uma leitura de alguém que está a acusar o dedo na ferida. Isso é atitude de gente passiva, que não sabe ler tão forte mensagem! Se não fosse forte ninguém fala dela ou nem reagia. Susana, leia os Jornais de hoje e o que se escreve sobre esta canção e surpreenda-se! O Zeca e o Godinho são grandes, mas na História da música em Portugal, os Deolinda já têm o seu lugar. São Grandes!

  4. diz:

    errrrr.
    Ó Nuno, agora a sério. Porque é que uma pessoa tem mais direito a emprego porque estudou? Já agora, importa aquilo que estudou, ou andar na universidade dá um direito divino a merecer mais um emprego que os demais? A música é obviamente anti-proletária no sentido em que é contra a proletarização daqueles que constituíam a classe média.
    Não tenho dúvidas que o Nuno tem um bom coração. Infelizmente, percebe muito pouco do mundo em que vive.

    • Nuno Ramos de Almeida diz:

      Zé ,
      Não consigo perceber sequer o que argumenta. É favorável que as pessoas que estudam não tenham emprego? Acha que as pessoas que têm o ensino secundário completo ou ensino universitário não devem ter emprego? A música não é sobre a classe média, mas sobre as novas gerações que vivem do trabalho precário. A precarização é uma forma de exploração, serve para contratar as pessoas por menos dinheiro e pressionar aqueles que têm trabalho para perderem as suas condições de trabalho. Tenho a impressão que não sou eu que não percebo no mundo em que vivo.

      • diz:

        Meu caro Nuno, não é uma questão de deverem ou não ter emprego mas de terem direito a um certo emprego. O Nuno pode chorar baba e ranho mas se não houver procura para todos os licenciados que produzimos, o desemprego e a precarização vão permanecer. Esta atitude saloia do “estudei, pelo qu tenho direito a algo” não o conduz a lado nenhum.

  5. Pedro Andrade diz:

    Sim, vai em crescendo, ao ritmo do fado, da desgraça e da chatice…
    Não, a música não tem qualidade. A vocalista não tem melodia e, para ser franco, se o público gosta e aplaude, é porque algo vai mesmo muito mal na nossa cultura.

  6. susana diz:

    ok, concordo que demonstra indignação até ao basta. continuo sem entender o furor, acho o texto fraco. encontramos melhor poesia de intervenção no sam the kid, ou nos primeiros da weasel e não encontraram a mesma hegemonia de comentários a elegê-los como porta-vozes.
    mas fui ouvir e é bom assistir à aclamação de quem se revê na mesma luta. gostei de ver os momentos de riso e de identificação no concerto. suponho que ilustre bem uma geração de licenciados que são excedentários no mercado de trabalho e que se endividam para construir o estilo de vida inerente ao estatuto da profissão, como o atesta o pormenor do carro por pagar. por outro lado, incomoda-me o slogan mais difundido, “em que para ser escravo é preciso estudar” por ser demagógico: há ainda assim certa distância entre a escravatura, e mesmo a escravidão, e a situação da exploração laboral.

  7. susana diz:

    não tinha ainda aparecido o comentário da inês quando deixei o meu (a moderação…). inês, a letra não é passiva. retrata uma vítima passiva, o que é outra coisa. que agora se revolta, mas que se deixou ir adentro da sua situação por passividade. percebe o que quero dizer? a própria situação é construída por ausência de consciência política. a modorra da vidinha.

    a mensagem tem partes. mas atenção: acho bom que a música sirva de veículo para a reivindicação de uma vida melhor e, só por aí, já ganhou. só que continuo perplexa, dado achar a forma pobrezinha: porquê esta a mobilizar a malta?

  8. susana diz:

    vocês deviam rever a cena da moderação. ainda agora nem o pedro nem o zé cá estavam. fica um bocado uma conversa desconexa. vá que não estou só. um pé-quebrado, caramba.

  9. rui david diz:

    susana, independentemente da “qualidade” da letra, não deixa de ser um sintoma.
    o extraordinário é que a miúda ainda tem o carro para pagar…e assim não, pá, assim não dá. carros de borla para os jovens, já! a crítica existencial “ao consumismo” não é para esta gaveta…
    AH! outro problema candente: marido e filhos, opções bem proletárias que estão a ser cerceadas…
    Um regime que não garanta já carros em conta para os jovens, e condições para maridos e filhos, um dia destes acaba mesmo no Egipto. Entretanto os jovens licenciados escravizados… vão aproveitando os pacotes low cost para visitar as Pirâmides…

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